Zé Global

Acontece muitas vezes que nos apercebemos duma coisa quando ela já tomou conta do nosso destino. Refiro-me à Globalização que, a par dos mercados, é uma espécie de novo papão que assusta os povos. Os papões modernos, tal como os antigos, não existem fisicamente mas materializam-se na acção concreta, impondo regras, ditando normas e comportamentos aos países. Como sombra de uma astronave invisível, a Globalização envolveu toda a gente, a nível planetário. Uma superestrutura, impalpável como os fantasmas, que agridem de surpresa, e onde só poucos eleitos conseguem esquivar o soco.

Foi neste contexto que, um dia, os habitantes de um país sentado ao sol, as pernas a irem e virem sob um banco dum jardim à beira mar plantado, acordaram “Globais”.

A bem dizer, não se tratou duma novidade em si mesma porque, de facto, Portugal na Era dos Descobrimentos teve um papel de relevo numa certa forma de globalização na idade moderna. A descoberta e a exploração de novas terras, levou à expansão do comércio e das transações financeiras, incrementou o movimento de pessoas e acresceu a difusão do conhecimento no mundo antigo. Mas a história é uma matéria complicada e não apagou as dúvidas dos cépticos.

A pergunta ficou: Mas afinal quem somos nós?

Até há pouco tempo, os portugueses tinham percebido, e aceite, serem primeiro africanos – com as colónias – e depois europeus – com a entrada na UE – e também lusófonos e mais brasileiros com o novo Acordo Ortográfico. Mas, isso de serem “Globais”, assim de rompante, sem sequer um bom dia, não é fácil de compreender e assimilar.

Alguns entenderam logo o conceito e aproveitaram-se, outros fizeram de conta, outros ainda, estranhando a nova palavra , ficaram de pé atrás, como um tal nos versos do poeta algarvio:

«Ao chamar-te inteligente,
ficaste desconfiado,
por ser um nome diferente
dos que te têm chamado!
» (1)

Ter conhecimento de que a Globalização era a mãe (pai não, porque mater semper certa est, pater numquam) da trapalhada económica e financeira do país, permitiu elaborar uma espécie de desculpabilização colectiva das responsabilidades públicas e particulares, mas não deu plena resposta sobre o mistério dos males crónicos da nação.

Veio, porém, confirmar uma certeza conhecida: a vida individual depende de forma directa ou indirecta da vida de outras pessoas. Herman Melville no seu livro “Moby Dick”, dizia mais ou menos assim pela boca do protagonista: “a vida de cada um está ligada, com um vínculo siamês, à vida de tantos outros mortais, e apesar de todos os nossos esforços para manobrar bem a sua corda, é preciso nunca esquecer que só temos o controlo de uma das pontas“.

Por isso, não é de admirar se vivemos todos na esperança de que não nos aterre um avião na sopa, e no receio, mais ou menos inconfessado, de ver cair um pedaço de satélite vagante no arroz de cabidela.

Será que a crise se tornou endémica e incurável como a malária em África?

A epidemia do Covid-19 é a cerejinha que veio enfeitar o bolo. Todos os dias ouvimos os salmos lúgubres, aguentamos o suplício da verbosidade torrencial de uma copiosa informação. Neste estado geral de incerteza e desassossego, não há lugar para pieguices sentimentais, porque o tempo não é clemente com as boas intenções, de que o inferno está cheio.

Perante negligências e incúria – de ontem e de hoje – o absoluto da seca é a ladaínha instrumental, para sacudir a água do capote: «Eu cá não fui, só se foi aquele menino!»


Maria J. Mendes

* A autora usa a norma ortográfica anterior.


(1) António Aleixo (1899-1949)

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