X, o ex-general putinófilo

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Chamemos-lhe “X”.

Conhecido dos seus pares, com carreira geralmente bem-sucedida, supostamente inteligente e competente, ex- general do Exército.

É o retrato robot de alguns dos comentadores putinófilos que ultimamente têm brotado nas televisões portuguesas, como cogumelos em floresta húmida.

São chamados a opinar como especialistas em questões militares, por jornalistas naïves, preguiçosos ou maquiavélicos.

Os maquiavélicos são do mesmo culto de X, os preguiçosos perguntam aos maquiavélicos que especialista chamar, e os naïves aceitam X com toda a normalidade, sem fazer a mínima ideia do sectarismo ideológico de X.

Ora, acontece que a cosmovisão de X é semelhante à de Mugabe, Chavez, Jerónimo de Sousa e outros seres igualmente peculiares, e isso dificilmente se pode considerar um critério de normalidade.

E sei (empiricamente) que essa visão do mundo tem uma certa representatividade nas nossas Forças Armadas.

O facto só não é preocupante, porque somos hoje uma democracia, uma sociedade nas antípodas daquela que X considera “boa” e porque, quando no activo, X disfarça meticulosamente as suas estranhas inclinações, no trato com os seus pares, já que isso são coisas que não se discutem no âmbito profissional, até porque as leis e regulamentos expressamente o proíbem.

Mas “o exército é o espelho da nação”, garantia Ortega y Gasset, e talvez se deva procurar aí a pista deste analfabetismo ideológico que a formação militar não só não corrige, como nem sequer aborda.

A guerra é o mais complexo empreendimento humano mas, não tendo uma lógica própria, está subordinada à finalidade política, pelo que nas escolas de oficiais, além da gramática da guerra, isto é, as técnicas e os princípios necessários para a ganhar, talvez devessem também ser  ensinadas as lógicas políticas e ideológicas que estão a montante e que, muitas vezes, são importantes na própria avaliação dos factores militares do potencial relativo de combate.

Tal não acontece, e suspeito que é essa a causa do cretinismo filosófico que se revela na dificuldade de muitos militares em pensar de fora todas as dimensões do fenómeno “guerra”.

A cultura filosófica média dos militares, tende assim a ser estreita e pobre, decantada num especialismo provinciano e fechado, a que só se escapa por um deliberado esforço autodidata.

Aprende-se a fazer a guerra, mas não a pensá-la.

Por isso mesmo, as opiniões sobre a guerra e as guerras são geralmente marcadas por simplistas visões marxistas, assentes em moralizações instrumentais e selectivas.

Poucos militares leram Clausewitz ou Sun Tsu, ou até a História da Guerra do Peloponeso, muitos deles “sacaram” apenas umas frases e citam-nas urbi et orbi como se fossem consagrados exegetas dessas obras.

Claro que isto não se passa apenas com os militares, provavelmente é o resultado da corrida para a especialização em todos os campos do saber.

Engenheiros, médicos, dentistas, advogados, etc., tendem também a ser meros técnicos, analfabetos em tudo o que não seja a “sua área”, excepto se fizerem um esforço extra para não se deixarem encurralar na caixa da especialização.

Gente assim é facilmente influenciável por narrativas simplificadoras, o que se comprova com a notável percentagem de universitários arrebanhados por seitas como a Aun Shinrikyo, ou seduzidos por religiões seculares (marxismo, por exemplo), pelas diversas teorias da conspiração que “explicam” tudo e o seu contrário, com narrativas do presente para o passado.

É também isso que explica a facilidade com que a manipulação e a propaganda fazem o seu caminho nas classes supostamente mais “esclarecidas”.

O povo bem aconselha que não vá o sapateiro além da chinela, mas como resiste “X” a um microfone que lhe permite aparecer na televisão, em pose catedrática e babada, a debitar soundbites que ele acredita inéditos e inteligentes, sobre as massas ignaras?

Mas porque – ao contrário das cáries e dos cálculos da resistência dos pilares de uma casa – as guerras são tema de debate político e frequentemente fenómenos determinantes na vida dos povos, militares e políticos de visão estreita podem ser bastante mais perigosos que odontologistas, como se prova com Péron, Chavez, Putin, e se viu por cá durante o PREC, quando tantos militares (antecessores de X) foram manipulados ideologicamente por rapazolas semiletrados, de cabeça virada por leituras apressadas de livrecos de Lenine ou Mao.

Seja como for, a maioria dos militares portugueses envergonha-se de “X”, da mesma maneira que se envergonhava cada vez que Otelo, por exemplo, vinha à televisão debitar as inanidades ideológicas que lhe brotavam dos neurónios, no intervalo entre dois “pá”!

Porque a ignorância filosófica, o sectarismo ideológico e a desonestidade intelectual são como uma nódoa que não fica apenas no babete de “X”, e se derrama sobre todos aqueles que fazem ou fizeram parte das forças armadas.

Na verdade, sobre a própria Instituição.

E é uma pena, porque há nela gente muito, muitíssimo mais capaz para vir a público opinar sobre esta guerra.


José do Carmo

*O autor escreve segundo a anterior norma ortográfica

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Latest comments

  • Excelente artigo! Não se aguenta ouvir esses X ou o imberbe Guerreiro. Contudo, pelo rumo que o país leva, até chegaremos a ter cáries mal tratadas e pontes a cair. A promoção da mediocridade começa nos curricula escolares e acompanha o cidadão na sua casa, via TV.

  • Este texto (excelente!) comprova que neste País (ainda) há quem seja capaz de pensar e escrever condignamente. Cada vez mais raro.
    Pergunta (retórica): será que o X chegou a “ex-general” por uma cor do “cartão partidário” ou por “mérito militar”? Fica a dúvida…
    Subscrevo. Sem reticências!

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