Um presente confuso

Tal como aconteceu com a gripe espanhola que atingiu e dizimou a população mundial entre 1918 e 1920, pondo em crise todos os modelos institucionais e organizacionais de saúde, também a pandemia da Covid-19 abriu a sua caixa de Pandora de vítimas, dúvidas, incertezas e angústias. Ambas se expandiram muito rapidamente e provocaram mortes num curto espaço de tempo, embora se insiram em contextos e épocas diferentes. Sobre a origem do vírus da alcunhada “espanhola”, chamada assim porque, na Europa em guerra, foi a imprensa espanhola a primeira a revelar a notícia, escreveram-se rios de tinta.

Estudantes de Tóquio com a máscara protectora durante a pandemia de gripe espanhola em 1919.


Hoje, decorridos mais de cem anos, continua-se a analisar e querer compreender a pandemia do século passado. Consultam-se documentos da época, fazem-se pesquisas, formulam-se hipóteses com base em estudos pós-guerra, na intenção de fazer uma síntese sobre as suas causas, a natureza do vírus, o número de vítimas e sua distribuição por sexo, idade e zonas do globo.

Deste facto deduz-se que a realidade é sempre muito mais complexa do que as ideias que se podem ter acerca dela.
A verdade é que se sabe ainda muito pouco sobre o vírus Covid-19 e suas mutações, o que induz um medo generalizado de algo impalpável e não visível. É difícil aceitar a convivência com uma ameaça invisível, sem reagir vergastando o mundo institucional e político, à procura de responsabilidades e respostas. Igualmente, pretende-se da ciência, quase ingenuamente, certezas consolidadas, eficácia indiscutível de medicamentos e tratamentos, eficiência imediata dos meios de contraste à doença.

A nível psicológico, os efeitos da pandemia Covid-19, sobre as pessoas não são de subestimar. A perda de familiares, o temor pela própria saúde e pela dos que nos são queridos, juntamente com o isolamento social, requerem um grande esforço de adaptação ao constante e rápido fluir dos eventos. Para não falar da perda do trabalho. Criou-se um clima de insegurança que constitui terreno fértil para favorecer depressões, dependências e, às vezes até, ataques de pânico. A convivência inesperada e forçada com o vírus, alimentada por um excesso de informação por vezes contraditória, acresceu a ansiedade colectiva. Enfrenta-se, com poucos meios à disposição, um inimigo real mas indeterminado. Ao passo que o medo se refere a um objecto definido e identificável (por exemplo, perante o medo de ser atropelado por um carro somos levados a olhar os dois lados da estrada antes de atraversar), no caso do vírus nem se sabe exactamente a orígem, nem quem nos pode contagiar, nem se, e quando, vai desaparecer.

Então, como se pode explicar às pessoas esta pandemia? Talvez, ironicamente, com a metáfora do “ovo frito”. Conta-se que um dia um jornalista pediu a Einstein que lhe explicasse a Lei da Relatividade. Tratando-se de uma questão complexa, que não se podia resumir rapidamente em poucas palavras e cuja compreensão requeria uma certa bagagem de conhecimentos, Einstein perguntou se o outro lhe podia explicar como se frita um ovo. “Óbvio que sim!”, foi a resposta. Ao que Einstein retorquiu: “Então explique lá, mas faça de conta que eu não sei o que é um ovo, nem uma frigideira, nem o óleo, nem o lume”.

Concluindo, se calhar, vamos que ter de explicar a pandemia imaginando falar com uma criança, que não sabe o que é um vírus, nem um teste antigénico, nem um booster, nem compreende números e estatísticas. Como no debate sobre a forma da Terra, afirmar que ela não é plana mas redonda não chega. Como alguém objectou, a pizza também é redonda mas não é esférica. A comprovação da verdadeira forma do nosso planeta foi alvo de acusações e terríveis controvérsias. Foram precisos muitos anos de observação, coragem, tenacidade e estudo, para construir uma argumentação séria, credível e consistente, que ultrapassasse vozes e murmúrios desconfiados.


Maria J. Mendes

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Latest comments

  • Foca, exemplarmente, um aspecto menos frequentemente abordado: o medo, fonte de ansiedade; o isolamento, fonte de depressão. Seria muito útil que surgissem mais reflexões como esta, deixando de lado certezas sem fundamento e agressividade sem sentido.

  • O primeiro grande erro começa quando as pessoas lêem os jornais e passam horas à frente da “tel-a-vision”, de forma acrítica.
    O que está a criar o medo não é o sars-cov-2 (longe das vista longe do coração), cuja probabilidade de matar é inferior a 2%, mas a actuação dos governantes, ditos especialistas e em especial dos meios de comunicação. “Uma mentira repetida vezes sem conta, passa a ser verdade” já dizia o hitler.
    Pandemia? Como é que se chegou a essa conclusão?
    .
    Pfizer CEO Albert Bourla
    https://www.youtube.com/watch?v=P6O6FqYYImk

  • Pandemia foi declarada pela organização mundial da saúde, não pela quantidade de casos e/ou porque a doença se estava a espalhar de forma exponencial, nessa altura. Tinham eles uma bolinha de cristal ou conseguiam ler o futuro? fica ao critério de cada um.
    Qual foi o teste de DIAGNÓSTICO utilizado para confirmar que ia haver uma pandemia? O agora famoso rt-pcr. O teste que o criador disse que não servia para diagnóstico porque era um teste quantitativo etc.
    O mesmo rt-pcr que o tribunal da relação de Lisboa diz que 97% dos positivos são falsos positivos, por causa dos ciclos, e que o centro de controle de doença americano diz que não distingue a influenza do sars-cov-2 e foi aconselhado a não ser mais utilizado a partir do dia 01-01-2022.
    Mas deixo-lhe, mais duas joias.
    .
    Dr Wuzunyou Chinese center for desease control(1)
    “They didn´t isolate the virus, that is a issue
    it doesn´t tell you anything, if they only tested positivet”
    .
    Eles não isolaram o vírus, isso é um problema
    não diz nada, se eles apenas testaram positivo
    .
    (1)https://odysee.com/@OpenYourEyes:c/Dr.-Wu-Zunyou-from-the-Chinese-Center-for-Disease-Control-admits-on-camera-to-NBC-that-they-didn’t-isolate-the-SARS-COV-2-virus.:5
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    RT-PCR
    “Aim: We aimed to develop and deploy robust diagnostic methodology for use in public health laboratory settings without having virus material available.”(2)
    .
    Objetivo: Nosso objetivo é desenvolver e implantar uma metodologia de DIAGNÓSTICO robusta para uso em laboratórios de saúde pública sem ter material do vírus disponível.
    .
    (2)https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31992387/
    .
    Como é que se cria um teste para ver se alguém está infectada com um determinado vírus, sem ter isolado esse vírus? sem saber qual é o vírus? Como posso encontrar algo, quando não sei que algo é esse?

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