Um país inundado de palavras

Portugal é um país inundado de palavras. Muito se fala, muito se comenta, muito se analisa, muito se discute, muito se anuncia, muito se promete, muito se justifica, muito se mistifica. Quem está na dianteira do preenchimento do espaço informativo, com especial incidência nas televisões, julga que molda a cabeça dos cidadãos para assimilar os seus intentos. Tudo espremido, como se diz, o que fica? Quase nada, se tivermos em conta que vivemos numa sociedade estagnada, agora receosa com a difícil situação em que se encontra. Uma sociedade onde o presente é palavroso e o futuro, de tão incerto, pouco significado tem.

O Supremo Magistrado da Nação está sempre a falar. Antes da pandemia, com três ou quatro eventos por dia, tinha opinião sobre todas as coisas, mas omitindo o que não lhe dava jeito. Com a pandemia, tem sido também uma enxurrada de palavras. Começou com as reuniões do Infarmed e prosseguiu com as comunicações ao País sobre a declaração e renovações do estado de emergência. No total, doze intervenções, sem contar com os comentários para, por vezes, justificar o injustificável. Da sua última intervenção, em 25-2-2021, houve quem não concordasse com a sua argumentação ao declarar que “sabemos que os números sobem sempre mais depressa do que descem”.

Henrique Pereira dos Santos, que no blogue Corta-Fitas tem acompanhado e comentado os números do Covid-19, lamentou, em artigo de 26-2-2021, que o Presidente tivesse feito “afirmações manifestamente falsas, que lhe acrescente fantasias sem qualquer base, que argumente com razões de comunicação para justificar o sacrifício real que está a impor aos mais pobres, aumentando a desigualdade do país”. Quando falou, os números já estavam a descer acentuadamente mas, para Marcelo, a manutenção do confinamento, nos termos em que está a ocorrer, deriva da necessidade de não baralhar as pessoas, abrindo agora e fechando uns dias na Páscoa, para voltar a abrir depois. Raciocínio esquisito!

O primeiro-ministro segue a mesma via de encher o País de palavras, para divulgar decisões, explicar medidas, reagir a críticas, minimizar situações embaraçosas para ele e para o Governo, responsabilizar os outros pelas falhas e erros cometidos pelo Governo, prometer o que raramente cumpre. Para tanto, com o apoio de uma máquina de propaganda caríssima, o que é preciso é ocupar todos os dias as televisões com longas comunicações em directo, constantes entrevistas, visitas públicas que permitem mais declarações e justificações. Em suma, mesmo que seja apenas para dizer banalidades, o que importa é dizer alguma coisa e, assim, fazer de conta que se está a agir.

Depois, temos a lenga-lenga sobre o comportamento dos portugueses. Em 2-3-2021, na passagem de um ano de Covid-19, Marcelo saudou o modo como os portugueses “se comprometeram na resposta a esta pandemia.” Na última comunicação sobre a renovação do estado de emergência, em 25-2-2021, já tinha mostrado que lhe ficava bem elogiar-lhes a “lucidez, determinação e coragem”. Na mesma altura em que Marcelo os enaltecia, o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, em 24-2-2021, responsabilizava os portugueses pela pior quinzena do estado de emergência, ao não interiorizarem “a necessidade de cumprimento estrito das novas regras em vigor”. Por isso, na lógica de Cabrita, a melhor resposta seria mais repressão, com mais polícia na rua e nas estradas, multas mais pesadas – e mais detenções, se for caso disso. Ao mais alto nível do Estado, não podia ser mais clara a desafinação!

É caso, pois para perguntar: quem responsabiliza estes decisores políticos de palavra fácil mas contraditórios nas suas atitudes? Num ano de pandemia, os portugueses assistiram às mais variadas declarações contraditórias e insensatas de responsáveis políticos, fruto da verve fácil com que se abordam os problemas. Os portugueses não compreenderam também decisões tomadas sem qualquer coerência e que tiveram de ser corrigidas, nem aceitaram as liberdades que os políticos reservaram para eles próprios, como se fossem uma casta protegida, quando, pelos condicionamentos impostos, está proibido a um elevado número de cidadãos ganhar o seu salário.

Bem pode António Costa fazer apelos ao “sentido cívico de todos” que o efeito que produz começa a ser reduzido. Segundo o Público, de 28-2-2021, quase quatro milhões de portugueses saíram à rua no último sábado, número que deverá ter sido repetido no domingo. O tempo primaveril convidava a um passeio, as pessoas não se fizeram rogadas e esqueceram por momentos o confinamento. Quando um Governo deixa de ser levado a sério por erros clamorosos cometidos, excesso de propaganda, insensatez, contradições e arrogância, como sucede com este executivo socialista, os cidadãos quiseram dizer-lhe que a liberdade representa na sua vida um valor de que não abdicam.  


Francisco Menezes

* O autor usa a norma ortográfica anterior.

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