Ucrânia, Ocidente: o que aí vem?

Putin sabe que está a perder.

A perder homens, tempo, material, prestígio e liderança.

Poder!

Cada dia que passa sem alcançar os seus objectivos é uma machadada dolorosa na sua estratégia, no seu ego, na imagem que pretendeu construir de uma Rússia com umas Forças Armadas temíveis, equipadas e treinadas, e sobretudo a actuar num terreno próprio para forças blindadas e mecanizadas, face a um inimigo mal equipado e praticamente sem apoio aéreo.

É um fiasco de proporções bíblicas.

Neste momento já sabe perfeitamente que não vai conseguir entrar em Kiev sem dezenas de milhares de mortos, não sabe mesmo se conseguirá entrar.

Não era isto que tinha antecipado. Isolado na sua bolha, o que esperava era uma rendição rápida da Ucrânia, perante um poder aparentemente esmagador. 

Que as coisas não iriam ser assim, qualquer militar minimamente conhecedor podia antecipar. 

Eu mesmo, no dia 02 de Fevereiro, antes da invasão russa, escrevi aqui no Inconveniente que “Em 2014, os russos passearam a sua esmagadora superioridade, mas desde então o Exército ucraniano cresceu, equipou-se e melhorou o suficiente para que um eventual avanço russo não seja um passeio ao luar”.

Também escrevi, mais tarde, que a Rússia, perante o falhanço da blitzkrieg usaria tudo o que tem, sobre tudo o que mexe, como fez sempre que, nos últimos anos, se lançou à conquista.

Sem olhar ao jus in bello, aos civis, aos hospitais, ao que quer que seja, inventando os pretextos que sejam necessários.

Já está a utilizar bombas termobáricas e prevejo que venha aí, a breve prazo, a utilização de armas químicas e biológicas, sobre cidades, de resto já começou a argumentação da propaganda russa nesse sentido.

Se mesmo assim não houver rendição, fará detonar uma bomba nuclear táctica como aviso e depois outra numa grande cidade, se for necessário.

É uma enormidade, mas irá acontecer, a menos que os Estados Unidos subam a parada e joguem credivelmente o jogo de chicken que Putin está a ensaiar com maestria, ou o ditador seja deposto internamente.

Este ditador fascista, idolatrado tanto pelos comunistas, como pelos fascistas e nacional-socialistas, aqui mesmo, nas nossas sociedades, não parará por aqui, da mesma maneira que, ao longo da História, nenhum dos seus semelhantes parou de moto próprio.

Mas se se chegar a esse ponto, abre-se a Caixa de Pandora e o mundo não será o mesmo.

Haverá uma frenética corrida às armas nucleares, porque nenhum país se irá sujeitar à possibilidade de lhe acontecer o mesmo, pelo mero diktat de um indivíduo, com o botão na mão.

Há uns anos, em “Ocidente, o Poder Impotente” escrevi que “quem irá lutar se a Europa for devolvida à História, é uma questão que nem sequer se coloca a quem não a acredita verdadeiramente que tal seja possível”, como se a paz fosse, ou alguma vez tivesse sido, o fruto espontâneo de alguma árvore.

Percebemos que não é assim quando visitamos, por exemplo, as ruínas de um castro lusitano e tentamos imaginar o que levava aquela gente a agrupar-se no cimo dos montes, com obstáculos defensivos. É que não havia a quem recorrer, o mundo era (e continua a ser) hobbesiano, o grupo ou se defendia ou era dizimado.

O Ocidente terá de mudar.

O condomínio kantiano acabou, a História está de regresso e nela existe a guerra, cujo resultado é por vezes determinante na vida e morte das nações.

E ganhar ou perder nesse jogo do tudo ou nada, depende fundamentalmente da vontade e da capacidade para usar a força.

Essa vontade tem muito a ver com a identidade.

E no Ocidente, fruto de uma cultura derrotista, autoflagelante e assente na culpa, são cada vez mais as pessoas que entendem os conflitos como sendo devidos, não à vontade do “outro”, mas a nós, à nossa insuficiente compreensão das suas razões.

Isto é o argumento do violador, segundo o qual, a violação se deve mais à atitude “provocadora” da vítima, do que a um acto de vontade do violador, o qual é “compreendido”, “contextualizado” e de certa forma desculpado, como se fosse prisioneiro da inevitabilidade e dos instintos,  como se não fosse, no fundo, um ser racional e inteiro.

É exactamente isto que diz a propaganda russa sobre a guerra com a Ucrânia, e é exactamente isto que repetem os seus numerosos corifeus e admiradores.

Mas a relutância em usar a força, a compulsão para não escalar a gesticulação e o medo, reduzem a capacidade dissuasora face a inimigos racionais e são inúteis face a inimigos irracionais, pelo que o resultado perverso é, inevitavelmente, uma maior probabilidade do uso da força por aqueles que não se sentem dissuadidos e estejam dispostos a causar e sofrer danos inaceitáveis.

Sim, vamos ter de mudar. E essa mudança passa pela restauração da confiança e do orgulho nos valores que definem o paradigma ocidental e que não são claramente os que agora prevalecem nas culturas derrotistas e relativistas que se instalaram como vírus, nos media, no ensino, no próprio coração daquilo que somos.

Porque, em ultima análise, se queremos que o nosso mundo prevaleça para que os nossos filhos e netos tenham um futuro, vamos ter de lutar e só se luta e morre por aquilo em que se acredita.


José do Carmo

* O autor escreve segundo a anterior norma ortográfica.

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Latest comments

  • Há uma abusiva maneira de usar os termos fascista, , comunista e retóricas semelhantes.
    Parece-me que apelidar um indivíduo com esses termos poderia querer dizer que o colectivo russo o segue com mão estendida como os fascistas de Mussolini, ou de punho em riste como os leninistas da ex URSS que cedo perceberam para que eram usados, quando Lenine, Trotsky e depois Stalin, começaram a perseguir os pequenos delitos de opinião e os desvios, sempre escravizando o povo e beneficiando as nomenklaturas de cada ocasião que também batiam palmas em uníssono mas sempre olhando para quem parava antes, aliviados ao momento e levados à noite, para os Gulag.
    Tem seguidores, mas não tem hordas seguidoras e nem os militares mais jovens, mesmo os profissionais em nome da Pátria ou do emprego o vão seguir até à morte, porque não sabem ao que vão muitos deles, nem aquela é a sua terra.
    Então, como no tempo de Stalin, militares ou milicianos jovens, impreparados e decerto forçados por ”alguns” sargentos ou oficiais veteranos alguns decerto mercenários, seja à porrada ou a tiro, a seguir e prosseguir mesmo assistindo a cenas a que a duração da contenda, nem a causa os faria adivinhar, os horrores dos camaradas mortos, estilhaçados ou queimados com os corpos disformes e inchados intimidados decerto, (quem não ficaria) e meu Deus… o cheiro da coisa! Aí, a psicologia de grupo não vai funcionar e a individual começa a se perguntar o que os levará a estar em território com língua e se o seu destino não poderá ser o dos que ficaram e tombaram no meio de toda a loucura a que foram forçados, quando passaram a fronteira.
    Putin, um torcionário, assassino e burocrata da ex URSS, dizem que ex-coronel da KGB, nem decerto saberá na sua bolha, o que decerto deveriam saber os generais que o rodearam, falhando nas previsões, da estratégia e das tácticas e sobretudo no conhecimento do inimigo e do estado psicológico dos seus próprios militares.
    Sim é uma situação perigosa mas os homens que restarem terão de prestar contas pelo genocídio e muitos já decerto o saberão.
    Não se trata de criticar o Senhor Coronel, cujo artigo aprecio, apenas especular fora do campo de Marte.
    Muito obrigado.

  • Obg pelo seu comentário, muito bem escrito e com substância. O termo “fascista” aplicado ao Sr Putin, não sendo 100% adequado, não é aqui utilizado como uma espécie de insulto. É que a retórica,a praxis e a ideologia de fundo não é muito diferente, mutatis mutandis, do que fez Mussolini. Mesmo a origem é semelhante…..um veio da ala esquerda do Partido Socialista Italiano, o outro do aparelho comunista. Quanto ao movimento de massas, os tempos são outros, mas o Sr Putin foi repetidamente eleito, pese embora a duvidosa credibilidade das eleições, pela maioria dos russos. E goza, ainda de enorme popularidade , ao que se sabe

  • Ora Bem
    01:15 Félicitations pour le 8 mars aux femmes russes et françaises
    04:28 Le théatre des opérations
    14:40 Considérations sur les stratégies ukrainienne et russe
    24:55 Nucléaire, biologique, épuration ethnique
    29:50 Absurdité des sanctions
    https://www.youtube.com/watch?v=6g4nnKDY7A4&t=309s

  • Ora Bem (update)

    01:00 Rouleau compresseur russe ?
    07:30 Théatre des opérations
    13:20 Sanctions et contre-sanctions
    – Irremplaçable énergie russe
    – Le tournant chinois
    – Le Quai d’Orsay vs la France et les Français
    – Nationalisation
    – Remplacement des importations
    23:32 Dévaluation et inflation
    29:42 Sauvons le lycée Français de Moscou

    https://www.youtube.com/watch?v=lqaA4BlPSQc

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