Transição ou transação energética?

Um pouco de história

A história das energias eólica e solar é muito antiga. Os moinhos de vento para moagem, bombagem de água e a navegação à vela têm uma história de milénios bem como a secagem de frutos, peles e roupas ao sol que será ainda mais antiga.

Mas a moderna energia eólica para produção de eletricidade industrial começou há bem menos tempo, quiçá nos anos 60 ou 70 do século XX, principalmente na Dinamarca e de forma muito incipiente; porém, antes deste novo início da energia eólica também houve os chamados aerodínamos do início do século XX que, associados a baterias, permitiam ter eletricidade em zonas remotas sem rede elétrica. Experiências mal sucedidas do passado com grandes aerogeradores recomendavam prudência aos novos pioneiros da energia eólica na dimensão das máquinas que foi crescendo paulatinamente até aos dias de hoje.

Assim, as eólicas passaram de potências unitárias modestas como 30 ou 50 kW nos anos 80 do séc. XX para os 2 ou mais MW atuais, melhorando deste modo a sua competitividade no que respeita ao preço da energia produzida.

A moderna energia solar fotovoltaica, apesar de ser conhecida da ciência desde a descoberta do efeito fotoelétrico em 1839 pelo físico francês Alexandre Edmond Becquerel só teve realização prática, próxima da que conhecemos hoje, em 1954 pelo estadunidense Russell Shoemaker Ohl, dando início à utilização de painéis solares fotovoltaicos quatro anos depois.

Os painéis fotovoltaicos passaram a ser produzidos em grande escala e o seu preço baixou ao ponto de também poderem competir com fontes convencionais de produção de eletricidade, já que de início tinham um sério handicap: o seu fabrico exigia mais energia do que aquela que iriam fornecer durante a sua vida útil, não sendo pois possível construir uma fábrica de painéis fotovoltaicos que funcionasse com energia dos próprios painéis, havia que pôr energia extra que não era renovável.

Não sabemos até que ponto este handicap foi completamente resolvido mas o fabrico de painéis fotovoltaicos requer muita energia e, por isso, não admira que sejam produzidos maioritariamente onde a energia e a mão-de-obra são baratas, ou seja, na China. Ao comprar painéis à China, vamos recuperar a energia que consumiram na China (quiçá do carvão), e mais alguma talvez!

Ambas as tecnologias, eólica industrial e solar fotovoltaica deram entrada de forma tímida porque eram consideradas como inviáveis economicamente em comparação com outras tecnologias, só conseguindo competir com elas em zonas remotas, sem acesso a uma rede elétrica.

A crise petrolífera de 1973 levou a que alguns governos financiassem projetos-piloto de energias alternativas que foram mostrando que era possível pensar na integração em maior escala destas tecnologias nas redes de energia elétrica. Os primeiros projetos de energia eólica passaram a ser subsidiados de modo a que pudessem ser economicamente viáveis para os investidores. Depois vieram as solares fotovoltaicas que também beneficiaram de apoios.

Além da já estabelecida tecnologia eólica em terra, surgiu também a eólica off-shore (no mar) que visa aproveitar mais energia por MW instalado mas que, por requerer investimentos muito superiores, ainda não consegue competir com a sua antecessora, tendo, apesar disso, vindo a ganhar terreno (ou mar) porque se esperavam reduções nos custos, mas estas não se verificaram.

Segundo os defensores das energias “verdes”, eólicas e solar, elas têm diversas virtudes – de que falaremos a seguir –, mas que podem não passar de argumentos dos respetivos lóbis destinados a convencer os governos a continuar a apoiá-los, em nome de boas causas. Passemos à análise de alguns desses argumentos:

Fontes gratuitas, abundantes e inesgotáveis

Se é verdade que as fontes de energia vento e sol são gratuitas, abundantes e inesgotáveis (a das hídricas também), são fontes de energia intermitentes o que torna mais cara a energia das outras fontes, como as das centrais térmicas (porque lhes reduz a utilização), ou requer investimentos avultados para o armazenamento da energia. Além disso, a vida útil relativamente curta das eólicas e solares, principalmente a das eólicas que não chega a 20 anos, requer investimentos elevados todos os anos para substituir equipamentos e/ou para aumentar a potência instalada tendo em vista as metas de “descarbonização” estabelecidas.

Ecológicas e de baixas emissões de gases de efeito estufa

A produção de aerogeradores exige a mineração de terras raras, fabrico de peças em aço, fibra de vidro, resinas e plásticos (derivados do petróleo), alumínio, madeira balsa, extensão de redes de cobre, entre outros materiais. Alguns componentes como as pás de fibra de vidro reforçadas não são em regra recicladas e acabam em aterros sanitários ou enterradas a poucos metros de profundidade. No fabrico, transporte, instalação, manutenção, desmontagem e transporte e reciclagem há que despender energia, em parte não renovável. O EROI (Energy Return on Investment) dos aerogeradores, ou seja, a relação entre a energia que produzem e a necessária para os produzir, transportar, erigir, manter, desmontar, etc. é de 4. Em cada 4 kWh produzidos, um é perdido nas várias etapas de realização da instalação eólica. Uma central a carvão tem um EROI de 30 e uma nuclear de 75!

Os painéis solares fotovoltaicos, cujas instalações parecem tão amigas do ambiente, podem em poucos anos representar riscos ambientais graves uma vez que têm, na sua composição metais pesados e outros produtos tóxicos. Podem conter, por exemplo: cádmio, chumbo, arsénio, componentes tóxicos de soldaduras, sílica cristalina, plásticos, alumínio, etc.. E, uma vez que o EROI dos painéis fotovoltaicos é de apenas 2 (ou menos?), uma reciclagem conveniente poderia reduzir ainda mais o pequeno ganho de energia que eventualmente representam!

Nas alegadas baixas emissões de gases de efeito estufa (GEE) ignora-se muitas vezes a energia de input, partindo-se do pressuposto que, apesar de ela ser alta, como se evitam os GEE que aquecem o planeta e o aquecimento do planeta é algo indesejável – o que, segundo Steven E. Koonin, não é bem assim.

Redução da dependência energética

Quanto à redução da dependência energética, se é verdade que se compra menos combustível para a produção de eletricidade, as renováveis (eólica e solar) não dispensam o apoio das centrais a gás (e outras) para colmatar as intermitências, o que pode constituir oportunidade para o aumento do preço do gás, arrastando consigo o de outras fontes, dado serem imprescindíveis.

A União Europeia enfrenta concorrência desleal da China na produção de aerogeradores e painéis fotovoltaicos e os fabricantes europeus perdem cada vez mais dinheiro porque são pressionados pelos promotores de parques eólicos e solares que reclamam do desempenho garantido dos equipamentos e da redução dos subsídios estatais que durante muito tempo sustentaram (e ainda sustentam mas menos) a indústria das renováveis que eram consideradas imaturas, segundo se pode ler neste artigo de 10-10-2023 do The Telegraph.

Segundo o artigo em questão:

“Para combater a crescente ameaça dos fabricantes chineses de turbinas, a UE está considerando lançar uma investigação sobre o uso de subsídios pela China para promover os fabricantes de turbinas do país. A UE já impôs tarifas aos tecidos chineses de fibra de vidro, que são usados em pás de turbinas eólicas. O comissário interino da UE para a concorrência, Didier Reynders, afirmou que as importações chinesas baratas podem ameaçar as empresas europeias. Uma decisão sobre avançar com uma investigação é esperada para o final deste mês, apesar de uma reação furiosa de Pequim sobre uma investigação semelhante sobre veículos elétricos.”

Ou seja, a dependência energética passa a ser agora principalmente em relação à China que detém o quase-monopólio no setor fotovoltaico. Deixa-se de importar combustíveis para passar a importar equipamentos de vida útil curta que exigem investimentos avultados todos os anos. Quer isto dizer que, face ao reduzido valor do EROI destes equipamentos, é como se estivéssemos a importar energia da China.

Criação de empregos e desenvolvimento local

É um facto que as energias eólica e solar proporcionam empregos como qualquer outra atividade económica. Contudo, não necessariamente nos países que as utilizam, mas principalmente nos países que fabricam os equipamentos ou a quem se contratualiza a sua instalação.

“O emprego global na energia eólica onshore e offshore cresceu para 1,4 milhões de empregos em 2021, acima de 1,25 milhões em 2020. A maior parte do emprego eólico está concentrada num número relativamente pequeno dos países. Só a China foi responsável por 48% do total global, a Ásia representou 57%, Europa 25%, Américas 16% e África e Oceania 2%” – pode ler-se num relatório da IRENA (International Renewable Energy Agency).

No mesmo relatório lê-se também:

“A IRENA estima o emprego global de energia solar fotovoltaica em 4,3 milhões em 2021, acima dos cerca de 4 milhões em 2020… Os países asiáticos acolhem 79% dos empregos fotovoltaicos do mundo, refletindo o domínio contínuo da região na indústria e a forte presença nas instalações. Os restantes empregos estavam nas Américas (7,7% de todos os empregos), na Europa (6,8%), com membros da União Europeia representando 5,5% e o resto do mundo (4,9%)

“De acordo com números partilhados com o Capital Verde pela diretora executiva do REN21, Rana Adib, em 2021 a biomassa empregava 12.400 pessoas em Portugal, a energia hídrica contava 8.072 trabalhadores e o setor fotovoltaico e eólico somavam, respetivamente, 7.600 e 5.700 colaboradores” – o que faz 13.300 empregos em solar e eólicas em 2021, cerca de 0,3% dos empregos, mesmo assim semelhante a uma TAP ou uma Auto Europa.

Conclusão

A falada transição energética pode constituir uma armadilha para muitos países, inclusive Portugal. Apesar do vento e sol serem gratuitos e abundantes, implicam investimentos avultados em equipamentos todos os anos, equipamentos esses que são fabricados em alguns países, China principalmente, isto é, não conduz a qualquer independência energética. Conduz sim a mais uma dependência em relação a outros países onde a criação de emprego no setor das eólicas e solar mais se faz sentir.

Além do mais, estas tecnologias continuam a beneficiar de subsídios diretos ou indiretos que são pagos pelos contribuintes e consumidores, mascarados nas taxas de carbono e nos custos de interesse económico geral, etc.. A estas desvantagens juntam-se os perigos que a proliferação destes equipamentos representa para a saúde e para o ambiente. Tudo justificado pela necessidade de “descarbonizar”, de salvar o planeta, etc., com base numa mera hipótese (efeito de estufa do CO2 antrópico) que não pode ser provada.

A decisão de desistir de centrais a carvão com um EROI de 30 em que há um verdadeiro ganho de energia por centrais com EROI baixo (2 a 4) não vai resolver tão depressa o alegado problema do CO2 porque nalgum lugar do mundo há que despender energia na produção desses equipamentos.

Henrique Sousa

Editor para Energia e Ambiente do Inconveniente

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Sub-diretor do Inconveniente

Latest comments

  • Sem espinhas sr Henrique
    Convinha era que a população lesse estes artigos em vez da “banha da cobra”
    que a esmagadora maioria da comunicação social nos vende, e que todos os dias nos sai bem caro…

  • MEU QUERIDO E MUITO SAUDOSO AMIGO, TANTAS SAUDADES DE LE-LO DIARIAMENTE, OU QUASE.. . COMO ANOS ATRAS; SEMPRE QUE LEIO ALGO DE SUA AUTORIA, PARA ALEM DE ME SENTIR FELIZ, SINTO QUE CRESCI NO CONHECIMENTO, POIS, EXISTEM TEMAS SOBRE OS QUAIS SOU ABSOLUTAMENTE ANALFABETA (TALVEZ OHENRIQUE SE POSSA RECORDAR!?…)E, QUANDO LEIO UM ARTIGO DESTE GENERO, BENEFICIADO PELAS SUAS EXPLANACOES DE QUEM CONHECE DO QUE FALA , de FACTO, EU SINTO-ME HENRIQUECIDA! MUITO OBRIGADA BEU BOM AMIGO! ABRACO IMENSO E SAUDOSO. ESTEJA EM BOA SAUDE_ESTEJAM AMBOS_! SUA VELHA AMIGA, Sabina.

  • É preciso mostrar a quem ainda pensa a demonstração da burla que são este investimentos, para além do roubo dos contribuintes e consumidores em taxas e impostos a quem com eles lucra e de quem ficamos dependentes.
    Já se começam a divulgar notícias de lixeiras onde amontoam peças com volumes consideráveis das eólicas e decerto também das solares, que são já sucateiras mais perigosas que as que conhecemos e que serão decerto mais fáceis de reciclar que as actuais.
    A paisagem essa começa a incomodar a vista, os espaços ocupados onde há muitos anos estavam os moinhos de vento que eram usados pelos nossos avós para moer os cereais.
    Mas onde moro, próximo de Torres Vedras noto o barulho cada vez maior das torres eólicas que com o tempo são cada vez maior intensidade, incomodando de facto o ouvido humano e decerto a natureza e os seus bichos.
    Antes o som dos búzios ou os sentidos sempre alerta, avisavam o moleiro da mudança do vento ou da intensidade para mudar o tamanho das mesmas ou aproveitar o mesmo, quando aparecia a qualquer hora do dia ou da noite, se soubermos ouvir as conversas das pessoas que falam desses tempos assim, não tão distantes.
    Hoje, os idiotas úteis em idade militar e já maiores perante a Lei comportam-se como terroristas urbanos, destroem propriedade e impedem de forma que só poderá despertar violência, as deslocações de quem tem de colocar o pão na mesa e não pode usar transportes públicos até porque não servem ou não existem, na maior parte do território.
    São manobrados por grupos a que chamam de ambientalistas, coisa que de quem apenas descobri oportunismo e inverdades, para além da arrogância e do poder que detêm no poder Local e Central e do dinheiro que lhes é colocado no bolso, com luvas decerto aos que devem zelar pelo funcionamento do Estado.
    O tratamento de lixo e resíduos, coisas hoje que são negócios de milhões, não fiscalizados e cada vez mais com ajustes directos aos de sempre.
    No caso falo de ETAR(s) que aproveitam as chuvadas para descarregar o que vem pelos esgotos domésticos e industriais onde a parte orgânica nunca foi separada de todo o tipo de substâncias químicas que são usadas no dia a dia e são regra, não são excepção.
    Isso pode ser verificável e fiscalizável nos rios e ribeiras. Por aqui bem perto, onde vivo, no chamado Oeste as ETAR(s), só as vi funcionar depois da inauguração e por muito pouco tempo, matando toda a vida mais sensível, que deveria existir nos rios e ribeiras.
    Os esgotos não separam em regra, águas pluviais de águas negras em muitos concelhos, de tal forma que há anos a coisa continua, são obras que não se vêem, como as ciclovias muitas já ao abandono, por cá na zona.
    Acerca da coisa, há cerca de 20 anos +/-, perguntando uma vez a um camarada do grupo que ainda vinga, acerca de uma enorme caixa em construção e para onde espreitei, tinha uma entrada de 90 cm e 2 saídas, uma de 30 cm supostamente para a ETAR e a outra de 90 virada para uma linha de água que está sob uma estrada municipal bem perto, como é que a coisa funcionaria, perguntei feito inocente, ao entrar na referida enorme caixa o comportamento da porcaria, ao que hoje pomposamente se chamam resíduos, ao que a criatura ripostou que a porcaria procuraria a saída de 30 cm para a ETAR e a água pluvial a de 90.
    A resposta que me saiu foi rápida e espontânea: “Só se cagalhão tiver olhos e vontade”, resposta que o deixou “sem tugir nem mugir” e com risada geral num grupo já constituído na conversa, concluindo pela inutilidade da obra e logo da ETAR, ali morta à nascença, no funcionamento se fosse caso.
    Pois é, assim desaparece o dinheiro das receitas cada vez maiores, sem contrapartidas, de um Estado de clientelas, há anos inimputável.

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