Também a Wikipédia…

As chamadas Big Tech (Google, Twitter, Facebook, Amazon, etc.) são claramente enviesadas à esquerda e, para além de promoverem a hegemónica narrativa da New Left, censuram, calam e “cancelam” activamente, de forma implícita e cada vez mais explícita, qualquer pessoa, organização ou opinião que afronte directamente os pilares teológicos dessa narrativa, usando argumentos moralistas, muito similares aos que as religiões dominantes historicamente usam para tratar da blasfémia. En passant, note-se que os funcionários das Big Tech foram os maiores doadores para a campanha de Joe Biden.

A título de mero exemplo, faça o leitor pequeno exercício de pesquisar, no Google (imagens) as seguintes expressões:

Na primeira pesquisa surge em primeiro uma imagem de homens brancos, mas num artigo a referir a discriminação feminina, a seguir uma senhora negra, várias mulheres, dez cientistas de todas as origens, uma jovem negra a olhar para um microscópio. Só depois, em sétimo lugar surge Einstein, o cientista por antonomásia, mas a ilustrar um artigo sobre uma qualquer discriminação em que os cientistas homens são beneficiados. Daí para baixo, basicamente mais mulheres, pessoas de várias raças ou etnias e, de longe em longe aquilo que queríamos pesquisar, isto é, cientistas brancos que são, na realidade da História, maioritariamente masculinos, por razões evidentemente sociais que não estão aqui em discussão.

Na segunda pesquisa, páginas e páginas de cientistas negros, como seria de esperar.

Não sei que algoritmo é utilizado, mas é óbvia a intenção de salientar positivamente certas categorias “correctas”, e esconder o mais possível aquela que a Teoria Critica aponta como o “opressor cósmico”, ou seja. o “heteropatriarcado branco”.

Podem fazer-se pesquisas deste tipo, nos vários campos, que o resultado é sempre semelhante. Ou seja, o Google não é apenas um motor de pesquisa, mas um instrumento woke ao serviço da narrativa ideológica hegemónica, aquela que, a partir da Teoria Crítica, considera ser a “whiteness” especialmente do homem hetero, a culpada do racismo, do machismo, da homofobia, e, em suma, de todos os pecados mortais elencados no catecismo woke. O secretário-geral da ONU, António Guterres, por exemplo, acaba de declarar que o “white supremacism” é a “maior ameaça transnacional”.

Quanto à Amazon, já está a imitar o Index Librorum Prohibitorum, no qual a Igreja Católica, em tempos idos, colocava os livros perigoso, com a boa intenção de prevenir a contaminação da fé e a corrupção da moral.

Por exemplo, há duas semanas o livro “When Harry became Sally: responding to the transgender moment, na Amazon desde 2018, em que o filósofo Ryan Anderson fazia uma análise crítica às ideias hegemónicas sobre género, foi pura e simplesmente banido.

E já em 22-2-2021, os congressistas democratas Anna Eshoo e Jerry McNerney, escreveram uma carta ao CEO da Amazon, Jeff Bezos (e a outras Big Tech, Comcast, AT&T, Amazon, Apple, Verizon, Charter, Hulu e Roku) exigindo mais censura ideológica e pedindo explicações para a manutenção, na Amazon Fire TV, de certos programas conservadores. E enviaram missivas semelhantes aos líderes de outras Big Tech, como Alphabet (Google, Youtube), Apple, Verizon, Comcast, AT&T, Hulu, Cox, Dish, Altice e Roku.

Mas um dos púlpitos dos quais é subtilmente vertida esta “evangelização” laica é a Wikipédia, uma enciclopédia universal, onde as novas gerações vão beber muita da informação com a qual constroem a sua visão do mundo. Trata-se de um dos mais consultados sites do mundo, e a Google, claro, apresenta-o sistematicamente nos resultados de pesquisa.

Uma fonte deste calibre, não podia escapar à “grande marcha através das instituições” que António Gramsci, nos idos do século anterior, considerava essencial para mudar a narrativa hegemónica burguesa, sem a qual não seria possível evoluir para os amanhãs que cantam, profetizados pelos ideólogos comunistas anteriores.

Vejamos na Wikipédia, por exemplo, as páginas “Communism” e “Socialism”.  

Tem milhares de palavras, mas omitem completamente os genocídios, a escravidão e a fome que, nos países que aplicaram essas ideologias, levaram à morte de mais de 100 milhões de pessoas no séc. XX.

A história que aí é feita desses sistemas é genericamente apologética.

Por exemplo, a “era soviética viu algumas das conquistas tecnológicas mais significativas do século 20“, ou  “após a morte de Mao, em 1976, o  desempenho económico da China tirou cerca de 150 milhões de camponeses da pobreza”.

A fome na Ucrânia, provocada pela decisão de Estaline de confiscar os cereais para os exportar? Não consta!

A campanha do “Grande Salto em Frente”, na China, que aboliu a agricultura privada e matou à fome dezenas de milhões de chineses? Nem pio!

Ainda na China, a “Revolução Cultural” na qual milhões de jovens radicais fecharam escolas, destruíram relíquias religiosas e culturais e mataram “antirrevolucionários” e “burgueses” até se fartarem? Nem uma linha!

Os gulags, na União Soviética, a Stasi, na RDA, as atrocidades cometidas por regimes socialistas e comunistas, na URSS, Venezuela, Cuba, Nicarágua, Camboja, Coreia do Norte, etc.? Moita carrasco!

O cúmulo da manipulação é que existem na Wikipédia páginas secundárias com esses factos, mas a única menção nas páginas principais, é um discreto link, entre outros, no “See also”.

É óbvia a intenção de escamotear os crimes e os fracassos do comunismo e do socialismo, a quem consulta a Wikipédia para saber mais sobre estas ideologias.

Sim, a Wikipédia garante que qualquer pessoa pode editar o que, em teoria, asseguraria uma certa neutralidade da informação. Mas as coisas não são assim tão simples.

Larry Singer, um dos seus fundadores, reconhece que muitas páginas da Wikipédia se transformaram paulatinamente em espaços ideológicos que, sem qualquer pretensão de neutralidade, favorecem abertamente as narrativas esquerdistas.

Jonathan Weiss, um prolífico editor, disse que o que se passa na Wikipédia reflecte o que acontece na academia e no jornalismo, com o predomínio esmagador daquilo que Gramsci designou por “intelectuais orgânicos” isto é, uma espécie de “cristãos novos” que absorveram os talking points esquerdistas e acham estar em missão de “abrir os olhos” aos que ainda não viram a luz.

Como exemplo, Weiss refere um “administrador” da Wikipédia (os administradores tomam as decisões finais sobre as alterações nas páginas) que tem, abertamente, uma foto e uma citação de Lenin no seu perfil.  Assim, o editor de uma página onde predominam estes clérigos em missão, não tem qualquer hipótese, e as suas edições são pura e simplesmente anuladas. As páginas de discussão indicam que vários utilizadores tentaram equilibrar o texto, mas que as suas edições foram rapidamente apagada por outros editores.

Como se resolve isto?

Da mesma maneira que se resolveria nas universidades, nos media e nas Big Tech: com uma guerra cultural que leve mais pessoas não esquerdistas à política, plataformas, redacções, campus e mercado de trabalho.

O problema é que isto é já um plano inclinado, com maiorias esmagadoras de gente formatada nas visões esquerdistas do mundo a ocuparem os ninhos e a fazer instintivamente o que fazem as crias dos cucos, assim que saem do ovo: empurrar os outros ovos para fora…

Ou seja, nos curto e médio prazos parece um caso perdido. E tudo irá piorar até que, numa visão porventura optimista, o senso comum e as ideias de liberdade e tolerância voltem a ocupar o lugar central no modo como nos organizamos politicamente nas sociedades ocidentais.

O facto inescapável é que as gigantes tecnológicas, dominadas pela narrativa hegemónica da New Left, estão dispostas a usar o seu imenso poder para catequizar, censurar, controlar e doutrinar, determinando o futuro de todos.

Isto não é desejável e caminhamos rapidamente, em com esteróides, para a distopia do Grande Irmão!


José do Carmo

* O autor usa a norma ortográfica anterior.

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  • Eu acredito que estamos em vésperas de uma grande guerra mundial.

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