SNS, esse desconhecido!

Tomemos como exemplo um certo doente crónico de diabetes, o Sr. Manuel, que era seguido “gratuitamente” no SNS. Antes da pandemia, ia à consulta de seis em seis meses e realizava testes de rotina para o despiste de complicações. Como pode também vir a ter lesões oculares, o especialista de medicina geral cedo lhe requisitou uma consulta de oftalmologia que viria a acontecer dois anos após a requisição.

Finalmente, o Sr. Manuel é chamado para uma consulta de oftalmologia no hospital. Se chegasse atrasado, mesmo sem culpa, não seria atendido. Mas foi o caso dele que, no dia da consulta, demorou mais tempo a estacionar por culpa de umas obras no parque de estacionamento do hospital, que passou de “gratuito” a “tendencialmente gratuito”, como as taxas moderadoras. Assim, teve que solicitar a remarcação da consulta, que ocorreu meses depois.

No dia em que consegue a desejada consulta de oftalmologia, chegando com mais de uma hora de avanço, enfrenta uma fila de pessoas que vão tirar a senha (e pagar, porque a isenção é só na medicina geral) e depois segue para uma sala com mais de cem pessoas que nesse dia também foram chamadas.

Entretanto, as máquinas das senhas são controladas por aquelas pessoas simpáticas que fazem voluntariado, porque umas máquinas são para os não isentos e outras para os isentos, além de que é preciso zelar pela prioridade de deficientes, grávidas e idosos. E são esses voluntários que indicam o caminho a tomar segundo a especialidade. As máquinas foram pensadas para substituir pessoas, mas há gente caridosa que continua a trabalhar para as máquinas de borla.

Por fim, munido da senha com um número, o Sr. Manuel senta-se na sala de espera que ainda tinha lugares sentados, e vai seguindo atentamente o quadro de chamada. Espera minutos, uma hora, duas horas. Nisto, sente sede e levanta-se à procura da máquina de dispensa de águas, sumos, chocolates e bolachas. Sabe que vai perder o lugar sentado, mas a sede aperta e vai. Que parvo ele foi ao ter recusado a água que os voluntários oferecem juntamente com bolachas, chá, café, etc. e que transportam num carrinho que circula pelas zonas de espera!…

A máquina de dispensa de água fica lá ao fundo, fora da sala de espera de oftalmologia. Hesita entre ir e não ir, mas, pensa ele, se não o chamaram até agora, seria muito azar sê-lo nesse minuto ou minuto e meio que estaria ausente. Decidido, levanta-se e vai até à máquina. Demora a perceber como funciona, mas por fim percebe e consegue tirar a garrafa de água. E fresca…

Quando volta à sala, olha para o quadro de chamada e vê lá o seu número. Não somente o número mas também uma auxiliar a chamar por ele aos berros. Atabalhoadamente corre por entre a multidão e identifica-se. A auxiliar, com a superioridade inerente à função, prega-lhe um raspanete nestes termos:

– Sr. Manuel, já estou farta de chamar por si! E olhe que já nem ia chamar mais! Os senhores têm que estar atentos à chamada, porque senão perdem a vez!


H. Sousa

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Sub-diretor do Inconveniente

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  • É mais ou menos isso.
    O problema do SNS não tem sido os médicos é a ideologia dos dirigentes, a troca de favores, há cerca de 20 anos, a incompetência desses dirigentes e a forma como alguns médicos sobem e outros se mantém anos sem progresso nas carreiras, tudo isto no pretérito-mais-que-perfeito, explica o que foi, o que é e o que será, o PR nunca deveria ter promulgado o Estatuto do SNS, a Ordem e os sindicatos e associações deixem de chorar lágrimas de crocodilos.
    O SNS e todos os responsáveis, muitos deles condecorados, ex- Ministros a maior parte arrogantes, mal educados e com prosápia quanto baste pela competência demonstrada, valendo estas afirmações pelo que de mal fizeram ao SNS, ou seja a sua destruição e com as reformas do SNS e a sua degradação por se servirem e para servirem, por nepotismo do político e ideológico e das amizades promíscuas, no sentido das portas rotativas, poder das nomeações dos vários Ministros da Saúde , das nomeações dos Presidentes das ARSs, pelos administradores hospitalares vindos das madrassas por também as há na saúde, pela substituição das sub-regiões por dezenas de ACES. Foi assim no início, depois foi-se degradando especialmente depois da criação dos ACES e das USFs, ouviu falar nos médicos do clicks (?), é como muitos são chamados, tenho pena, mas sei o que servi e o que gostava demonstrar nos casos da clínica.
    ,A medicina e a MGF não é apenas o controlo do doente crónico, é a criação é o crescer do médico, é o gosto pelo diagnóstico, pelo saber ouvir, observar, diagnosticar e tratar, perceber que por vezes nos entram doentes nos gabinetes vindos dos Hospitais com diagnósticos que não correspondem ao que nos está na frente, é poder pedir ajuda a um colega, é observar coisas que por vezes passam desapercebidas em velhos e em recém nascidos, quantas patologias cardíacas, quantas pequenas deformidades não foram vistas, acontece, faz parte da arte, é isso que nos ajuda a criar equipas, a ganhar amizade e respeito pelo colega e pelo trabalho, é chamar o colega que está no gabinete ao lado para mostrar o caso que só viram descrito em livro, é fazer da Medicina a nobre arte no diagnóstico, é a discussão, é por vezes ouvir o resmungo do responsável,(parece que querem criar a figura do formador* do interno que já existe) que deveria estar grato, por causa de um qualquer registo que pode valer um 2, vi e ouvi isso muitas vezes, essa é a medicina que se tornou um acto burocrático, onde se não aprende a falar com o doente, a perceber as pequenas coisas e os pequenos silêncios que valem ouro amanhã pelo diagnóstico precoce, é a forma como se tratam os internos, vi situações de internos que abandonaram o Internato que por incompatibilidade com o formador e sei do que falo, acontece cada vez mais. Parece que só falo na medicina prática, mas não falo em Medicina, por exemplo, defendo que a observação de um RN e a evolução da criança é um trabalho de equipa, a enfermagem não concorda muitos deles, mas observar em conjunto é mais importante que a consulta duplicada, o que as ordens e sindicatos defendem é política o resto é o bem estar do que observamos, desde os pais às crianças, a família com posses e a família com grandes dificuldades, tudo faz parte do deve e haver do conhecimento, não os “clicks” e os índices..A formação se não melhorar será uma tragédia!
    A Medicina de 1982 para cá melhorou durante alguns anos, depois as reformas, a destruição das sub-regiões e a criação dos ACES em número escandaloso que o novo Estatuto irá piorar, pela sobreposição horrível de serviços, pelas novas nomeações (políticas de burocratas), pelas despesas, pela arrogância de muitos dos nomeados, pela formação escandalosa das USF por convite entre médicos, pelo afastamento dos que não fazem parte do grupo, (político em parte), nada a ver com competência, pela passagem rápida e com critérios convenientes de A para B, passagem do ontem interno, amanhã membro de uma B, enquanto os outros nas USF A, tinham, muitos deles, melhores índices de desempenho durante anos que as B, nunca passaram a B, foram estas as causas do êxodo, dos que não entram e se entram logo saem, por que a diferença de vencimento entre uma B e uma A é imensa e injusta, causa de éxodo e de desistir logo ao fim de um mês .
    Nem sei como foram pagos e por que diferenças, durante a pandemia, os médicos e os outros profissionais das A em relação às B, seria por telefonarem muito e preencherem aquele programa ridículo criado algures, sem sentido e nunca alterado pela DGS,, pura incompetência por isso diziam que os médicos de Clínica Geral não tinham tempo para ver doentes e mas as normas e mais normas e contra normas, da DGS porque nada mais sabiam fazer, quanto aos doentes a DGS criou um clima de terror que afastou o doente do médico, de tal forma que pegou moda agora a teleconsulta, algumas a cerca de 100 Euros, a Ordem sabe e concorda não sei, mas acho que não há razão hoje para se fazer, ponto final.
    Durante anos, esta gente, funcionou na porta rotativa das várias organizações políticas e outras mais esotéricas que provocaram os êxodos de proporções biblícas, hoje os que saíram não voltam, os que entram ou são do grupo e ficam, os outros ficam pelo engano e depois saem, vão à vida!
    Dizia o Bastonário cada vez mais perto do 43.º aniversário, o SNS continua a funcionar mais ou menos da mesma maneira. “Se o SNS fosse uma empresa privada já tinha ido à falência”, alertou. “Temos que tornar o SNS mais competitivo e atrativo. Passo a perguntas ao Bastonário que bem podem ser feitas a deputados, excepto a neo Geringonça, destingue-se pela pateada. O PSD se entrar nesse jogo, entra na Geringonça em funções.
    Em verdade lhe diria Senhor Bastonário, se funcionava bem porque temos que o mudar? Unidades C, Misericórdias e outras associações, sabemos como funciona a gente importante dos burgos, as festas dos aventais, a troca de favores, nas câmaras, nas juntas, nas misericórdias que cobram exorbitâncias aos idosos para lã poderem entrar e é por favor. Acredita mesmo no que diz, nas USF C, mas as A foram destruídas como acham que se iriam sentir os profissionais a ser mandados por caciques locais? Isso teve anos para se fazer, os burocratas médicos das várias associações os tais que fazem as grelhas de avaliação, os índices e tudo o que mais irão inventar, os que saltitam de gabinete em gabinete do MS, continuarão a destruir o SNS, são os ideólogos como a actual MS, de médicos apenas o diploma e muitos chegam a subir na carreira sem ver doentes.
    O SNS está um caos, o número de crianças nados-mortos é horrível pela desorganização das maternidades é assustadora, porque não sub-contratam Hospitais privados, os partos são mais baratos comparados com o sistema GDH (Grupo de Diagnóstico Homogéneo), nada irá mudar, os números de óbitos todas as causas irá aumentar, Há CS sem médicos, 0 (ZERO). Os Directores executivos dos ACES e os Directores clínicos, não acabaram com USF que só ficaram com o nome, o que é ilegal, a Lei das USF, se falta um médico e não é substituído, deixa de existir.
    Mas a esquerda que nos governa desde Sócrates são os responsáveis pelo que sucede, desde 2006, falta de progressão nas carreiras por mérito e concursos sérios. Bem podem culpar os capitalistas, os grupos privados de saúde, mas a pedido do BE acabaram com 4 Hospitais PPPs, eram os melhores, apenas lá querem meter os camaradas a gerir e já os estão a destruir, não sabem, são incompetentes.
    Serão um dia responsabilizados pelo excesso de morbilidade e mortalidade provocada pela medida que foi criminosa?
    Um destes dias poderá não ser uma petição coisa em que não acredito, ter utilidade por culpa dos deputados, mas amanhã, haverá processos crime por negligência dolosa na gestão de Centros de Saúde e Hospitais, mas não contra as Institituições, contra os o Ministro e aí o MP não poderá devolver sob pena de que não existe, não faz o seu trabalho.
    Porque razão os utentes que vão ao médico privado, não podem ter MCDT comparticipados? Vão porque não têm médico no CS, ou porque lhes assiste o direito de escolher médico e porque paga impostos.
    A esquerda não aceita isto porque teriam de reciclar milhares de funcionários que não fariam falta por motivos piores mandaram embora os técnicos das centrais a carvão por motivos ideológicos, vamos ver se o crime se confirma com os óbitos por frio.
    Se os portugueses deixassem de ter seguros de saúde e têm uns, com sacrifício próprio, outros por oferta do patronato como recompensa não interessa o motivo, têm, a ADSE e outros sub-sistemas cada vez mais mal geridos tem mudado de tutela de ministérios por inépcia ou para destruir, voltou ao inicial´, as Finanças, mas o pessoal que sabia pôr aquilo a funcionar, com este incapaz, como ministro, incapaz como Presidente da Câmara de Lisboa, capaz para gerir as finanças?
    Se estes sistemas desaparecerem Portugal terá serviços de saúde como Angola.
    Já agora, pergunto no caso ao Bastonário para finalizar, a Região Autónoma da Madeira tem Medicina Convencionada, é muito mais fácil de fazer que entregar, 1 900 utentes para as USF C, se tem noção desse número? Não tem, não sabe!,
    No que às USF diz respeito só existem as USF B, claro que é porque médicos, enfermeiros e administrativos ganham muito mais, duvido que trabalhassem melhor que as A sabe-se pelas avaliações, muitas A estiveram anos com melhores avaliações que muitas B, nunca passaram a USF B.O projecto das USF morreu por isso!
    A Região Autónoma da Madeira cujo serviço conheço com alguma razoabilidade, tem Medicina Convencionada.
    Se o médico não tiver Convenção trará Receituário comparticipado, MCDT, baixa se for caso, não precisa de ir às 5 da manhã aos sábados para ter uma consulta, se tiver médico, como se passa em Sobral de Monte Agraço o Senhor Deputado Duarte Pacheco não sabe? Fez campanha em Torres Vedras e na terra dele?
    Na Madeira, se for a um Médico com Convenção terá o mesmo, excepto o preço da consulta em todas as especialidades.
    É ágil, as instalações podem ser os consultórios médicos, se necessitar de óculos ou armações, é ressarcido, há para Medicina dentária, as outras especialidades nos casos por exemplo de cirurgias são e funcionam ao que sei muito bem, consultas de especialidades em Convenção, mas ao menos têm escolha.
    Porque é que o Senhor Bastonário não fala nesta situação, a Madeira tem uma Ordem dos Médicos à parte?
    Não se esqueça de uma coisa senhor Bastonário somos todos médicos e o Bastonário deverá ser o Primeiro a reconhecer esse facto! Amizades e Partidos fora da Ordem no sentido, não podem haver como para tráfico de influências.

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