Selvagens

Roland Joffé (1986). A missão. Música: Ennio Morricone.

Se António Damásio apontou “o erro de Descartes”, desejável seria que alguém tivesse o talento, ousadia e saber, necessários para revelar “o erro de Rousseau”.

Refiro-me à visão do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau do “bom selvagem”, aquele que nasce naturalmente puro e que só a sociedade corrompe. Esta teoria está na base do relativismo que impera nas sociedades ocidentais e, quanto à educação, do logro das pedagogias “não-directivas”, nomeadamente de A.S. Neill, de Summerhill e de Freinet.

Seja na filosofia de Rousseau, seja nas pedagogias ditas não-diretivas trata-se de não destruir, através de convenções, uma suposta pureza, abdicando, assim, do papel tradicionalmente atribuído aos educadores, seja qual for o seu estatuto.

Vejamos o que dessa pureza inicial, supostamente existente quer na criança, quer no homem não civilizado, pensam aqueles que são talvez os mais geniais prosadores nacionais: Camilo Castelo Branco e o Padre António Vieira.

Comecemos por Camilo, nas “Novelas do Minho” (1875):

“O leitor urbano mal imagina como são estes pais e maridos rurais quando lhes morrem as filhas ou as mulheres. (…) Nunca vi uma lágrima luzir nestas caras. (…) A estupidez é mais valente do que a morte. Se falta a luz que adelgaça e rompe a treva do homem bárbaro, à mistura com a velhacaria que a civilização lhe tem dado, o cérebro e o coração são umas empadas de massa inerte, umas substâncias granulosas ou fibrosas contidas em sacos membranosos. Não há nada mais bestial que o homem sem a alma que se faz na educação. A mulher já não é assim. A maternidade é uma ilustração que lhe dá a intuitiva inteligência do amor e das grandes tristezas. Essas, em toda a parte a chorar, são as mulheres;”


Vejamos, em seguida, na fabulosa expressão desse outro grande, o Padre António Vieira, no Sermão do Espírito Santo, em 1657, que transformação pode operar a educação assente em amor e paciência, no mais empedernido dos selvagens: 

“Concedo-vos que esse índio bárbaro e rude seja uma pedra; vede o que faz em uma pedra a arte: Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem, primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda: ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega,  ali alisa, acolá reclama; e fica um homem perfeito e talvez um Santo que se pode pôr no altar”.

Não será por acaso que estes grandes autores foram relegados para uma espécie de limbo cultural, onde os mentores do politicamente correcto nacional os mantém, enquanto colocam num pedestal, sobre o qual chovem benesses avulsas, os neo-realistas de ontem e de hoje, à cabeça dos quais surge o quase idolatrado Saramago. Pouco importa, aos novos ditadores do pensamento, que a belíssima argumentação de Vieira se destine  à defesa do índio face a quem o considera “uma pedra”, bem como à demonstração das potencialidades contidas na educação a que se aplique amor, paciência, perseverança. E pouco lhes importa que Camilo lamente as lágrimas choradas pelas mulheres, face à brutidade dos homens privados “da alma que se faz na educação”.

Há muito que a cancel culture baniu, sob a acusação de etnocentrismo, “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias”. Os felizes que ainda a puderam ler lembrar-se-ão certamente da passagem em que o protagonista se depara com uma cerimónia hindu, na qual uma pira funerária espera não só o corpo dum brâmane falecido, mas também o corpo bem vivo da sua esposa. Conseguindo salvar a jovem da penosa morte que a esperava, o herói passa a ser visto pela loucura politicamente correcta como um etnocêntrico desrespeitador de tão humanitário procedimento. Na verdade, também na vida real, um governador inglês vem a proibir tais cerimoniais. Aos brâmanes que as reclamavam como parte dos seus usos e costumes, o inglês responde que os usos e costumes do seu país mandam prender qualquer assassino e que seria esse o destino dos renitentes. É que, se o colonialismo acarretou, sem dúvida, malefícios, alguns dos seus benefícios saltam à vista. Logo, há que ocultá-los, preservando a ilusão do “bom selvagem”.
Os jesuítas, vanguarda intelectual do catolicismo, bem o entenderam, dispondo-se, inclusivamente a dar a vida pela expansão da fé. A forma abnegada como o fizeram por esse mundo fora está bem retratada em filmes como “Silêncio” e “A Missão” (em epígrafe, este último, pela sua excepcional clareza e qualidade artística). Ambos os protagonistas encontram o martírio, sendo que, no último, sobressai o amor como forma de comunicação entre indígenas e sacerdotes.

É o amor, aliado à paciência, que vai quebrando barreiras e permitindo, com respeito e sem paternalismo, a aproximação entre europeus e índios, assim como a posterior edificação das “reduções” (missões) onde estes últimos são protegidos da escravidão e ensinados a valorizar as suas potencialidades. A adesão à fé cristã é voluntária e os jesuítas aprendem as línguas nativas (no caso de Vieira, o guarani-tupi, entre outras), tornando a comunicação mais frutífera. No Brasil, as missões prosperam e a natural apetência dos indígenas pela música é aproveitada na construção duma crescente espiritualidade, bem como no embrião duma próspera indústria de fabrico de instrumentos musicais. É assim que os índios, considerados “pedras” ou “animais” pelos esclavagistas vêm verdadeiramente a sua dignidade a chegar aos altares. Aí, contudo, o seu fim é trágico às mãos dos políticos ibéricos. Em virtude do tratado de Madrid, sob a maquiavélica batuta do Marquês de Pombal, as Reduções junto às cataratas do rio Iguaçu passam do domínio português para o espanhol e a resistência dos indígenas à qual se junta a dos jesuítas, por amor e coerência incapazes de os abandonar à sua sorte, resulta no massacre de milhares de pessoas e na destruição das Reduções.

Assim, fica provado que também entre os poderosos a ganância gera uma bestialidade, uma selvajaria que faz esquecer, mesmo a quem a tenha tido “a luz que se faz na educação”.  Na educação, em suma, reside o poder de transformar, de aperfeiçoar, a natureza humana. Quando quem por ela é responsável abdica dessa responsabilidade, não pode esperar-se menos do que o caos, já que ao humano cabe o livre arbítrio, o poder de se tornar um criminoso ou um santo. Quando um professor, por exemplo, envereda por um posicionamento permissivo, o expectável é que surja o bully da turma a tiranizar os seus colegas. Quando um governante abdica da matriz cultural do seu país, entregando-o ao relativismo cultural ou “tribal”, o expectável é a emergência de pequenos e tirânicos poderes, assim como de práticas “culturais” cruéis como o uso de burkas ou de burkinis, ou a mutilação genital feminina. 

Se bem que o Estado seja desejavelmente laico, a matriz judaico-cristã europeia necessita de ser preservada e defendida. Se mais não for, por ser ela que subjaz à Declaração Universal dos Direitos Humanos. Miguel Torga, cuja relação com Deus sempre foi tumultuosa, recebe no que viria a ser o seu leito de morte a visita dum bispo seu amigo. Conversam sobre Saramago e o seu ” Evangelho segundo Jesus Cristo” . Então, o poeta desabafa: ” Que coisa horrorosa, então essa gente não sabe que foi o cristianismo que civilizou o mundo?”.

O acima escrito não pretende, de modo algum, defender o autoritarismo. Pretende sublinhar, isso sim, a necessidade de valorizar o lado bom do ser humano. E de fazê-lo de modo firme e pelo exemplo. Um professor que, na aula inicial, em vez de bombardear os alunos com um powerpoint descritivo dos seus direitos e deveres, se lhes apresente de modo empático e personalizado, marcará pontos. Se lhes explicar que, não estando ali para “mandar”, é sua responsabilidade assegurar a segurança de todos eles, qual capitão de navio, último a sair arriscando, se necessário, a vida… Que é sua responsabilidade assegurar um ambiente calmo e propício ao enriquecimento cultural que se espera… E, se mantiver a congruência, dificilmente enfrentará a tão vulgarizada indisciplina.
O mesmo se aplica aos dirigentes políticos. Se é sabido que um poderoso, corpulento, de meia idade, é visto a ameaçar fisicamente um cidadão com idade para ser seu pai, como esperar menos do que um aumento da violência sobre os mais fracos, nomeadamente a doméstica?… Se não só se permite, como se incentiva, a aglomeração da turba reconhecidamente violenta dos adeptos futebolísticos, como esperar do povo em geral um comportamento cordato e civilizado?… Se um outro poderoso fica consabidamente sentado após ver o automóvel que o transportava atropelar um cidadão, como esperar do povo que seja compadecido e empático?… Se a área governativa da Educação é entregue a um homem a quem não se conhece um pensamento ou produção escrita sobre pedagogia, como esperar que as novas gerações alcancem “a alma que se faz na educação”?…Como??…


Isabel Pecegueiro

* A autora usa a norma ortográfica anterior.

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Latest comments

  • Artigo muito interessante, que aborda uma temática actual sobre a qual poder-se-ía escrever rios de tinta, sem fim.
    Gostei, em particular, das referências a Camilo e ao Padre António Vieira.
    Palavras abençoadas!
    Li a notícia que Portugal vai ser o primeiro país da UE a receber em Julho os fundos do PRR (plano de Recuperação e Resiliência). Seria oportuno saber quanto “do novo ouro do Brasil” será investido, seriamente, em Educação e Cultura. A pergunta fica aqui.

  • Obrigada pelo comentário. Quanto à pergunta final, será melhor que se espere sentado pela resposta.

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