Sapatos vermelhos

Por decisão da Assembleia das Nações Unidas, desde 1999, que o 25 de Novembro é o Dia Internacional de Luta à Violência contra as Mulheres. A artista mexicana Elina Chauvet imortalizou a comemoração desta data em 2009, de maneira original, com a sua instalação pública “Zapatos rojos”. Desde então, em toda a parte o sapato vermelho – não o sapatinho de cristal da Gata Borralheira perdido na escadaria – tornou-se um símbolo que chama a atenção para a temática da violência que afecta milhões de mulheres no mundo.

É sabido que sob o termo violência se designam vários tipos de comportamento finalizados a oprimir, dominar, aniquilar tais como violência social, moral, psicológica, física, sexual.

A vida de Artemisia Gentileschi, nascida em Roma em 1593, abrange quase todos os aspectos e nuances das agressões de que uma mulher pode ser vítima. Perdeu a mãe aos doze anos e começou a pintar muito jovem sob a direcção do pai, cujo trabalho artístico admirava e emulava. E foi mesmo no ambiente doméstico que foi violada por um pintor da confiança de seu pai, assíduo frequentador da sua casa, onde entrara para lhe ensinar algumas regras do desenho.

O facto só foi denunciado às autoridades mais tarde, quando a jovem soube que o tal pintor era casado, e por isso o prometido matrimónio reparador – que se usava naquela época para repor a honorabilidade da mulher – não se podia concretizar.

Durante o julgamento Artemisia foi constantemente humilhada: falsos testemunhos, longos, vexatórios exames ginecológicos e até tortura das mãos – o suplício da sibilla – a que resistiu, sem mudar uma vírgula do seu depoimento.

Agostino Tass, o pintor que a violou, foi considerado culpado e condenado a cinco anos de prisão e a pagar uma compensação pecuniária. Foi-lhe consentido escolher, em alternativa, o exílio de Roma para toda a vida. Pena que não cumpriu, naturalmente.

Quanto a Artemisia? Ganhou a sua causa entre sofrimentos, calúnias e maledicência, como acontece às mulheres de hoje. Ela é um exemplo de determinação e talento. Numa época em que a pintura era considerada uma arte masculina por excelência e das mulheres se esperava a voz do silêncio, bateu-se sempre pelo seu direito de ser respeitada como pessoa e como artista.


Maria J. Mendes

* A autora usa a norma ortográfica anterior.

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Latest comment

  • Um dia que poucos lembram, porque, ainda hoje, é um problema “menor”, por mais vidas que destrua, literal ou simbolicamente.
    Bravo pela pedrada no charco.

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