Retorno da UE ao carvão: Portugal orgulhosamente só!

Segundo refere a publicação ecológica Balkan Green Energy News em 11-3-2022, o regresso ao carvão parece inevitável para muitos países da UE.

A Europa encontra-se dependente dos combustíveis russos (gás, petróleo e carvão) que representam 40% das suas necessidades energéticas. Estas não podem porém ser imediatamente substituídas por importações que exigiriam novas infraestruturas energéticas.

A União Europeia, agora determinada em eliminar a dependência dos combustíveis fósseis russos até 2030, vê-se obrigada a retardar o processo em curso de exclusão do carvão, pelo menos no curto prazo.

A crise energética do outono passado, que surgiu com a retoma da economia pós-pandemia e fez aumentar os preços do gás, levou algumas concessionárias de vários países europeus a recorrer às centrais a carvão na reserva, adiando os seus objetivos ambientais e climáticos.

Agora, depois da Rússia ter invadido a Ucrânia, a União Europeia faz planos para reduzir a importação de gás russo em dois terços (só este ano!) e tornar-se independente dos combustíveis fósseis da Rússia, o mais tardar até 2030.

Porém, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, terá dito que os objetivos deste ano deveriam ser adiados para 2027, tendo altos funcionários de Bruxelas e dos Estados-membros da UE reconhecido que isso exigiria voltar ao carvão temporariamente. A Alemanha anunciou que ia trabalhar na criação de reservas estratégicas de carvão e precisa de investimentos maciços em infraestruturas de combustíveis fósseis para se tornar independente da energia da Rússia.

Além disso, a União Europeia disse que substituiria algumas das importações russas de gás por gás natural liquefeito (GNL) de outras fontes. Todas as medidas em preparação implicam mais investimentos em infraestrutura, como dutos e terminais de GNL. O Nord Stream 2, que viria duplicar o fornecimento de gás da Rússia à Alemanha, está concluído, mas encontra-se agora suspenso indefinidamente. Ao desistir do gasoduto, significa que este passa a ser um ativo encalhado.

Desistir das importações energéticas da Rússia, implica portanto investir em infraestruturas para energia fóssil, o que dificilmente se coaduna com mais investimentos em energias verdes como vento, sol e hidrogénio verde. As energias verdes exigem também elevados investimentos e só lentamente podem cobrir uma parte das necessidades, sem conseguir dispensar as energias fósseis.

Se a UE, os estados-membros e a indústria investirem em combustíveis fósseis para acabar com a sua dependência da energia russa, o processo de descarbonização e a transição energética terão de ser adiados. A Comissão Europeia também pretende implementar as medidas de eficiência energética e de instalação de renováveis e hidrogénio verde, mas é difícil acreditar que possa fazê-lo ao mesmo tempo que investe no carvão e GNL.

O gigantesco plano de financiamento da UE de próxima geração para a recuperação da pandemia, no valor de 750 mil milhões de euros, era já uma medida de emergência. Por isso, é improvável que a UE e os países membros possam financiar estas novas ambições energéticas. Ou talvez sim, mas à custa de uma inflação gigantesca que iria penalizar fortemente os consumidores europeus e a sua economia.

No curto prazo, vários países equacionam recolocar as centrais térmicas a carvão em funcionamento e atrasar mais a retirada planeada de outras.

A Alemanha poderá aumentar a capacidade atual das térmicas a carvão de 8 para 34 GW. E, seguindo-lhe o exemplo, outros países como a Polónia, a Sérvia, o Montenegro, a Bulgária, Bósnia e Herzegovina e o Kosovo também adiarão os planos de abandono do carvão.

A Roménia planeia retomar a operação de centrais a carvão, a Itália não descarta a possibilidade de aumentar a utilização da capacidade instalada de carvão, tendo o ministro da Transição Ecológica da Itália, Roberto Cingolani, dito que as duas centrais a carvão ativas do país seriam temporariamente “levadas à capacidade total” se houvesse “uma absoluta falta de energia”. Todavia, ressalvou que colocar em funcionamento as centrais aposentadas, que o primeiro-ministro Mario Draghi sugerira anteriormente, seria muito dispendioso.

O encerramento programado de uma central a carvão na Alemanha e outra no Reino Unido foi adiado, tal como observou o analista da S&P Global Glenn Rickson, e estima-se que haveria mais decisões deste tipo.

A maioria dos países das Balcãs Ocidentais são fortemente dependentes do carvão. O presidente sérvio Aleksandar Vučić disse que o governo está a pensar importar lignite para compensar o défice de uma série de paralisações e atrasos nas minas de carvão.

A Macedónia do Norte declarou estado de crise energética no ano passado e recorreu às importações de carvão para aumentar a utilização de sua capacidade de geração de energia. O país adiou recentemente a data de eliminação do carvão em três anos até 2030. A Federação de BiH atrasou a paralisação de duas unidades de carvão indefinidamente.

O Kosovo produz 94,8% de sua eletricidade a partir do carvão. As suas duas centrais a carvão são antigas e sofrem paralisações frequentes, tendo o governo ponderado reativar os planos para a sua reconstrução.

A Câmara dos Representantes do Parlamento da Federação da Bósnia e Herzegovina votou no sentido de prolongar o funcionamento de mais uma unidade em cada central a carvão da estatal Elektroprivreda BiH Tuzla e Kakanj, cujo encerramento estava planeado para final do próximo ano.

O carvão parece ser a solução de curto prazo para a Europa porque existem muitos outros fornecedores (a própria Europa Ocidental tem ainda bastantes reservas). A Administração de Informações sobre Energia dos Estados Unidos também referiu que espera um aumento das exportações de carvão nos próximos dois anos.

Por último, note-se que Portugal fechou antecipadamente as suas duas últimas centrais a carvão e opõe-se terminantemente, pela voz do ministro Duarte Cordeiro, à reativação das mesmas, alegando não querer depender do carvão russo quando o carvão das centrais portuguesas vinha quase todo (90%) da Colômbia. Uma vez mais, Portugal orgulhosamente só!

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Sub-diretor do Inconveniente

Latest comments

  • “… Duarte Cordeiro, à reativação das mesmas, alegando não querer depender do carvão russo quando o carvão das centrais portuguesas vinha quase todo (90%) da Colômbia….”
    Alguém pode explicar ao homem a diferença entre Russia e Colombia… onde fica um onde fica o outro…
    Concordo com le penn por exigir dos americanos (estado e oligarcas, digo eu) compensação pelos danos que nos estão a causar por nos obrigar a cancelar as importações da russia, mais os danos pelas sanções que nos obrigam a impor à russia que parece-me que nos afectam mais a nós.
    Tanto mais é legítima esta exigência, quando os americanos, já nem têm um mínimo de pudor, e declararam que vão roubar todos os bens que congelaram da russia e dos particulares. Não podem ser só eles a beneficiar.

  • Isto das ideologias é porreiro, mas quando chega ao bolso é o diabo. Vamos defender isto ou aquilo que é mais humano e “justo”, porêm a dura realidade da vida mostra-nos que não é assim.
    Andaram a comer gas da russia porque tinha bom preço, agora aquela animália fez o que está nas noticias, e ficam admirados. Estiveram a alimentar o monstro, a Russia não é democratica, nem nunca foi, é um país (imenso), que saíu de um poder autocrático para outro., por duas vezes, na revolução de 1917 e mais tarde em 1991.
    Não há ali uma cultura democrática, nunca houve.
    O meu pai sempre disse, escolhe com quem andas para não seres confundido com o que não és.

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