Real e ideal, Democracia e o resto

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Parecendo que não, há uma certa diferença entre o real e o ideal.

Na ciência trabalha-se, quase sempre, com conceitos simplificados e ideais. Corpos geométricos, ausência de atrito, condições normais de pressão e temperatura, etc, etc.

Até na guerra, Clausewitz divagava sobre a guerra absoluta como um tipo ideal, não directamente aplicável à complexidade da realidade humana, embora mais tarde uns maduros tenham treslido o que o prussiano escreveu e pintado a manta na 1ª Grande Guerra, e agora uns tresloucados injectados com vodka na Ucrânia.

O ideal é sempre uma simplificação, é como ver apenas 1 ou 0, ignorando a infinidade de valores que existem entre 0 e 1, naquilo que em Matemática, e por isso mesmo, se chama o conjunto de números reais. Reitero, para o caso de não ter ficado claro: números reais!

É que a realidade é quase sempre difusa. Nem a morte e a vida se podem hoje, em certos casos, considerar como extremos claros de uma dicotomia booleana. Há mundos de ordem que existem nas complexidades do caos e vice-versa.

Nós, humanos, temos a mania do ideal, andamos sempre, na nossa caverna de Platão, a suspeitar que as sombras que vemos, são causadas por objectos ideais, que não alcançamos.

Demasiadas vezes colocamos a fasquia um bocadinho alta demais.

Que uma criança queira ser astronauta, tudo bem, naquelas idades tudo parece possível, quando for grande vou ser astronauta, ou princesa de Genovia.

Sim, por vezes é esta busca do impossível que nos faz batalhar, dar o melhor de nós, abrir horizontes mas, se o objectivo estiver na estratosfera, os nossos esforços parecer-nos-ão sempre inúteis e essa é a melhor maneira de acabarmos de monco caído, azedos com a nossa realidade, a fazer manguitos ao Ocidente e a seguir, babados, a flauta mentirosa dos Tios Putins deste mundo..

Ao longo da vida, a realidade dá-nos na cabeça e tende a obrigar-nos a ajustar expectativas. Nas escolhas de um parceiro, de trabalho, de casa, em tudo.

Por exemplo, quase todas as mulheres da minha geração sonhavam com o George Clooney e, vá lá, com o Tony Carreira, à escala local. Não com os reais, mas com as imagens ideais que deles construíram.

Algumas nunca cresceram e andam toda a vida de lágrima no canto do olho e suspiro fácil, em eterna perseguição da ilusão do príncipe encantado.

A maioria, sabiamente, ajustou as suas expectativas a nós, os trastes com aspecto de sapos (e é só por isso que tanto o Clooney como o Carreira ainda estão vivos).

Ora, tirando eu e leitor, existe algum parceiro sem falhas? Alguma profissão só com vantagens? Alguma mulher perfeita? Algum regime angelical e à prova de bala?

Claro que não. Todavia isso não impede a maioria de nós de fazer escolhas menos que perfeitas mas que, mesmo assim, nos aproximam da felicidade. Ao fazê-lo estamos a fazer compromissos e a encarar a realidade tal como ela é.

É também assim na política, e nas expectativas que nelas depositamos.

E é exactamente nessa eterna dialética do real com o ideal, que assenta a clivagem entre liberalismo/ democracia, e as ideologias e regimes directa ou indirectamente subsidiárias do marxismo  (comunismo, socialismo e social- democracia, nazismo e fascismo).

O liberalismo e a democracia, não tem a força explicativa do marxismo, nem a aparência de sólida ordem dos regimes autocráticos e totalitários. Não projectam criar sociedades perfeitas, não são escatológicos, apenas racionais e pragmáticas. Falta-lhes poesia e rasgo. Falta-lhes o prometido e supostamente apoteótico “happy end”.

Por seu lado, os ismos que se lhe opõem são devaneios utópicos construídos a priori, a montante e à revelia da realidade e da natureza das coisas. Prometem o paraíso na terra e, para isso, procuram adaptar o ser humano e essas visões da perfeição, a bem, se possível, à mocada, se necessário, isto é, sempre. Também não têm happy end, bem pelo contrário, mas isso só se sabe depois quando muita gente já tem a cabeça partida pelas mocadas bem intencionadas.

Postas as coisas nestes termos, comparar a perfeição da “coisa em si” que não existe (o imaginado Clooney)  com o que existe (nós), não vale. Ficamos sempre a perder.

É também neste hiato entre o que se idealiza e o que é possível, que engorda a demagogia anti-democracia, omnipresente nos espaços de opinião e análise de todo o país e de todo o Ocidente.

Toda a gente, incluindo eu, tem na sua cabeça, um mundo ideal a que aspirar, uma solução milagrosa para os problemas, uma ideia cristalina de como deve ser a democracia. É normal que assim seja mas, tal como na nossa vida, à medida que crescemos, percebemos que somos menos geniais do que acreditávamos e temos de desenvolver a capacidade de ajustarmos tudo isso à realidade. O facto de tanta gente não o fazer é a prova de que andam para aí muitos putos grandes e birrentos, convencidos que ainda vão ser astronautas e trincar a Scarlett Johansson.

É nesta dialética entre o real e o ideal que se jogam as nossas escolhas. Quando o nosso plano para ser princesa de Genovia não se realiza, o que fazemos?

Continuamos alapados na torre de marfim, ou aceitamos o real e tentamos alcançar um cenário não tão brilhante, mas aceitável?

E se, em vez de planearmos para o impossível, estabelecermos objectivos mais realistas?

Ok, o leitor já sabe que a Keira Knightley nunca vai ser trinca para os seus dentes, que tal assumir isso e deitar os olhos para a vizinha do 1º esquerdo?

Ao fazê-lo, delineia um objectivo possível e a probabilidade de ficar frustrado é bem menor. Se alcançar o objectivo, ficará bem mais feliz do que estava antes, Senão, adiante que o 3º direito também não parece nada mau. É a diferença entre dormir bem acompanhado ou passar a noite a jogar matraquilhos.

Na vida, como na política, aceitar os imperativos da realidade, é condição necessária (mas não suficiente) para fazer boas escolhas e ser feliz.

E, não raras vezes o real torna-se o ideal.

Por exemplo, a Rainha Vitória, não especialmente bonita, casou por amor com o Príncipe Albert de Saxe-Coburg Gotha. Mas o Alberto nem por isso. O finório do Alberto, teutão bem apessoado e bem falante, casou porque ela era a Rainha de Inglaterra e ele apenas um borrabotas, um príncipe alemão de 3ª extração.

Mas eram ambos realistas!

Ajustaram-se à realidade e essa realidade tornou-se ideal. Alberto acabou apaixonado pela amorosa Vitória e, além dos filhos, deram à Inglaterra os códigos vitorianos e a árvore de Natal.

Um happy end que resultou de escolhas possíveis!


José do Carmo

*O autor escreve segundo a anterior norma ortográfica.

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Latest comments

  • Sem comentário. Gosto

  • GOSTO!!

  • Surpreendido. Até pendei que fosse outra pessoa 🙂
    “E é exactamente nessa eterna dialética do real com o ideal, que assenta a clivagem entre liberalismo/ democracia, e as ideologias e regimes directa ou indirectamente subsidiárias do marxismo (comunismo, socialismo e social- democracia, nazismo e fascismo).”
    É aqui que os USA, ainda, dão lições a todo mundo.
    -DVD Version: P1. The Nature and Origin of Human Rights
    https://www.youtube.com/watch?v=MkSHg3JV_V8

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