Quando as legiões se tornam woke

No momento em que a China cresce, flexiona os músculos, engrossa a voz, assina acordos estratégicos com os aiatolas, assedia Taiwan, moderniza as suas Forças Armadas e aposta no reforço do patriotismo e nas tradicionais virtudes militares, a Administração Biden exerce o esforço na implementação da ideologia woke nas fileiras.

O Comando de Operações Especiais dos EUA, que superintende unidades tão importantes como os SEAL, Delta Force, Green Beret, Marines, etc, acaba de nomear o Senhor Richard Estrada para o importantíssimo cargo de “Chefe da Diversidade e da Inclusão”.

E com o Sr Estrada, vem anexado um “Plano Estratégico para a Diversidade e Inclusão” que começa por garantir que “todos compreendemos que a diversidade e a inclusão são imperativos operacionais”.

Não explicam como e eu, por exemplo, que fiz quase toda a minha carreira neste tipo de forças, depois de ler o tal plano de fio a pavio, sinceramente não compreendo como é que a “diversidade” e a “inclusão” são “imperativos operacionais”.

Que parecem ser imperativos políticos e ideológicos, isso é claro, mas tenho algumas dificuldades em compreender como o inimigo será mais facilmente derrotado e as balas atingirão melhor o alvo, se a unidade que o ataca for “diversa” e “inclusiva”.

De qualquer maneira, o plano, para além de um linguajar bastante redondo, opaco, cheio de “inclusão”, “diversidade”, e outros termos floribélicos, propõe a necessidade de colocar profissionais de “diversidade” e “inclusão”, como assessores dos comandantes operacionais.

A começar pelo Sr Estrada, obviamente que, como seria de prever, vem da área da sociologia, essa notável síntese de socialismo e astrologia e que, no seu FB, opina com elevada flatulência contra a polícia, a favor da propaganda marxista do BLM, etc. (o FB do senhor, activo há dois dias, está neste momento indisponível, claro)

Na URSS chamavam comissários políticos a estes guardas da pureza ideológica, Nas Forças Armadas woke, o termo ainda não está decantado mas não andará longe de  “assessor para a diversidade e inclusão”.

E compete-lhes – diz o plano – treinar os comandantes operacionais para que “rejeitem narrativas limitadoras, recusem o status quo e inovem agressivamente para aumentar a diversidade da força e criar ambientes mais inclusivos”.

Acredito que o inimigo ficará assustadíssimo com tais rejeições, inovações e criações.

O plano preconiza ainda que se “promovam as oportunidades de carreira junto das demografias sub-representadas” além de  “eliminar as barreiras culturais ao recrutamento, pela revisão dos processos, qualificações e critérios de selecção” criando “métricas realistas para o sucesso”.

Ou seja, em linguagem simples para militar perceber, se não fazes x flexões na barra, nem corres x minutos seguidos, não acertas no alvo, mas és de uma “demografia subrepresentada”, entras à mesma, e ficam de fora os que cumprem esses requisitos mas não fazem parte da “demografia subrepresentada”.

E tudo isto, garante o plano, irá fazer com que as forças especiais sejam “mais capazes, mais ágeis, mais precisas e mais prontas para ganhar”.

Claro que sim, é tão óbvio que até custa a perceber como é que eu não percebo.

Mas não é só nas Forças Especiais.

O Secretário da Defesa (Lloyd Austin), muito mais preocupado com a inclusão e a diversidade do que com as aborrecidas questões operacionais, afirma que o Departamento de Defesa, cuja missão é proteger os EUA dos seus inimigos, não o pode fazer se tiver inimigos nas fileiras.

E esses inimigos são, depreende-se logo, os indivíduos de uma certa cor que não votaram no Biden e que, por definição, são racistas e extremistas. Na verdade nem sequer se pode criticar o Sr Estrada e o Sr Austin porque, como pertencem a “grupos sub-representados”, qualquer crítica aos seus delírios é obviamente racismo. Como disse e muito bem a Sra Audrey Pulvar, vice-presidente socialista da Câmara de Paris, os brancos não estão autorizados a opinar sobre o racismo.

O Sr Austin pretende pois dedicar-se à purga purificadora, expulsando das fileiras os “racistas e extremistas”. Embora não explique quem são, suspeita-se que tenha algo a ver com a cor da pele e a menos entusiástica aderência ao catecismo woke.  

Isto é um exagero? Uma hipérbole?

Na verdade não.

Está já a carburar a formação obrigatória em “extremismo” nas FA americanas sendo que, segundo o ex-Sargento Chefe Colon-Lopez, assessor do CEMGFA lá do sítio, só são considerados “extremistas” os cromos de determinado tipo.

Por exemplo, BLM e antifas que provocaram (e continuam a provocar) tumultos, saques e mortes em várias cidades americanas, não são “extremistas” porque o BLM é uma “organização de justiça social”.

O que importa, sublinha o Sr Cólon, é “ter a certeza de que os militares compreendem a diferença entre Seattle e Washington” ou seja, que os extremistas de esquerda não são extremistas e os de direita são.

Na US Navy, a formação de “extremismo” permite, por exemplo, fazer a apologia da organização marxista BLM.

Mas há mais.

O general Brad Webb, que chefia o comando de Instrução e Treino da Força Aérea, esclareceu que não é OK a prática da Força Aérea de recrutar candidatos com o brevet privado de pilotagem, como à primeira vista poderia parecer lógico a qualquer leigo que pense na Força Aérea o negócio é justamente pilotar aviões. E não é OK porque, voilá, é “racismo sistémico”.

Segundo a inatacável lógica do general Brad, se tiraram o brevet é porque têm dinheiro, e isso é “privilégio branco”, e exclui outros grupos étnicos. Logo, os testes de aptidão terão de ser mais fáceis para esses grupos, o que equivale a dizer que o que importa a Brad, numa Força Aérea woke, não é que os pilotos sejam bons a pilotar aviões, mas que tenham a pele a o género certos, que o resto logo se vê.

E se o caro leitor concorda, com o extraordinário general Brad, na próxima vez que apanhar um avião, envergonhe-se de si mesmo por alimentar o feio preconceito de preferir um piloto competente, a uma drag queen de uma cor “subrepresentada”.

No mesmo sentido, a senadora “democrata” Hirono, do Hawaii, conhecida por dizer publicamente que vota contra certas nomeações para cargos federais se os nomeados forem homens brancos heterossexuais, avisou já que está a considerar criar um artigo punitivo no Código de Justiça Militar, para os extremistas nas fileiras, os tais que não partilham o catecismo woke.

O que prova que neste admirável mundo novo, são os extremistas que decidem quem é extremista.

Eu confesso que não estou a ver muito bem como é que a adopção do catecismo woke e a consequente degradação dos índices de exigência irá tornar uma força militar mais eficaz, mas se calhar é porque sou um bárbaro e as minhas limitações não me permitem compreender assim à primeira como é que um piloto pilotará melhor se tiver uma certa cor de pele, ou um certo género.

Parece mentira, mas antes, na idade das trevas em que vivíamos antes da Revelação woke, estas coisas avaliavam-se pelas capacidades e qualificações, e não por um tipo ser azul, ou verde, ou sentir-se mulher ou homem, etc.

Que selvagens que nós éramos!

Mas pronto, agora é assim, é o progresso.

Enquanto os chineses e outros tótos, apostam no treino, tiro, técnica, táctica, procedimentos, preparação psicológica e física, os EUA apostam as fichas todas na “diversidade”, na “inclusão” e nas formações sobre “extremismo”.

Seguindo o formato já em vigor na administração pública, ensino público, etc, é provável que as formações impliquem que os soldados “confrontem, examinem e denunciem o seu privilégio branco”, “admitam os seus enviesamentos subconscientes que perpetuam as superstruturas raciais”, comprometendo-se a “tornarem-se anti-racistas”.

O que fazem os generais?

Lá como cá, estão a ver de onde sopra o vento, sentem a ventania ideológica nos queixos e percebem que se querem ter carreira e futuro, tem de ir para onde o vento os leva, ou serão liminarmente cancelados e envidos para o oblívio, como aconteceu por cá, há uns anos, com o CEME, o General Jerónimo.

É assim que as civilizações acabam. Não no fragor épico das batalhas, mas num lento e triste deslizar para a cegueira, a imbecilidade e a irrelevância.

Tal como em Roma, um belo dia, descobre-se que as legiões marcham, brilham, mas já não funcionam.


José do Carmo

Editor de Defesa do Inconveniente

* O autor escreve segundo a antiga ortografia

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Latest comments

  • O mundo está louco!!!!! É o que penso sobre isto e outras coisas deste
    estilo.

  • Análise lúcida que o “politicamente corecto” leva com o vento. O Biden tem que pagar a factura LGBTQ prometida na sua propaganda eleitoral…

  • Eles e os canhotos de todas as conotações têm-se infiltrado em tudo que diminua – ou coloque no seu devido lugar!!! – os seus já amplos e, muitas das vezes, injustificados privilégios! Este biden não passa de um pau mandado dos interesses obscuros de quem quer o poder a qualquer custo. Deixem-nos dar cabo daquilo e os chineses, russos e os “grandes e avançados países” amigalhaços destes “troupe” inqualificável e o Mundo Ocidental está condenado ao declínio, como já acontece há uns bons anos, sorrateira e lentamente, na Europa, cada vez mais refém desta gente!

  • condivido os precedentes comentarios e so vejo uma solucao GUERRA CIVIL quem vence limpa a escumalha

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