Portugal na boca fria de quem nos visita

Passamos os nossos dias a ler e ouvir comparações do estado do nosso país face aos outros, nomeadamente da União Europeia. Que somos consideravelmente piores do que todos, nos salários, nos preços dos combustíveis, no custo das casas, na eficiência dos sistemas de saúde, nos rácios de desempenho na educação, etc.

São comparações que corroem ao ver, ler e ouvir, mas que recentemente tiveram um impacto direto quando as escutei da boca de jovens cidadãos alemães, franceses, italianos, entre outros, na primeira pessoa. Segundo a velha máxima, “olhos que não vêem, coração que não sente”. Mas aqui senti, e senti bastante.

Uma frustração que nos leva a pensar no que realmente andamos todos aqui a fazer. A primeira vez que o ouvi, engoli sem grande problema. Mas foi-se repetindo o mesmo padrão ao longo dos meses. Nas primeiras vezes confesso que contra-argumentei: Portugal tem um sol fantástico, só faz frio dois meses por ano, dispõe de uma costa enorme e oferece uma gastronomia fantástica. Rapidamente me apercebi que me enganava a mim próprio. Não porque esses fatores de valorização estivessem errados, mas por estar a fugir a uma realidade que nos faz pequenos. E que não queremos aceitar.

Esta constatação decorre da minha ainda recente atividade turística no Algarve, no papel de anfitrião. Recebo – e pessoalmente – turistas das mais diversas nacionalidades. Entre viagens ao aeroporto, recebê-los nas nossas casas de praia, entregares-lhes as nossas autocaravanas e explicar-lhes onde ficam os melhores restaurantes da cidade, de como funciona a máquina de lavar roupa e entregar a password do wi-fi, tem havido oportunidade para conversas que vão muito além da circunstância, na grande maioria das vezes puxadas pelos próprios, motivados pela curiosidade de tentarem perceber se é generalizado aquilo a que assistem por cá ou lhes contam.

Ouvir na primeira pessoa acentua a dolorosa realidade. Estou a ouvir de alguém que vive o seu dia-a-dia numa sociedade desenvolvida, com uma qualidade de vida superior onde seria ridículo pagar uma creche para os filhos ou esperar meses e meses por uma consulta no serviço nacional de saúde.

Principalmente durante os check-outs das autocaravanas, em que é necessário o tanque de combustível voltar cheio, o tema do preço por litro da gasolina e gasóleo é sempre um assunto inevitável. A perplexidade dos turistas é tão evidente que não deixo de sentir alguma vergonha. Ainda mais porque reparo no tom de pena e até de troça. Alguns dizem que o preço é equivalente no seu país. Porém, peço-lhes para colocarem em perspetiva tendo em vista o custo de vida e os salários mínimos e médios nacionais. Vejo logo as suas feições a transformarem-se…

O mesmo acontece quando mencionamos valores de renda mensal para apartamentos e estúdios. São tiros em que ganho sempre: eles dizem um número a pensar que é caro, mas em seguida, mesmo a atirarem por baixo, eu fico sempre por cima, no que toca a percentagens sobre salários — e mesmo diretamente.

Outro tema de conversa são os automóveis, nomeadamente os automóveis de alta gama. No meio da conversa, durante a nossa viagem, passámos por um Tesla. Na minha visão esta marca inclui-se nos carros da mais alta gama. Contudo, o meu co-piloto da altura, um simpático turista dos Países Baixos, diz-me que em Amesterdão, onde vivem, são relativamente baratos, que existem apoios altos e abrangentes por parte do Estado e que existe uma rede extensa de postos de carregamento.

Estas conversas funcionam para mim como um fact-checking em tempo real. Fica à flor da pele um sentimento de desilusão. Concluo que nós, portugueses, estamos neste estado de pequenez por culpa própria, sem uma nesgazinha de ambição.

Preso em ideologias que cheiram a mofo, com grilhões amarrados aos pés, não somos capazes de passar da cepa torta. Qual será o gatilho necessário para despoletar a afirmação do País e o seu crescimento económico?

Daqui a quanto tempo vou poder ter conversas em que o meu orgulho não passe apenas pelos triplos saltos da Patrícia e os agudos da Mariza?… E quando passará a ser verdade, ao ligar a TV, só ler os jornais, ao deslizar o ecrã do telemóvel, e quando entro em qualquer instituição pública, verificar eficiência na resolução de problemas?… E que, enquanto empresário, tenha o suporte indispensável para ultrapassar a burocracia que me bloqueia a criatividade e desmotiva a investir?…

Que eu me tenha apercebido, a ambição não vem no caderno de encargos da direita nem da esquerda…

A esperança será a última a cair. Muitas coisas boas se têm feito. Mas a afirmação do povo passa por não aceitar o ordinário, ir para além da mediocridade, passar sem medo a ponte da inovação e fazer all-in não só com o coração, mas com a frieza de assumir que conseguimos, que somos bons, realmente bons. Não bonzinhos.


Vítor Ferreira Santos
Cozy Days

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Latest comments

  • Penso entender o que diz, e tenho, naturalmente, igual desiderato. Mas não nos iludamos, para não termos de nos desiludir. Além da Marisa, do jogador número sete e da apresentadora desbocada, pouco importa a esta boa gente que tudo quanto parece saber fazer é exigir, exigir, para poder curtir, curtir.
    Querem, a todo o custo, ser felizes, embora num conceito de felicidade impossível de atingir e bastante enviezado.
    Refleti sobre o tema em https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2021/04/quero-ser-feliz.html, que, com os melhores votos de um excelente fim de semana, tenho o gosto de o convidar a visitar.

  • “password” – “wi-fi” – “check-outs” – “fact-checking” – “all-in”
    Porque razão não utilizamos a nossa língua?
    “Passamos os nossos dias a ler e ouvir comparações do estado do nosso país face aos outros, nomeadamente da União Europeia.”
    Bom, aos “porcos” (P.I.G.S.) impuseram condições para dar uma ajuda, substancial, para salvar a economia alemã…
    Tesla “…que existem apoios altos e abrangentes por parte do Estado…”
    O estado somos todos nós, logo, porque os outros portugueses têm de também pagar por um carro que não vão usufruir? Porque não podemos ser cada um de nós a decidir onde gastar o dinheiro que ganhamos? Repare que quem ganha com isso é quem vende, pois dessa forma vendem-se mais carros. É o socialismo uma boa opção? Ideologia exportada pela alemanha e infelizmente também importada (gastou-se muito dinheiro para isso) pelos portugueses. Pela razão de que a actividade humana está a aquecer o planeta? Essa conspiração para, mais uma vez, extorquir a riqueza que cada um cria/ganha e torná-los cada vez mais pobres? Pondo-a em mãos de duvidosa idoneidade?
    Se não me engano, a rótula, prótese, mais usada foi criada por portugueses, o programa para controlar o programa de voo do vai e vem (para que este não falhasse), foi criado por portugueses, a BMW lançou concurso para construir um escape para a gama alta, quem ganhou foi uma empresa portuguesa.
    Certo, 2 médicos portugueses descobriram um método para fazer crescer medula espinal, que era tido como impossível. Etc.
    Concordo consigo, devemos tentar sempre melhorar. Temos coisas más mas também temos boas, tal como os outros, mas, somos o que somos e devemos querer ser o que somos.
    Por último mas não menos importante, nestes tempos difíceis, parabéns pelo seu empreendedorismo.

  • Muito claro e pertinente o seu desabafo. Na guerra dos números e estatísticas Portugal perde.
    Felizmente temos pessoas de prestígio nas artes e nas ciências, porque a inteligência e a criatividade não são monopólios de ninguém.
    Neste país ”onde a terra acaba e o mar começa” dá-se muito pouco valor e espaço à instrução e cultura.
    Os portugueses não sabem quase nada da história do seu país e isso é como viver quase cego, sem perfeita consciência da própria identidade, é como não saber quem são os pais e, pelo menos, os avós e o sítio onde se nasceu. Conhecer permite compreender e argumentar.
    O sol, a costa e a gastronomia não têm força argumentativa porque são estereótipos. O estranjeiro médio – quer em boa fé quer por preconceito – é geografica e historicamente ignorante, pensa que Portugal e Espanha são a mesma coisa, que copiámos nas nossas ruas a chamada “calçada portuguesa” que viram no Brasil. O homem da rua, mais informado da actualidade, às vezes confunde-se e está convencido que o Ronaldo é espanhol!

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