Portugal diz adeus ao carvão

No final de novembro de 2021, Portugal vai dizer adeus ao carvão com o fecho antecipado da central do Pego, a segunda e última central a carvão que operou nos últimos anos, juntamente com a central de Sines, cujo encerramento também foi antecipado para janeiro de 2021.

As duas últimas centrais a carvão operavam, segundo dados da REN, com uma potência instalada conjunta de 1756 MW e o seu encerramento antecipado é justificado com a “deterioração das condições de mercado”. É uma explicação que pouca gente consegue assimilar completamente. Nesse sentido, iremos tentar dar aqui uma explicação que toda a gente perceba, mesmo aqueles que não sejam peritos em energia ou economia.

Imagine-se que um empresário pretende adquirir um autocarro a diesel para transportar pessoas de um lugar para outro. Pede dinheiro ao banco para investir e depois faz as contas daquilo que tem que pagar mensalmente ao banco, gastos de combustível, motoristas e manutenção, estimativa do número de viagens e de passageiros, lucro, seguro, etc. e calcula o preço de cada viagem. Vamos supor que ele calcula 10 euros por passageiro e por viagem. Faz um horário para a sua carreira e começa a fornecer o serviço à população regularmente, sem falhas.

Um belo dia, surge um transporte alternativo privado, movido a gasolina, em que cada viagem custa 15 euros mas que só opera de vez em quando, conforme a disposição do motorista. Mas quando opera, os passageiros são obrigados a preferir esse transporte, por imposição legal.

O privado que investiu no autocarro a diesel passa a vender menos viagens e vai ter que fechar ou aumentar o preço dos bilhetes. Mas a concorrência desleal do transporte a gasolina é tal, que teria de subir o preço para valores que fariam os utilizadores preferir chamar um táxi ou esperar pelo autocarro a gasolina.

Embora a situação descrita não seja exatamente a mesma que levou ao encerramento das centrais a carvão, porque na produção de eletricidade há mais variáveis a considerar, serve para ilustrar aquilo que aconteceu com as nossas centrais a carvão.

Concentremo-nos na situação da produção elétrica no ano de 2020:

Durante o ano 2020, em números redondos, Portugal dispunha ao todo de uma potência de geração elétrica instalada de 20 GW, que produziram 47,9 TWh de energia elétrica (excluído o saldo importador). É como se tivéssemos operado os nossos 20 GW durante 6,43 horas por dia durante todo o ano – 26,8% de utilização da potência total instalada.

A potência instalada em energias renováveis é de 13,3 GW, que produziram 28,8 TWh de eletricidade, o que equivale a 5,91 horas por dia de funcionamento, em pleno, das renováveis – 24,6% de utilização da potência renovável. Hídricas com 19,3% de utilização, eólica com 26,3%, solar com 16,4% e biomassa com 52,7%.

As energias hídrica, eólica e solar dependem respetivamente da disponibilidade dos recursos que as alimentam – água, vento e sol. A fraca utilização das hídricas pode resultar do facto de não beneficiarem das tarifas feed-in (prioridade de entrada na rede). As horas de vento e de sol diárias determinam as utilizações da eólica e solar que beneficiam das tarifas feed-in. Sobressai, pela elevada utilização, a energia elétrica da biomassa com 52,7% de utilização. A biomassa está incluída nas tarifas feed-in e, desde que não falte o combustível de que se alimentam, podem funcionar sem as restrições impostas pela rede. A baixíssima utilização do solar (16,4%) advém do facto de só termos 4 horas de sol diárias equivalentes à potência solar instalada.

Consideremos agora as não renováveis:

A potência total instalada de não renováveis é de 6,3 GW, com uma produção de 19 TWH, o que equivale a 8,19 horas diárias à potência máxima – 34,1% de utilização. Carvão com 13,9% de utilização e gás natural com 41,2%.

De todas as componentes do “mix” produtor de eletricidade, são precisamente as centrais a carvão as que têm (tinham) a pior utilização (13,9%). Isto resulta do facto de estarem impedidas de operar, tal como na analogia do empresário do autocarro a diesel. E estão impedidas de operar por duas razões: porque o Governo impõe aos consumidores as energias de tarifa feed-in (eólica, solar e biomassa), deixando às não renováveis (carvão e gás) e à hídrica a tarefa de acudir quando aquelas não conseguem suprir as necessidades.

Mas, se o gás e as hídricas conseguem reagir depressa às variações da procura, tal não acontece com o carvão, pois as centrais têm uma inércia térmica de funcionamento elevada, estando por isso vocacionadas para trabalhar a uma potência constante próxima da potência máxima. Esta operação não se coaduna com a existência de centrais de produção aleatória, que gozam do privilégio de entrar prioritariamente na rede elétrica.

Portanto, Portugal diz adeus ao carvão por causa da fraca utilização das centrais (13,9%), que faz com que o preço do MWh de carvão já não possa competir no mercado elétrico. As centrais a carvão foram, por assim dizer, escorraçadas da rede pela política de favorecimento da eólica, solar e biomassa.

De seguida, iremos possivelmente assistir, com a instalação de mais eólicas, solares e biomassa, ao escorraçar do gás natural, que teve em 2020 uma utilização de 41,2% (que já se pode considerar baixa para este tipo de centrais). De mais a mais, o preço do gás está também em alta, pelo que, abaixo de uma determinada utilização, pode perder competitividade no mercado de energia elétrica.

As centrais de biomassa são as que atualmente têm uma maior utilização (52,7%), uma vez que também beneficiam das tarifas feed-in, juntamente com a eólica e solar. Têm ainda pouca expressão porque a potência instalada é pequena. Voltaremos a este tema das centrais elétricas de biomassa num outro artigo.

Utilização das potências elétricas instaladas em 2020

Henrique Sousa

Editor para Energia e Ambiente do Inconveniente

Partilhar

Latest comments

deixe um comentário