Portugal de mão estendida

Rafael Bordalo Pinheiro, “O estado da Fazenda Pública”, publicado n’o O António Maria, 13-1-1881, p. 16.


A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, veio finalmente admitir, em 10-2-2021, que houve erros de avaliação nos processos de contratação de vacinas. Houve excesso de optimismo e perdeu-se tempo.

Não foi bem um pedido de desculpas. Foi apenas a admissão de que houve falhas numa altura em que começa a ser evidente que a UE corre o risco de ficar em último na conquista da tão necessária imunidade de grupo. Em 24-2-2021, a Reuters fez saber que a AstraZeneca só entrega metade das vacinas prometidas até junho. Estava prevista a entrega de 180 milhões de vacinas mas a farmacêutica anglo-sueca só vai entregar 90 milhões de vacinas (Público, 24-2-2021). Essa redução pode comprometer o objectivo da UE de atingir a imunidade de 70% dos europeus. Depois do incumprimento da Pfizer, temos agora mais um incumprimento da AstraZeneca.

A Presidente da Comissão Europeia não soube acautelar os direitos contratuais da União. Mais uma vez se prova que a UE é demasiada lenta e pesada a tomar decisões.

Os europeus merecem um pedido de desculpas. E merecem também que a Comissão Europeia coloque à disposição dos 500 milhões de cidadãos vacinas como a Sputnik V (russa) e outras que mostrem eficácia e segurança e estejam disponíveis para entrega imediata. Caso contrário, resta-nos saltar de confinamento em confinamento até que o número de infeções garanta a imunidade de grupo.

Entretanto, o Governo espatifa a economia e semeia pobres por todo o lado. Quanto mais pobres mais subsídios a fundo perdido exigidos à UE por parte do Governo pedinte.

À medida que cresce o número de portugueses dependentes de subsídios estatais aumenta o grau de tolerância dos portugueses a um lockdown prolongado. O povo é manso. Habituou-se a contar com um Estado paternalista. Aceita prescindir do livre arbítrio e autodeterminação em troca de um certo nível de proteção, ainda que esse nível seja cada vez menor.

O lockdown prolongado, acompanhado de fortes restrições à liberdade de movimentos, aumenta a dependência dos portugueses face a um Estado paternalista, capturado por uma elite iluminada e corrupta, interessada em fortalecer uma cultura da pedinchice. Os portugueses andam cada vez mais de mão estendida perante o Estado e este faz o mesmo em relação à União Europeia. A cultura da pedinchice está tão entranhada no nosso país que são cada vez menos os portugueses capazes de fazer uso do livre arbítrio e da autodeterminação no dia a dia das suas vidas.

Nos últimos 20 anos, Portugal caiu quatro lugares no PIB per capita e foi ultrapassado por Malta, República Checa, Eslovénia, Estónia e Lituânia. Só ultrapassou um país: Grécia. Foram 20 anos a divergir da média europeia. Vinte anos a empobrecer.


Ramiro Marques

*O autor usa a norma ortográfica anterior.

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Latest comments

  • Não é por ser mulher, muito menos por ser loura! É simplesmente por ser “barbie”.
    Com a Merkel teria sido diferente.
    Pode ser que depois disto, o Costa pense duas vezes antes de vangloriar o seu optimismo.

  • A ursula mostra impreparação

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