Por quem os sinos dobram

Na sua obra “Poems on several occasions “, em 1624, John Donne escreveu: “quando morre um homem, morremos todos, porque todos somos parte da humanidade”. E conclui: “therefore never send to know for whom the bell tolls; It tolls for thee”.

Pelos caminhos sinuosos da intertextualidade, Ernest Hemingway dá continuidade à ideia, no seu romance “Por quem os sinos dobram”. Aí transmite literariamente a sua experiência como guerreiro e artista. A guerra é morte, mas não consegue banalizar a morte. A morte não é banalizável e a grande literatura faz dela e do amor os seus temas de eleição, por calarem demasiado fundo na natureza humana, como questões existenciais que as nossas defesas psíquicas tentam eufemizar ou esquecer, no dia a dia comum, para que a vida decorra sem grandes angústias ou sobressaltos. Mas que dizer quando os sinos dobram constantemente, quando eclode a guerra e a morte se torna uma constante? Talvez que também nós morremos um pouco a cada dia, perplexos perante uma realidade demasiado atroz, impotentes para lhe pôr fim, num pesado e generalizado luto.

Hoje na televisão perorava um militar de alta patente sobre o massacre em Bucha e sobre o infeliz facto de o cenário que ali choca o mundo se ir verificar em muitas outras cidades e em maior escala. E, à laia de desabafo, dizia ser assim a guerra e já ter visto pior na Bósnia, dando como exemplo o empalamento. À noite, também na TV, um “especialista em ódio” opinava que o ser humano é capaz das maiores atrocidades, quando adestrado a considerar o inimigo como não humano, os “untermenschen”, conceito que os nazis usaram de modo tão cruel na Shoah.

Poderíamos acrescentar outro conceito caro aos nazis, o de “lebensraum” (a ideia de que cada povo precisa de um determinado “espaço vital”) também invocado pelo  “desnazificador”. Putin, que, no seu país com as dimensões de um continente, diz estar cercado e ter em perigo as suas fronteiras. O presidente russo teve, sem dúvida, grandes mestres e tem, infelizmente muitos seguidores, muito poder, e uma imensidão de gente subjugada no seu enorme país.

Por cruel fatalidade histórica, a Ucrânia, cuja população Estaline quase totalmente dizimou à fome no Holomodor (horror negado desde sempre pelos comunistas), é a mesma onde hoje os cães esfaimados se voltam a alimentar dos corpos espalhados pelas ruas e florestas. Onde as pessoas sitiadas, de novo privadas de alimentos, tentam cozinhar e comer pombos, para em seguida os vomitar. Onde a morte se instalou de novo, agora com estrondo e destruição.

Nestas circunstâncias, quase deixaríamos de crer no ser humano, não fosse a solidariedade quase universal que o horror em directo desencadeou. A Polónia, país que tão bem conheceu o martírio nazi quanto o soviético, tem sido um farol neste combate em que a neutralidade é cobardia. Boris Johnson, tão criticado pela sua excentricidade, demonstra parte das razões do Brexit: os britânicos prestam a ajuda que decidem (e que tão apreciada tem sido), sem necessidade de autorização exterior. E Biden, tão vituperado por ter dito a verdade, leva-me a fazer minhas as suas palavras ” he (Putin) is a butcher”.

Assim nos vemos mergulhados num horror que desejaríamos impossível de recomeçar, acrescentando agora o elefante no meio da sala que é a ameaça nuclear. Ninguém quer que uma quarta Guerra Mundial venha a ser travada de arco e flecha ou à pedrada. E contudo, o fantasma de uma Hiroshima multiplicada até à destruição total foi ressuscitado no Kremlin. E o mundo hesita e teme.

Entretanto, vai-se tornando habitual, embora nunca normal, o que o genial Pessoa retratou, sem melodrama, mas em toda a sua dureza em “O menino da sua mãe”:

“lá longe em casa há a prece

que volte cedo e bem.

(…) Raia-lhe a farda o sangue

de braços estendidos

alvo, loiro, exangue,

fita com olhar langue e cego os céus perdidos

(…) Jaz morto e arrefece

o menino da sua mãe.”


Ninguém diga que, depois do Horror, a poesia se torna impossível, impensável. Mais do que nunca, será a grande arte a ajudar-nos, um dia, a compreender, a interiorizar, a transformar o luto em algo ainda doloroso, mas belo e bom.


Isabel Pecegueiro

* A autora usa a norma ortográfica anterior.

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Latest comments

  • É assustador que a vida humana tenha tão pouco valor! Belíssimo texto que só mesmo a poesia de Fernando Pessoa pode sintetizar.
    Bravo!

  • Muito obrigada 😊. Sou uma pessoana fanática!

  • Não me espanta que as tropas russas tenham cometido crimes de guerra, e que possam infelizmente vir a cometer mais.
    O que, ainda hoje me deixa algo espantado, é a fé de muita gente. A fé de que pertencemos a uma sociedade ocidental imaculada. E que as tropas ucranianas, mais a governação do elensky, são sobre-humanos resistindo a todas as tentações.
    Foi a 1ª vez na história humana, que se conseguiu numa investigação de crimes de guerra, descobrir do que morreram as pessoas, como morreram, data aproximada, etc, etc, etc, e obviamente, encontrar culpados, em apenas 8 dias.
    Os nossos investigadores criminais, mais os que investigam há vinte anos na ex-jugoslávia, têm de por os olhos na comunicação social, fazedores de opinião, políticos, etc, e aprender alguma coisa.
    Cá por mim, fico à espera que daqui a uns meses ou anos se comece a saber alguma coisa. Mas claro, já será tarde de mais, já não tem qualquer importância, o objectivo há muito terá sido atingido. As consequências, as vítimas, que não serão só russas, serão inevitavelmente esquecidas. Lembra-las para quê?

    • Não leu em parte alguma que eu considero o Zelensky imaculado. Desejo a vitória à Ucrânia, mas não sou dada a culto de personalidade. Obrigada pelo comentário.

      • “Não leu em parte alguma que eu considero o Zelensky imaculado.”
        Correcto. Não me parece ter insinuado nada.
        “Desejo a vitória à Ucrânia…”
        Todos nós vamos perder, independentemente da nacionalidade. Vitoriosos serão os banqueiros, vendedores de armamento, gás americano, etc, quiçá também os governantes ucranianos.
        Também agradeço o seu comentário.

  • Excelente artigo e que reflete a realidade nua e crua, retratada ao minuto frente a um ecrã de televisão, para um espectador comodamente sentado no seu sofá, deixando aterrorizados os mais insensíveis. Sim, a poesia ainda poerá ser a única arma para aliviar a nossa angústia, pelo desespero de um inocente povo ucraniano.

    • Ainda bem que passei a mensagem. Obrigada 😊

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