Poker e a gesticulação nuclear

Nos últimos meses, à medida que a Rússia vai fazendo as suas jogadas e perdendo terreno, prestígio e batalhas na guerra que desencadeou contra a Ucrânia, os dirigentes russos têm sistematicamente sugerido, de forma críptica ou aberta, a possível utilização de armas nucleares no caso de ultrapassagem de certas linhas vermelhas.

Poucos países têm armas nucleares e até hoje nenhum deles ameaçou utilizá-las por dá cá aquela palha, porque se tem entendido que este tipo de armas não é para usar, mas sim para dissuadir outrem de nos tentar aniquilar. A ideia é que se o inimigo estiver prestes a acabar connosco, a nossa resposta acabará também com ele.

Chama-se a isto, MAD (Mutual Assured Destruction) e assenta no pressuposto que os actores racionais não são bombistas suicidas.

Assim sendo, as frequentes ameaças russas no quadro da guerra contra a Ucrânia são únicas, inéditas, deliberadas e calculadas, na minha opinião. Resultam de fraqueza e não de força, tal como no poker, quando temos uma boa mão, não fazemos apostas esmagadoras para não espantar o jogo.

Será Putin um D. Quixote, movido por visões delirantes de moinhos que lhe parecem gigantes, ou um Sancho Pança, ligado à realidade?

Penso que é um Sancho Pança com ambições megalómanas, mas pretende que o vejamos como um cavaleiro alucinado, porque acredita que assim nos pode paralisar pelo medo.

Putin não é um jogador de xadrez, como diz frequentemente, em tom apologético e quase apaixonado, o inacreditável general Agostinho Costa, que passeia a sua torturada e confrangedora verbosidade pelas televisões, mas sim um temível jogador de poker.

Pretende pura e simplesmente que não vamos a jogo, insinuando que tem a mais alta combinação de cartas.

Repare-se que, na maior parte das vezes, são os comentadores ocidentais, alegados “especialistas” como o referido general, quem, atribuindo-se a si mesmos o manto diáfano do “pragmatismo” e do “realismo”, fazem a conveniente exegese dos talking points do Kremlin, reforçando-os e enfatizando-os de forma continuada.

Por exemplo, há dias, num programa de televisão, o general Agostinho, que não se distingue propriamente pela subtileza raciocínica, e parece ter assumido completamente a narrativa russa, depois de ser obrigado, contorcendo-se, a assumir a realidade de sucessivas vitórias ucranianas no terreno, disse, à laia de grande ensinamento: “Sotor, permita-me apenas que acrescente que estamos agora mais perto de uma guerra nuclear”.

Isto é música para os ouvidos de Moscovo, porque é exactamente essa a narrativa que os estrategas do Kremlin pretendem empurrar para o nosso prato. A de que o Ocidente, para seu bem, não deve fornecer armas à Ucrânia, tem que aceitar que a Rússia é omnipotente e convém apaziguá-la, isto é, obedecer a tudo o que o Kremlin determina porque, voilá, vem aí a “guerra nuclear”.

Mutatis mutandis, é exactamente a lengalenga daqueles rebanhos de alucinados que, no inicio da década de 80, berravam furiosamente “antes vermelhos que mortos”, protestando contra a instalação de mísseis Pershing na Europa, em resposta aos SS-20 já apontados às cidades europeias. Confesso que me faz alguma impressão ver um ex-general do Exército Português nestas lamentáveis figuras. Fá-lo por convicção? Por encomenda?

A verdade é que a reiteração da ameaça nuclear por parte de certas personagens russas, por determinados grupos ocidentais ligados ao antiamericanismo, às teorias da conspiração e ao culto da saudade soviética, e por  “especialistas”  que se integram numa destas três categorias,  bem como o facto de  ela aparecer sempre em momentos cruciais da guerra – indica, a meu ver, e dentro da metáfora do poker, que se trata de bluff.

Basta relembrar que ao desencadear a invasão, enganando muitos especialistas, Putin brandiu de imediato a ameaça de que usaria todos os meios para impedir que qualquer país interviesse e ajudasse a Ucrânia.

Ou seja, o fornecimento de certas armas à Ucrânia, seria uma linha vermelha, um casus beli e a Rússia faria e aconteceria.

Não fez e não aconteceu, o bluff falhou, as cartas não o sustentavam.

As sanções contra a Rússia eram também um acto de guerra e mais isto e mais aquilo. Ataques na Crimeia, a território russo, a regiões “anexadas”, tudo isso precipitaria a poderosa resposta russa.

O bruáá nuclear dos últimos dias surge porque a Rússia “anexou” partes da Ucrânia, e quer amedrontar os  ucranianos para não continuarem a sua ofensiva sobre “territórios russos”.

O padrão é óbvio: trata-se de dissuasão, que depende da percepção, pelo inimigo, da nossa capacidade e vontade de usar a força. É um jogo de poker, mas com apostas altas. Se a dissuasão falha, isto é, se não conseguimos convencer o inimigo da nossa determinação, e somos obrigados a mostrar que não temos as cartas que ameaçávamos ter, perde-se a credibilidade.

E quando a dissuasão assenta no patamar nuclear, o bluff é ainda mais refinado e tem de ser especialmente credível porque é, mutatis mutandis, como sugerir que se anda com um colete de bombas ameaçando fazer explodir tudo, incluindo nós, se nos atacarem.

O paradoxo é que quanto mais apaziguadora e temerosa for a postura de uma das partes, quanto mais enfática for a imagem de moderação, relutância ou ambiguidade no uso da força, menores as hipóteses de dissuadir o inimigo e maiores as probabilidades de a força vir efectivamente a ser usada. É por isso que a Rússia brande a ameaça,no fundo a liderança russa acredita que o Ocidente é fraco, decadente e que as democracias cederão, por medo ou comodismo, às pretensões russas

E porque razão prática a Rússia usaria armas nucleares tácticas, como se ouve por aí?

Que acontece se for lançada uma sobre tropas ucranianas?

Morrerão alguns soldados ucranianos, não muitos, será destruído algum material, também não muito, porque as formações são dispersas, mas e depois?

A área ficará radiologicamente interditada tanto para os ucranianos como para os russos cujas forças não estão minimamente treinadas e equipadas para combater em ambiente nuclear, químico ou biológico.

 A frente de combate ficará igual, é como se naquele sector houvesse um buraco intransponível.

Se lançar numa cidade, também não é provável que os ucranianos se rendam e aceitem o diktat russo. As suas forças estão no terreno, nada muda.

E se lançar em, digamos, 30 cidades e em toda a frente de combate?

Bem, seriam necessárias centenas, talvez milhares e dada a qualidade do material russo, muitas delas falhariam. De qualquer modo teoricamente aniquilaria a Ucrânia mas disso não se poderia aproveitar, porque, por um lado, vastas regiões ficariam contaminadas durante muitos anos e por outro lado, porque a NATO não teria outra escolha senão envolver-se directamente no conflito, no mínimo destruindo todas as forças russas susceptíveis de combater ou alvejar a Ucrânia. Terá sido esse, de resto, o conteúdo da carta enviada na semana passada pelos EUA à Rússia e  de algum modo, dado a entender pelo General Petraeus.

Será bluff americano?

Se sim, é credível porque os russos sabem bem que a destruição das suas forças por meios exclusivamente convencionais é factível, uma vez que são incapazes de enfrentar uma ameaça aérea tão forte como a dos EUA ou da NATO.

Concitaria também sobre a Rússia a ira de todo o mundo, incluindo a China. Além disso os ucranianos iriam lutar de forma ainda mais impiedosa, usando tudo o que a imaginação humana é capaz quando nada mais tem a perder,

Ou seja, a ideia do nuclear não é lá muito boa, não daria à Rússia qualquer vantagem e as consequências podem ser desastrosas para a própria Rússia.

Ora a liderança russa, apesar da bravata quixotesca, existe num mundo real onde espera, no mínimo, não concitar a  antipatia do Sul e do Oriente. Ate agora, essa cautela tem-lhe garantido uma certa condescendência da países com a Índia, China, Brasil, etc, mas  o uso de armas nucleares iria obviamente alterar tudo isso.  

Alguns temem que a psicologia de Putin seja a de um animal acossado sem escapatória e nada a perder, pelo que os desaires no campo de batalha e a pressão que se imagina estar a enfrentar na vertente doméstica, podem levar à desesperada subida aos extremos. Até Biden sugeriu isso há dias, em mais uma das habituais tontices que obrigam o seu staff a correr para as “explicar” e contextualizar.

Ora é verdade que se as forças ucranianas continuarem a avançar, Putin está em risco, por dissensões internas. Ele sabe isso. E sabe também que a nomenklatura que o rodeia teme uma guerra num patamar nuclear, porque percebe que também será o seu fim. E, exceptuando alguns radicais inebriados pela ideologia, a maioria não quer isso, mas sim viver e desfrutar da riqueza. Ora para esta gente, se as derrotas e o descalabro se acentuarem, e as ameaças nucleares de Putin passarem a ser para eles, mais que um bluff estratégico, a manutenção do Czar no poder compromete, não apenas as suas vidas, mas também as das suas famílias. E “the Russians love their children too”, como cantava Sting.

Sim, Putin tem de ganhar para sobreviver. Se o rumo dos acontecimentos não caminhar nesse sentido, talvez passe pela sua cabeça desesperada a jogada final do bombismo suicida à escala nuclear.

Mas estamos muito longe esse momento. Para já, ainda parece acreditar na força do seu Exército, na eficácia do bluff e na ideia de que o medo e o comodismo dos ocidentais irão privar a Ucrânia de apoios, especialmente neste Inverno difícil que se aproxima.

Está enganado, mas provavelmente ninguém lhe dirá isso na cara.


José do Carmo

*O autor escreve segundo a anterior norma ortográfica.

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  • São tantos os generais que Abril fez que se atropelam no dia de receber, a grande maioria não fez a guerra, são amanuenses, por isso podem ser tentados a tudo. Se fosse nos USA 1 general chegava para cada ramo das FA, ou melhor, ainda tudo junto, Marinha, Exército, FA, dava para 1 general para todo o país.

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