Planeta das Pulgas

Quem não se lembra do Planeta dos Macacos? Uma ficção ou uma possibilidade? Pessoalmente acho que é uma possibilidade, porque a espécie dominadora é semelhante à nossa, mas considera-se mais inteligente e civilizada e isso já aconteceu muitas vezes na história da humanidade.

Uma ficção bem mais conseguida seria se, em vez de macacos, fossem as pulgas que entrassem na história. Senão, vejamos:

Num futuro, que esperamos ser longínquo, em que a humanidade já se auto-extinguiu para salvar o planeta, só existiam espécies animais menos “escrupulosas que beneficiavam com o desaparecimento da espécie humana.

A nova espécie dominante acabou por ser a pulga que habitava todo o planeta e parasitava os restantes animais terrestres. E a pulga tornou-se inteligente. Inteligente ao ponto de recriar conceitos que tinham desaparecido da Terra com a extinção da humanidade. Começou por surgir a noção de tribo. As pulgas de uma tribo defendiam-se dos ataques de outras tribos, ou atacavam-nas quando lhes faltava alimento. Não tardou que surgisse a noção de território, quando várias tribos faziam pactos de não agressão para se defenderem de ameaças de outras pulgas vindas de regiões onde já escasseavam os animais de cujo sangue se alimentavam.

E nasceu aquilo a que chamaram de civilização. As pulgas civilizadas começaram a prosperar e despertaram a atenção das pulgas bárbaras. As pulgas bárbaras vinham em hordas famintas, atacavam as pulgas civilizadas, matavam-nas, violavam-nas e escravizavam-nas. Instalavam-se como donos e senhores de um território pulgoso e punham as pulgas subjugadas a trabalhar para eles. Estas é que iam à procura dos animais, tiravam o sangue para um saco e iam entregar aos seus senhores. Assim nasceu outro marco da história da pulga, chamada a escravatura. As pulgas senhoriais, vindas de regiões de sangue e clima diferentes, tinham características físicas diversas das das pulgas escravas. Era inevitável que surgissem classes sociais…

Julgo que seria fastidioso contar a história da pulga inteligente (é bastante parecida com a do Homem) até ao momento em que o mundo pulguento estava dividido em países, uns ricos e outros pobres, com armas de destruição massiva, uns e outros a passar fome.

Mas os ricos estavam muito preocupados com o bem-estar dos pobres a quem prometiam ajudas mas havia cada vez mais pulgas pobres e cada vez menos pulgas ricas mas estas detinham a maior parte do sangue e da riqueza do planeta. Eram os fabricantes de armamento, os donos das farmacêuticas, das fontes de energia, das telecomunicações, dos meios de comunicação, da indústria automóvel, dos químicos e fertilizantes, digo, catalisadores de sangue animal – 80% da riqueza mundial estava nas mãos de meia dúzia de pulgas, algumas delas até se entretinham a fazer voos para o espaço em naves fálicas.

Mas estes novos donos do planeta sabiam que tinham que se precaver da ameaça de outros países mais pulgosos. A pressão da emigração das pulgas de países pobres ou em guerra para os países ricos era uma realidade. Havia mesmo pulgas que se metiam em cascas de amendoim para atravessar o Mediterrâneo. Outras pulavam os muros construídos por alguns países ricos e eram presas em campos de pulgas refugiadas. Outras ainda saíam, aos milhares, do Pulguistão a bordo de alguma ave de grande porte enviada pelos países ricos, depois de uma guerra de vinte anos entre os pulguistaneses e uma tribo de fundamentalistas pulguentos, em que estes levaram a melhor porque foram apoiados por pulgas ricas e fundamentalistas como eles, que só bebiam o sangue de outras pulgas e escravizavam as pulgas-fêmeas, não as deixando sequer estudar.

O excesso de população de pulgas começou a ser uma preocupação dos países ricos ocidentais. Mas como dar cabo destas pulgas de modo a garantir um futuro tranquilo onde houvesse paz para uma população que trabalha exclusivamente para aquela meia dúzia de pulgas detentora das riquezas do mundo?

Foi aí que surgiu uma pulga democrata, chamada Al Pulga, que engendrou uma teoria que levaria todas as pulgas a acreditar que se impunha tomar medidas drásticas contra o consumo do sangue de outros animais, porque o consumo de sangue desses animais andava a provocar transformações profundas no ambiente, transformações essas que punham em risco o futuro da pulguidade e do planeta.

As pulgas tinham que deixar de beber sangue de outros animais e passar a beber água ou seiva das plantas. Com a ajuda dos meios de comunicação, com a cooperação dos governos e das organizações internacionais como a ONP (Organização das Nações Pulguentas) e da OPS (Organização Pulguenta de Saúde), foram organizadas conferências, estabeleceram-se acordos mundiais e metas a atingir em pouco tempo. As pulgas deviam reduzir o consumo de sangue em 50% até ao ano XX30.

O objetivo era, no entanto, reduzir a população mundial de pulgas e zelar pelo bem-estar daquelas poucas pulgas que detinham a riqueza. Por isso, em paralelo com a redução do consumo de sangue de outros animais, havia que convencer as pulgas a não procriarem. Campanhas de planeamento familiar, cada pulga só devia ter uma pulguinha, uso generalizado de preservativos, aborto gratuito, desemprego galopante, epidemias, etc. foram orquestradas nos meios de comunicação e foram feitas leis que as pulgas acataram e até apoiaram.

Bom, já podem imaginar o que aconteceu depois: extinção gradual da pulga e, no ano XX60 o planeta foi novamente salvo, mas desta vez das pulgas!

Com este final, já não sei se esta ficção não é apenas a realidade vista por quem pensa que, para o planeta, não passamos de seres insignificantes, tal como as pulgas, cuja extinção de nada adianta para o salvar. Até porque o planeta não precisa ser salvo e nós não nos salvamos pela via da auto-destruição que andamos a trilhar.


© imagem via Wikimedia Commons

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