Perspectivas na Ucrânia

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Em artigo anterior dei conta da elevada probabilidade de um ataque russo à Ucrânia, das prováveis modalidades de acção a usar pelas forças russas, e do modo como a dissuasão resultante da postura estratégica ocidental está a falhar e a propiciar o estalar de conflitos latentes.

Dizia Sun Tsu que quem conhece o inimigo e se conhece a si mesmo, ganhará mil batalhas. Quem se conhece a si mesmo mas não conhece o inimigo, por cada cada vitória sofrerá uma derrota. Quem não se conhece nem ao inimigo, perderá todas as batalhas.

Sendo assim importa, e muito, conhecer as potencialidades e sobretudo as motivações do “outro”, não para “simpatizar” com ele, mas para melhor manobrar em função dos objectivos próprios.

Se eu souber que, num encontro com javalis, estou entre a mãe e as crias, conheço a principal motivação desta para atacar e agirei em conformidade, em função daquilo que pretendo.

George F. Kennan, profundo conhecedor da URSS e da chamada “alma russa”, escreveu em 1997, “A Fateful Error”, dando conta de que considerava um enorme erro a expansão da NATO.  

Segundo ele, tal expansão iria, entre outras coisas, inflamar sentimentos nacionalistas e anti-ocidentais, sendo contraproducente a um eventual avanço da democracia na Rússia e eventualmente conducente a uma nova atmosfera de Guerra Fria.

Para Kennan, a maneira certa de enfrentar as milenares pulsões russas era uma contenção paciente, de longo prazo, firme e vigilante.

Mas não foi ouvido e os novos países que se libertaram do abraço do urso russo acorreram de imediato a procurar a protecção da NATO, que os foi integrando, movimento  natural mas que provocou exactamente aquilo que Kennan profetizou.

Neste momento é a Ucrânia que, amputada já em largas partes do seu território, bate à porta da NATO em busca de protecção.

Do ponto de vista ucraniano, estar fora da NATO é uma ameaça existencial à sua sobrevivência como nação independente.

Do ponto de vista europeu, a Ucrânia na NATO é uma espécie de vala defensiva face aos russos.

Do ponto de vista russo, a Ucrânia na NATO é também uma ameaça existencial e por isso inaceitável.

E é neste degladiar de perspectivas, no qual todas as partes sentem ter razão e interesses legítimos, que o conflito se avoluma e as tensões estão prestes a estalar.

A Rússia concentrou forças no terreno, suficientes para uma panóplia de opções que podem incluir a conquista de todo o território a Leste do Rio Deniepre, incluindo Kiev e toda a costa ucraniana do Mar de Azov que passaria a ser um mar interior apenas russo.

A ameaça é credível. Putin afirmou que se as exigências russas não fossem satisfeitas, a resposta seria “dura, rápida e assimétrica”, embora prefira certamente obter o compromisso formal de que a Ucrânia jamais fará parte de NATO, ou a instalação de um governo “amigo” em Kiev.

De qualquer modo, uma guerra em larga escala, não está ao alcance da Rússia, hoje por hoje uma potência económica de segundo plano, com um PIB que é menos de metade do da Califórnia.

A Ucrânia pode opor alguma resistência, o que ajuda à dissuasão. Em 2014, os russos passearam a sua esmagadora superioridade, mas desde então o Exército ucraniano cresceu, equipou-se e melhorou o suficiente para que um eventual avanço russo não seja um passeio ao luar.

Os países ocidentais, ainda que bastante divididos quanto ao assunto e com alguns dramaticamente dependentes do gás russo (tem sido especialmente notada a “amizade” da Alemanha com a Rússia), têm, desde 2014, estado a ajudar a Ucrânia, com armas e equipamento defensivo moderno. Além disso ameaçam com sanções económicas devastadoras, na tentativa de dissuadir Putin de dar a ordem de invasão.

Não podem fazer outra coisa. Aceitar a invasão russa seria abrir as portas a futuras chantagens noutras partes do continente, já que um agressor só se detêm quando enfrenta um poder capaz de lhe causar problemas sérios.

Os EUA, potência inescapável em todos os cálculos, sinalizaram fraqueza assim que a actual Administração chegou ao poder, desde a aceitação do gasoduto Nord Stream II, até às declarações de Biden, aceitando implicitamente uma “pequena incursão”, passando obviamente pela desastrosa retirada afegã.

Nos últimos tempos, parece ter começado a inverter o rumo, recusando a chantagem diplomática russa e anunciando, não só sanções , mas também o deslocamento de unidades de combate  para os países da NATO situados nas imediações da eventual zona de conflito.

Se tudo isto irá dissuadir Putin, é algo que não se pode prever, face à importância existencial que a Rússia atribui ao problema.

Simultaneamente a China  observa atentamente os acontecimentos e poderá muito logicamente aproveitar o momento para, em coordenação com a Rússia, se apoderar de Taiwan, criando um facto consumado impossível de reverter.

Nas traseiras disto tudo, Biden está enredado nos desastres da sua política, com as taxas de aprovação em mínimos históricos e a crescente percepção de que não está cognitivamente capaz de dirigir o enorme barco.

Um semáforo verde para China e Rússia.


José do Carmo

Editor para a Defesa do Inconveniente

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  • Excelente análise geopolítica.

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