Pedro Nuno e Fernando

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*Imagens adaptadas de Transportes em Revista e de CP – Comboios de Portugal, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons

Pedro Nuno Santos (PNS) tem porte de líder e habilidade retórica. Não tem capacidade de governante.

A força de líder garantiu a PNS a criação de um grupo de apoio para a sucessão de António Costa quando este transitar de secretário-geral do PS para candidato a Presidente da República. A força bruta engrossou a sua hoste face ao estilo suave do perdedor Fernando Medina (FM).

O ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa tem um comportamento antissocial: introvertido, encafifado, medroso, foge do contacto com os outros e, mais ainda, da multidão. Essa conduta de Medina não provém da timidez, da falta de jeito ou da discrição, mas do pavor dos outros e repelência do contacto com o povo. Era sabido que o autarca da capital evitava comparecer em eventos públicos, mesmo que fossem da sua obrigação, e odiava conviver com a ralé. Num partido político essa condição antissocial é uma debilidade intransponível para a ambição de liderança.

Porém, Fernando acumula esse transtorno com o deslustre de perdedor, uma chaga que enoja militantes. A repulsa pelo povo até poderia ser suportada pelo povaréu do PS se o catraio da mamã Medina tivesse uma competência técnica, fosse ela jurídica, como a António Sousa Franco, que também não se sentia à vontade na campanha eleitoral, ou financeira, como a de Aníbal Cavaco Silva, que até denota traços de Asperger. Mas o licenciado em Economia que preferiu cursar o mais fácil mestrado em Sociologia Económica fugindo à maçada da econometria, FM não tem essa perícia. Além disso, não consta que tenha sido professor, provavelmente também por recear o choque de poder com uma turma e o contacto com os alunos.

O caso de PNS é quase o oposto. Tem prazer no contacto social e gosta de impor-se ao grupo. Vaidoso, rejubila com as palmas e as palmadas nas costas, adora conduzir – até carros de luxo (Porsche, Maseratti)… Enquanto o prudente Fernando é filho de políticos intelectuais comunistas (Edgar Correia e Helena Medina), o ousado Pedro, é filho de um industrial. O pai de PNS é um empresário que ostenta a sua condição abastada, uma opulência que passou ao filho, enquanto os pais de FM eram dirigentes comunistas, ainda que os costados da mãe sejam da nobreza (visconde de Castro). O rico plebeu Santos contrasta com o pobre visconde Medina. O dinheiro abre muitas portas dos corredores do poder e enche muitas bocas nos salões de restaurantes caros e bares finos, com muito maior alcance do que a música maviosa FM stereo.

Porém, a atitude desassombrada, enérgica e resoluta, de PNS não chega para o guindar ao nível de estadista. É inteligente e hábil na retórica parlamentar. Mas não tem as qualidades de minúcia, de ponderação, para ser um governante eficaz. Até a memória, um atributo indispensável a quem administra, parece embotada e suponho que o estilo de vida cobre o seu preço. A sua ligeireza de decisão leva a concluir que a lei e as regras de conduta política sejam apenas contingências formais despiciendas e desdenháveis.

Acredito que se tenha perdido em conspirações em vez de resolver os problemas das pastas setoriais que lhe foram confiadas, como a habitação e as infraestruturas, que deixou em lastimável estado. Julgo que seja um bom empresário com jeito para obter subsídios do Estado, como a sua empresa recebeu, e criar espírito de corpo na equipa. Como governante, falhou sucessivamente, com negligência das áreas que dirigia, e que deixou degradar ainda mais, e com a tomada impulsiva e atabalhoada de decisões incoerentes. Os jotas (políticos oriundos das juventudes partidárias) ganharam experiência de conquista e manutenção do poder, mas são incompetentes no exercício do governo.


António Balbino Caldeira
Diretor

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