Paralimpicamente correcto

Nestes dias têm decorrido as Paralimpíadas de Tóquio e é quase hora de fazer um balanço do que elas nos deixam.

Para quem gosta de números e se sente mentalmente desorientado sem eles, podemos dizer, tirando os dados da net, que nela participaram 4 537 atletas, de 160 países num total de 539 competições. Várias tipologias de deficiência estão representadas: amputações, paralesia cerebral, dificuldades visuais, lesões na coluna, deficiência intelectual e um grupo que inclui todos aqueles que não se enquadram nas categorias anteriores chamado “Os Outros”, do francês Les Autres.

Na vida de cada atleta há uma história para contar, no percurso de cada um encontramos antagonistas diferentes: a natureza, a doença, acidentes provocados pela sorte ou pelo simples acaso, quando a pessoa se encontra no lugar errado no momento errado. Só para citar algum exemplo, a atleta de esgrima Bebe Vio que sofreu a amputação de parte dos braços e pernas a seguir a uma meningite fulminante, ou o jogador canadiano de basquete Patrick Anderson a quem, em criança, amputaram as pernas abaixo do joelho por ter sido atropelado por um carro guiado por um bêbado…

Contudo, estes atletas não são super-heróis. É gente que mostra a diferença entre falar e fazer e que não pertence à massa resmungona dos sabe-tudo. Sim, porque como disse alguém, há gente que, quando sai de casa para fazer a revolução, não ultrapassa a porta do quintal.

Num mundo em que está na moda ser-se anti qualquer coisa, podemos dizer que estes atletas são a prova de que se pode ser e viver como anti-coitadinhos. Através do desporto, reconstroem e afirmam todos os dias a sua identidade abalada ou perdida, com grande dignidade e dedicação. Deixam-nos um exemplo de grande humanidade, pela coragem que têm em enfrentar e combater a própria batalha de vida, pelo empenho e determinação com que se treinam e competem para se oferecerem e nos oferecerem emoções.

Naturalmente ninguém pode fazer tudo sozinho. Estes jogos são fruto do trabalho de equipa e da utilização de várias competências e verbas. O avanço tecnológico permite a construção de aparelhos e estruturas sempre mais sofisticadas para serem utilizados pelos atletas, e o interesse de patrocinadores e governos torna viável a sua realização.

Os atletas paralímpicos são pessoas com a capacidade de acreditar no que fazem, mesmo em caso de vento contrário. São pessoas que transformaram uma inferioridade física ou mental numa força motriz da própria existência. Os conceitos de Inferioridade e superioridade não são absolutos e têm que ser revistos.

“Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Naquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma ideia abstracta,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também, Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão. Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de carácter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens. Sim, como sou rei
como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.

Fernando Pessoa

Maria J. Mendes

* A autora usa a norma ortográfica anterior.

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Latest comments

  • Pessoa, sempre a propósito. Perfeitamente adequado a um artigo que é um hino à dignidade de todos os humanos.

    • Muito obrigada pela leitura e comentario.

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