Pais e filhos

Hoje em dia a experiência já não é transmitida pelos mais velhos

Os jovens quando não sabem uma coisa, perguntam sempre menos ao pai e à mãe. Procuram as respostas na net e no grupo de coetâneos. Com a família não há conexão. A grande enciclopédia online, grátis e democrática, permite-lhes o acesso e a partilha, veloz e eficaz, de um universo incalculável de informações. Sem a fadiga do envolvimento relacional.

Pais e filhos não têm muita paciência para a narrativa do antigamente. Conhecem mal a História. Não vêem nela uma utilidade prática para a compreensão do presente. Receberam ambos, ao nascer, direitos e liberdades servidos numa bandeja, prêt-à-manger, sem que tivessem cozinhado. Poucos se interessam de cozinha, e muitos ignoram o nome dos cozinheiros. O que interessa é o prato pronto. É a vitória da fast food sobre a slow food.

Por outro lado, os avós, na maioria dos casos verdadeiros keegs, se têm experiência e saber, encontram dificuldades na sua transmissão aos mais novos. Não dominam a linguagem digital e falta-lhes a mentalidade, a paciência e a força, para compreender novos contextos. Contudo, como cada um é fruto do seu tempo, a História irá absolver, com certeza, aqueles que marcavam as páginas dos livros com um bilhete de eléctrico.

Agora, o download das apps e os tutorials disponíveis na rede, ensinam a fazer tudo, a todos, sem qualquer distinção. Têm a enorme vantagem de eliminar a ansiedade e o risco de críticas, no caso de insucesso. Mas não dão respostas adequadas ao percurso emocional dos jovens. Não ensinam a viver. Substituíram e suplantaram o Exemplo e o Convívio que, com uma força persuasiva superior ou igual à das palavras, sempre foram guias orientadoras do comportamento.

Hoje pertence-se a uma community: gabamo-nos de ter trezentos “amigos” na rede, e queixamo-nos que não há ninguém que saia connosco para trocar confidências e beber um café, sem telemóvel.

Com a crise provocada pela pandemia, muitas actividades tornaram-se possíveis só com a intermediação dum computador. Assistiu-se a uma “zoomatização” da vida laboral e social. Interage-se com os rostos enjaulados nos «alvéolos» da plataforma, sem que a mímica facial e a linguagem do corpo possam desempenhar o papel importante que lhes cabe na comunicação.

Neste contexto paradoxal, os jovens são muitas vezes vistos, pelos pais e pela sociedade, como um problema e não como um recurso. O que pensam e o que têm para dizer, sobre o presente e o futuro, que lhes pertence por direito, não é ouvido e não interessa, realmente, a quem tem poder decisional. Muitos dormem até às tantas. Arrastam o tédio pela casa, entre as almofadas com migalhas do sofá e o frigorífico.

Tantos sentem-se perdidos, sem uma identidade definida. Subentra neles uma atitude niilista, em que a vida se apresenta sem finalidade, não dá resposta aos porquês, e onde os valores dos pais se esvaziam de sentido, sem que outros com mais significado tomem o seu lugar. Sempre com maior frequência, anestetizam a consciência e o vazio da solidão com drogas e bebidas.

Os pais, sobrecarregados com mil preocupações, divididos entre a família e o trabalho real ou suspirado, desesperam-se. Querem compreender os filhos e controlar a situação. Mas não sabem como. Para entender, primeiro é preciso ouvir e, para ouvir, é preciso sintonizar-se com eles. Às vezes, olham-nos com o mesmo “à vontade” dum estrangeiro que não sabe duas palavras da língua local.

Por norma, a mãe exprime-se com os filhos num modo muito físico, prático e imperativo:

– “Lava os dentes! Veste um casaco que está frio! Come tudo o que está no prato! Se não estudas, não sais!”

Fixam-nos com um olhar esquadrinhador. Põem o olho à fechadura do seu silêncio, espiando cada pormenor do seu comportamento, na esperança de perceber o pensamento que está por detrás da acção. Num gesto, mesmo fugaz, procuram intuir a intenção.

“Em todas as almas, como em todas as casas, além da fachada, há um interior escondido.”

Raul Brandão

O pai, quando presente, não faz melhor. Ou não sabe o que há-de dizer, ou sabe e não encontra as palavras justas. Receia ser ridículo, escondendo o que ignora com subterfúgios, frases de circunstância ou mudando de assunto:

– “Isso são tudo modernices! Devias era estudar em vez de estar sempre com o telemóvel na mão!”

Ao filho pergunta:

– “Então, pá, quando é que sais da casa de banho? Quanto é que tiveste no teste?”

Mas isto não é falar. São comunicações de serviço.

Com a filha, comporta-se muitas vezes com a “objectividade” dum pai ciumento.

São tempos estranhos, em que os idosos trabalham e os jovens dormem. Uma época onde o silêncio incomoda e foi derrubado pela verborreia, em que a falar é que a gente já não se entende.


Maria J. Mendes

* A autora usa a norma ortográfica anterior.

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Latest comments

  • Excelente reflexão sobre um problema muito sério e frequentemente ignorado.

  • Muito obrigada. Assunto sério, que merecia fazer correr muita tinta!

  • É de facto uma observação muito oportuna a que a autora aqui nos apresenta!
    Eu não tendo experiência directa no tema, atrevo-me a ter uma visão ainda mais pessimista e de âmbito mais alargado!
    O aparente domínio da tecnologia por parte da nova geração é isso mesmo : aparente!
    Não fazem a mínima ideia da complexidade dos sistemas que usam, nem se interessam por aproveitar essa facilidade de acesso para a transformar em oportunidades de trabalho!
    São meros utilizadores oportunistas.
    A subsistência está-lhes garantida pelos pais, hiper-condicionados por uma legislação super-protecionista da figura da criança / jovem!
    E de quem é a culpa ? Em meu entender, do lirismo das gerações pós 70, ainda na ressaca de Woodstock, resolveram acreditar que tinham conseguido quebrar a tendência que a história tem para se repetir!
    Pessoalmente até acredito que em certos temas seja possível se tomadas as medidas adequadas, mas não é isso que está a ser feito!
    Hoje temos acesso a mensagens escritas com milhares de anos, gravadas na pedra!
    Com o uso do papel, apesar de mais frágil, ainda nos chegaram milhões de páginas que nos ajudaram a ter uma percepção do passado.
    Na era digital há três eixos fundamentais que mudam :
    – A informação já não é apenas produzida por uma elite. Todos produzem informação.
    – Devido à quantidade produzida, é necessáriamente volátil, pois não há suporte para tantos bits, e ainda que houvesse, era mais difícil encontrá-la! É portanto necessário privilegiar a mais recente! Mesmo um CD/DVD deixa de ser fiável após 10 anos!
    – A velocidade de evolução dos sistemas informáticos obriga a quebras de compatibilidade, e muita da informação “sobrevivente” fica inacessível! Migrar dados é uma tarefa pesada que implica selecção / eliminação!
    Dada a origem elitista da informação do passado, é necessária uma análise crítica do contexto em que foi produzida para se poder valorizar.
    Na era digital, o problema não melhorou! Dada a diversidade de fontes e a quantidade produzida, a análise torna-se humanamente impossível, e por isso recorre-se a algoritmos de inteligência artificial controlados por elites!
    Concluindo, o conhecimento das gerações futuras sobre o Sec. XX poderá ser menor que o nosso sobre a era Romana!
    Dir-se-ia um ALZHEIMER DIGITAL.

    • Obrigada pelo seu comentário.
      Certamente, o armazenamento e arquivo de dados/informação, assim como garantir o seu futuro acesso, é um problema actual e encerra muitas incógnitas.
      Não sei se hoje já há resposta para este novo desafio.

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