Otelo morto e a esquerda viúva

* imagem via Arquivos RTP

Quando de Gaulle faleceu, em 9 de novembro de 1970, o presidente Pompidou anunciou aos franceses:

“Le général de Gaulle est mort. La France est veuve.”

Otelo Saraiva de Carvalho morreu. E a esquerda ficou viúva. O comandante e autor do plano operacional da revolução do 25 de abril de 1974 era para a esquerda como aquele pai que deixa a casa de família com a desculpa de ir comprar tabaco e se perde na aventura e que quando morre se diz que era um sonhador.

Ator frustrado, militar de recurso, salazarista convicto, enfileirado na Mocidade e instrutor da Legião, com duas comissões no mato durante a guerra do Ultramar, transita mais tarde para a retaguarda como chefe da Secção de Radiodifusão e Imprensa do Comando-Chefe, em Bissau (onde veio a ser substituído por Ramalho Eanes).

Entusiasmado militante no Movimento dos Capitães, e grande arregimentador de oficiais apoiantes, era então professor-adjunto de Tática na Academia Militar, a quem foi, por isso, confiada a elaboração do plano de operações do 25 de Abril e, depois, a chefia do posto de comando coletivo da revolução. Nessa dupla função, foi brilhante: a revolução saíu vitoriosa, Marcelo rendeu-se sem luta a Spínola a quem os capitães autorizaram receber o poder, e foi poupado o derramamento de sangue.

Foi operada pelos jovens militares a desejada mudança A de regime. A liberdade política e social veio após a fase de ditadura revolucionária, o Ultramar foi-se – numa descolonização de entrega aos comunistas que fez cerca de dois milhões de mortos, em Angola, em Moçambique e em Timor, além dos ajustes de contas da Guiné -, a democracia foi prometida (embora só tenha sido instaurada em 25-11-1975) e o desenvolvimento económico soçobrou no socialismo, apesar dos imensos fundos da Europa enterrados no buraco da corrupção. Ao comunismo que depressa se instalou, e desbaratou a economia, sucedeu o socialismo, com hiatos liberais logo desfeitos. Sobrou-nos a democracia formal e a liberdade mitigada pelo poder. Os cravos murcharam.

Otelo foi um personagem contraditório, ao mesmo tempo dramático e patético.

Graduado em general, comandante-adjunto do Copcon (sob Costa Gomes) durante o PREC, em que assinava mandados de captura em branco para adiantar o serviço de prisão política de direitistas – confira-se no “Relatório da Comissão de Averiguação de violências sobre presos sujeitos às autoridades militares (julho 1976)”. Ignorante da política, com uma vaga admiração pela social-democracia sueca, mas logo atraído pela idolatria comunista basista à maneira cubana. Fascinado por Fidel, visitou-o quando era o todo-poderoso comandante militar do país; no regresso, ameaçou pôr os contrarrevolucionários no Campo Pequeno.

Chefe do golpe militar do 25 de Novembro de 1975, com a participação do MES e do PC (que borregou após a contagem desfavorável de espingardas e encontro de Melo Antunes e Cunhal), abortou-o por medo e foi para casa dormir, deixando os homens que empenhara à sua sorte.

Rival de Cunhal que não lhe rendeu o protagonismo para a liderança da revolução e lhe lançou Vasco Gonçalves na dimensão militar e Otávio Pato na dimensão civil para reduzir a base de apoio, derivou para o terrorismo urbano, na senda dos seus aliados do PRP-BR, criando e liderando as Forças Populares 25 de Abril (FO-25) de 1980 e 1991, com uma fatura de terror de 13 mortos, dezenas de feridos, em múltiplos atentados, bombas, gambizzazione, assaltos a bancos e carrinhas de transporte de valores – a mais célebre ao BFB, que rendeu 106 mil contos, depositados na Suíça, numa conta titulada por Otelo).

Preso em 19-6-1984, na Operação Orion da Polícia Judiciária, dirigida por José Marques Vidal, cumpriu pena de prisão com três meses de cárcere (e depois no domicílio) e acabou amnistiado por Mário Soares em 1996, com os demais, ficando de fora os crimes de sangue provados, mais tarde prescritos devido à omissão da procuradora MRPP Maria José Morgado. As vítimas foram desprezadas e abandonadas pelo Estado, como se estivessem no lado errado da História.

Teve ainda uma empresa de import-export, Roteliz, com o seu companheiro João Mouta Liz (quadro do Banco de Portugal que terá avisado da transferência de dinheiro do BFB) e o seu advogado Romeu Francês.

Paz à sua alma! O arrependimento devia agora ser feito por quem o apoiou e mitifica. Mas não é. Sendo factualmente o criador e chefe das FP-25, cuja atividade registava (!) em cadernos manuscritos, beneficia da imunidade mediática que refere apenas uma ligação ideológica vaga a este grupo de guerrilha urbana comunista. De vilão a santo. Como o faz o Presidente Marcelo, sempre de bem com Deus… e o Diabo.


António Balbino Caldeira

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Latest comments

  • Otelo foi uma marioneta nas mãos da urss através da sua agência local, o pcp.
    A urss estava-se nas tintas para o regime de Oliveira Salazar!
    O que a urss queria era o mpla a dirigir Angola, e aquela figureta e seus ignorantes apaniguados serviam perfeitamente para conseguir tal intento, tal como aconteceu, para o que a queda do regime era essencial.
    Conhecendo-o, foi muito fácil arregimentar o sujeito, insuflar-lhe o ego e colocá-lo a executar o que era necessário.
    Após o 11 de Novembro, com Angola no bolso, o pcp descartou-o e ei-lo lançado nos braços da esquerda moísta/trotskista terrorista.
    De artista de pretensão a militar de recurso, de instrutor da Legião Portuguesa a pretenso che guevara cá da freguesia, eis uma mente sem ponderação e de completa ligeireza em política, óptimo para fazer a marioneta descartável.
    Depois da célebre entrevista em que diz o bando terrorista fp25 não era terrorista pois MATAVA selectivamente, vê-se qual era a idoneidade cívica e política da execrável figureta!
    O lançamento do golpe 25A urgia até porque, em Londres aconteciam conversações informais com o PAIGC para futuras negociações para a Guiné, toda a CS esconde isto há muito tempo, que seria uma grande complicação para a urss e para a ‘capitonagem’ que, se não se apressasse, iam todos malhar à cadeia.
    Por último, passividade de Caetano ou seu medo de sangue nas ruas corou de êxito a ‘heroicidade’ destes ignorantes executores do plano ‘pêcêpista’, de real dificuldade militar muito discutível.
    O resto, a democracia e outras balelas, era apenas folclore para enfeitar a encomenda.
    A democracia para comunistas é uma espécie de oximoro.

  • Em Lourenco Marques e no Liceu Salazar em que Otelo estudou, era conhecido por “tipo com um parafuso a menos”.

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