Os liberais dos Olivais

“Porém, tudo isto é o princípio das dores.”
Mateus, 26: 8.

A questão dos abusos sexuais de menores por padres na Diocese de Lisboa, e noutras dioceses portuguesas, não é nova. Mas vale dizer que a norma foi a esforçada educação e estrénua defesa das crianças, especialmente das desvalidas. A saudosa heroína que foi Catalina Pestana lembrava o caso de um padre capelão desta instituição, décadas antes, que procurava proteger as crianças dos abusos e alertava as autoridades para o problema.

Segundo a interpretação do Papa Emérito Bento XVI no documento “A Igreja e os abusos sexuais”, de abril de 2019, o problema dos abusos sexuais de menores foi exacerbado com a “revolução de 1968” e a “liberdade sexual total”. Recorde-se o caso da pedofilia de Daniel Cohn-Bendit, um dos líderes dessa revolução dos costumes.

Porém, a pedofilia é uma tara genética e de reprodução de abuso, e não uma opção sexual. A revolução dos costumes não criou pedófilos, mas permitiu-lhes maior liberdade. No caso dos pedófilos homossexuais, o que a lei classificava como “atentado aos costumes” passou a ser mais desculpado, por alguns, erradamente (porque se trata de um desvio de idade), como próprio da condição homossexual. O gosto à Botto pelos “fedelhos” foi libertado.

A Igreja portuguesa não foi imune a esta revolução sexual. Não chegou ao nível dos “pink seminaries” norte-americanos, mas o seminário tornou-se para alguns um campo de caça e uma alcova de luxúria, notória e sem vergonha. E, se em épocas anteriores, as múltiplas vocações eram seriadas por critérios morais severos, os escassos candidatos ao sacerdócio passaram a beneficiar da permissividade dos costumes modernos. Casos houve em que foram sendo promovidos os seminaristas com comportamentos desviantes por clérigos homossexuais impenitentes. Em muitos casos não era cooptação, mas chantagem implícita: “usaste-me, agora votas a minha ordenação”.

Os problemas de abusos homossexuais de menores por padres nas últimas décadas foram avolumados, segundo uma fonte bem informada referiu ao Inconveniente (IИ), pela proteção e promoção de seminaristas de prática homossexual interna despudorada e que vieram a ser ordenados. Repete-se, uma vez mais, que ser homossexual não é ser pedófilo ou pederasta. Há estudos que apontam que a pedofilia é mais frequente em homossexuais do que em heterossexuais, porém, em termos absolutos, existem mais pedófilos heterossexuais do que homossexuais, e é natural que também isso aconteça na Igreja, muito embora a atração do seminário e de grupos de rapazes possa ser determinante, ainda mais no passado, na adesão ao sacerdócio, de que aquilo que a Igreja obriga aos clérigos é a “continência perfeita e perpétua” (Cânone 277.º, n.º 1 do Código de Direito Canónico).

Na diocese de Lisboa, justifica atenção o vice-reitorado do cónego Carlos Pessoa Paes (ou Pais) no Seminário dos Olivais. O padre Carlos Paes já pertencia à equipa de formação do seminário, em 1972, subordinada ao reitor padre José Policarpo, que fora nomeado em 3-10-1970 ainda pelo Patriarca D. Manuel Gonçalves Cerejeira. Essa equipa de formação era constituída também pelo padre Manuel Clemente (atual Patriarca e que era prefeito de estudos) e o padre Armindo Garcia. Mas é, em 15-7-1978, que é o padre Carlos Paes é nomeado vice-reitor, permanecendo o padre José Policarpo como reitor, cargo que ocupou até ser nomeado arcebispo-coadjutor.

O vice-reitor padre Carlos Paes organizava uma espécie de campos de férias para seminaristas, numa casa chamada “Arca de Noé”, na Serra da Estrela, perto da barragem do Rossim. Aí fastidiava os seminaristas com uma cantilena de duplo sentido:

“Deixa-te aqui estar
Para eu t’aqui ter
Deixa-te aqui ter
Para eu t’aqui ‘tar”.

Enquanto isso no seminário menor de Almada preponderava o padre Joaquim da Conceição Duarte, diretor espiritual, um duro que filtrava vocações, afastava quem manifestasse uma conduta moral impenitente incompatível com o futuro sacerdócio. Segundo fonte consultada por este jornal, o padre Joaquim Duarte não se relacionava com o padre Carlos Paes.

O seminário dos Olivais já atravessara anos duros de dissidências internas e contestação política na década de 1960. Em 1-10-1966, fora nomeado reitor o cónego Abílio Tavares Cardoso e como vice-reitor o padre José Maria Henriques.

O Patriarca Cerejeira entreabria as janelas da diocese ao novo tempo pós-conciliar. O Concílio Vaticano II decorrera de outubro de 1962 ao final de 1965. O padre Abílio Tavares Cardoso viria a ser alvo da DGS (Direção-Geral de Segurança, que sucedera à PIDE), em maio de 1970, juntamente com o seu amigo, o ex-padre José da Felicidade Alves, o arquiteto Pedro Teotónio Pereira e o ex-seminarista Manuel Maria Azevedo Mendes Mourão, devido à atividade no GEDOC (Grupo de Estudos e Intercâmbio de Documentos, Informações e Experiências), de propaganda socialista e oposição à guerra do Ultramar. Felicidade Alves, que tinha sido suspenso ad divinis em 1968, esteve preso durante dez dias no âmbito deste processo. Em 6-11-1973, foram absolvidos no Tribunal Plenário.

Devido à contestação, que envolveu também alunos e professores – com relevo para discordâncias teológica-moral (em que se destacava a questão do “sexo“), pastoral (a relação da Igreja com o regime) e política (a “revolução”), e na qual avultava o então padre Luís Moita (figura tutelar do sampaísmo, recentemente falecida), o cardeal Cerejeira destituiu o reitor Abílio Tavares Cardoso do cargo em 1968 e o seminário chegou a estar encerrado. Em outubro de 1968, foi nomeado o cónego José Mendes Serrazina como vice-reitor. O cónego Abílio Tavares Cardoso veio a abandonar o sacerdócio.

Em 13-8-1989, o cónego Manuel José Macário do Nascimento Clemente é nomeado Vice-Reitor do Seminário, substituindo o cónego Carlos Pessoa Paes. O padre Francisco Tito foi nomeado vice-reitor. Carlos Paes foi rapidamente exfiltrado para a paróquia de São João de Deus, em Lisboa. Na calha para bispo, atendendo à sua carreira e relações no Patriarcado – era confidente do Patriarca D. António Ribeiro – , o cónego Carlos Paes, mestre de cerimónias de eventos na diocese nos quais se destacava pela alva sobrepeliz rendada, fora colocado numa prateleira dourada.

O então padre Manuel Clemente estava no seminário dos Olivais desde 1980. Depois de ordenado recebera o ofício de pároco de algumas paróquias da vigararia de Torres Vedras, mas ocupara brevemente essa incumbência, pois sofrera uma depressão, doença recorrente que o tem afetado.

Nesses anos, o Seminário dos Olivais recebera o seminarista Ronilton Martins, enviado do Brasil – segundo nos revelou uma fonte conhecedora deste caso. Depressa a sua homossexualidade praticante gerou escândalo interno e, se acaso fosse preciso porque os sinais eram evidentes, o assunto foi diretamente denunciado ao vice-reitor Carlos Paes. Conforme foi relatado ao IИ, esta denúncia não teve nenhum efeito: Ronilton continuou o seu comportamento promíscuo; quem denunciou que tinha visto, Ronilton em atos sexuais com outro seminarista, passou a ser perseguido. Alegadamente, Ronilton era também prostituto de luxo. E, quando fechava o seminário dos Olivais, no verão, Ronilton ia para casa do padre José Faria (ver artigo anterior) em São Martinho do Porto.

Contudo, tendo o assunto chegado ao reitor padre José Policarpo, este expulsou Ronilton do seminário e aquele voltou ao Brasil. No ano letivo seguinte, Ronilton volta ao seminário e instala-se aí novamente, com consentimento do padre Carlos Paes. Porém, o reitor José Policarpo comunica-lhe que a sua ordem para sair do seminário era para cumprir. Então, o padre Carlos Paes terá conseguido para Ronilton um quarto na Casa de Retiros do Bom Pastor, na Buraca (Lisboa).

Além da sua impenitência homossexual, Ronilton pedia dinheiro a seminaristas e padres, deixando, segundo consta, um calote de cerca de dois mil contos. Aborrecido por não poder continuar no seminário, Ronilton terá, alegadamente, enviado uma carta ao Núncio Apostólico com denúncias sobre o padre Carlos Paes e alguns seminaristas. O Núncio Apostólico terá indagado, mas os denunciados negaram. Então, Ronilton ameaça que quando os seus colegas forem ordenados na igreja do Convento dos Jerónimos, em Lisboa, irá denunciar, na própria missa, alguns por homossexualismo. Essa ameaça gerou pânico no seminário, mas conseguiram demovê-lo. Ronilton voltou ao Brasil. Mais tarde, sua mãe terá informado o seminário que o filho morrera no Brasil com sida.

O que é facto é que alguns dos seminaristas dos Olivais que tinham evidenciado comportamentos homossexuais impenitentes incompatíveis com a vida sacerdotal, durante o vice-reitorado do cónego Carlos Pais, acabaram por ser ordenados, até mais rapidamente do que alguns com mais mérito e comportamento moral irrepreensível.

Os posteriores abusos sexuais de menores de alguns padres dessa geração não decorreram estritamente da orientação homossexual, mas da tara que não reprimiam de assediar jovens, adolescentes e, nalguns casos mais graves, também crianças.

Note-se que quando descobertas as suas atividades criminosas de assédio e abuso de menores, estes padres tinham, e têm, um capital de chantagem sobre prelados homossexuais e inclusive sobre bispos dignos que não queriam que as suas dioceses sofressem o escândalo que os entalados prometiam se fossem expostos ou até reduzidos ao estado laical. A homossexualidade impenitente teve, e tem, esse custo na hierarquia da Igreja: a chantagem exercida pelos pedófilos sobre prelados homossexuais, ou coniventes, permitia a continuação das atividades criminosas nos ofícios onde exerciam ou noutros se o escândalo rebentasse.

A heterodoxia dos costumes não era nova no próprio Patriarcado de Lisboa. O cardeal Cerejeira chamava “arcebispinha” ao arcebispo de Mitilene, D. António de Castro Xavier Monteiro. E o mesmo Patriarca conservador coexistia com a modernidade do padre, e depois bispo, D. António dos Reis Rodrigues, ligado aos militares como capelão da Academia Militar e pro-vigário castrense, e à cúria do Patriarcado.

No próprio Patriarcado de Lisboa continuou a desculpa dos abusos sexuais e a perseguição de quem os denunciava. O IИ sabe que no tribunal patriarcal de Lisboa, presidido pelo vigário judicial cónego Ricardo Ferreira, foi acolhida uma queixa do padre Nuno Aurélio relativa às denúncias de outro padre sobre o seu comportamento, embora não se conheça se as notícias na imprensa determinaram a abertura de algum procedimento nesse tribunal contra este padre exfiltrado para França. A bofetada do poder (SLAPP – Strategic Lawsuit Against Public Participation) sacode quem denuncia e protege os alvos das denúncias.

A revolução do 25 de abril de 1974 soltou ainda mais os costumes e o problema ampliou-se, nomeadamente na corrente progressista. Já em 1987, o padre Alberto Neto, capelão de Nossa Senhora da Bonança (mais conhecida por Capela do Rato), foi vítima de um homicídio com a marca ritual do prostituto homossexual envergonhado: o cadáver foi encontrado em Setúbal com às nádegas à mostra.

A situação confrangedora não era exclusiva da capital.

No Porto, a atuação do padre Carlos Azevedo no Seminário Maior, onde foi diretor espiritual de 1981 a 1993, gerou celeuma. Surgiu na imprensa, em 2011, de que, após a sua saída para Lisboa, estava proibido de entrar no Seminário Maior do Porto. Quando já era bispo auxiliar de Lisboa, motivou perplexidade a informação da sua participação na Maçonaria regular (Grande Loja Legal de Portugal) – note-se que a Declaração sobre a Maçonaria, de 26-11-1983, em vigor, da Congregação para a Doutrina da Fé, firmada pelo então prefeito cardeal Joseph Ratzinger, reafirmando posições anteriores, estipula que os princípios da Maçonaria foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas” e que “os fiéis que pertencem às associações maçónicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão”. Referiu-se, então, a sua condição homossexual, amizades coloridas e até a frequência de locais notórios de engate homossexual. Foi, então, objeto de denúncia de assédio homossexual por um padre da diocese nortenha e o escândalo motivou que fosse preterido na sucessão do Patriarca D. José Policarpo e exfiltrado para o Vaticano, indo ocupar o cargo de delegado do Conselho Pontifício para a Cultura. Não lhe foi assacada conduta pedófila.

Na Madeira, consta ainda estar por publicar a verdadeira história da morte funesta do menor Luís Miguel, em 1992. O excêntrico secretário brasileiro do bispo D. Teodoro de Faria, o padre crúzio Frederico Cunha foi acusado de homicídio e condenado. Mas há quem na ilha proteste que a morte do rapaz ocorreu a saltar o muro do paço, tendo o corpo sido despejado de uma ravina para ocultar as circunstâncias do acidente, numa época em que bradava aos céus o escândalo dos retiros do Opus Angelorum na casa de campo da diocese, conforme relatado na época pelo jornal Expresso.

O problema mantém-se, mesmo se agora está subsumido nas promessas de mudança de atitude. Mas, sem o afastamento de prelados de prática homossexual impenitente não é possível limpar a Igreja do pior dos pecados: o abuso de menores.


António Balbino Caldeira


Pós-Texto: Após está série de artigos, o IИ tratará do Relatório Final da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa, de 12-2-2023, Dar Voz ao Silêncio.

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Latest comments

  • Os Jesuítas são os maiores promotores do homossexualismo/pedofilia na Igreja Católica Romana.

  • Isto só reforça a minha opinião que o celibato não funciona e apenas promove comportamentos desviantes, que somados à cultura de silêncio amplificam os abusos.

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