Os lamentáveis “especialistas” da guerra

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Nos últimos tempos, sucedem-se nas televisões criaturas inacreditáveis que, torcendo a lógica, a racionalidade e o mais elementar bom senso, se prestam a fazer figuras constrangedoras, num incompreensível afã de branquear e relativizar a guerra de conquista que a Rússia desencadeou sobre a Ucrânia.

O “argumento” habitual dos corifeus do fascismo russo, é uma variação da falácia que culpabiliza a mulher pela violação de que é vítima: o violador violou porque ela estava a “provocar”, ou seja, a culpa é da vítima porque não tinha nada que provocar o agressor.

Elaborando mais, segundo estes génios do absurdo, que incluem os habituais alucinados do PCP e alguns generais portugueses na reforma, escolhidos os dedo nas estantes do ridículo, a culpa é da NATO e do Ocidente.

Assim mesmo, descaradamente, sem qualquer pudor, mostrando a verdadeira face e desvelando a intrínseca ruína intelectual e moral.

(Relativamente aos generais, sublinhe-se que não são todos. Homens como Garcia Leandro, Vieira Borges e mais dois ou três, comentam com profissionalismo, distanciamento e saber.)

A resposta a estes espantosos “especialistas” é simples, directa e evidente de per si:

A NATO é uma aliança defensiva. Assim mesmo. Defensiva! Sem funfuns nem gaitinhas. 

Não se “expandiu”, não forçou, não conquistou, não ocupou os países que a constituem. Foram estes que se quiseram juntar, pelas exactas razões pelas quais a Ucrânia também o deseja: por fundado temor aos russos.

Estónia, Letónia Lituânia, Polónia, Hungria, etc, estão na NATO por opção própria e soberana e não como partes de uma conspiração galáctica “para cercar a Rússia”. Estão na NATO e é apenas por isso que não são invadidos. A Ucrânia não está e por isso foi atacada e está a ser destruída.

A NATO não “cerca” a Rússia, como alegam as criaturinhas, repetindo, obedientes e amestradas, a cornucópia de mentiras da propaganda do Kremlin. Dos 16 países que fazem fronteira com a Rússia, só 5 são da NATO e essa fronteira é apenas 5% do perímetro fronteiriço da Rússia. Dizer que isso é um “cerco”, é como dizer que Espanha está cercada por Andorra, ou que o Canadá está cercado pelo Alasca.

Não é a NATO a causa desta guerra, mas sim cosmovisão megalómana e paranoica do Sr Putin, ela mesma assente nas ideias etnonacionalistas de um obscuro filósofo fascista chamado Ivan Ilyin. Não sou eu que o digo, é ele mesmo que o revela no artigo “On the Historical Unity of Russians and Ukrainians”, escrito no ano passado.

Está lá tudo e esse tudo nada tem a ver com uma hipotética adesão à NATO que, aliás, só merece, nesse artigo, um pequeno parágrafo, como pretexto útil para ser usado pelos camaradas do PCP e  pelos idiotas úteis acima referidos.

Nesse artigo, o Sr Putin afirma, sem se rir, que o Ocidente quer governar a Rússia, quando, na verdade é a Rússia quem quer governar os países que estão à volta dela, que tenta interferir nas eleições de países democráticos, que conduz sucessivos ciberataques, que executa pessoas fora das suas fronteiras, usando até agentes químicos e radioactivos.

Alega também o Sr Putin que a Ucrânia faz parte da “Grande Rússia” e que qualquer coisa que não seja a “Grande Rússia”, é uma construção amputada e artificial, e só os “russófobos” se opõem a esta grandiosa e epifânica verdade.

Ora, a verdade é que Ucrânia não só não é parte de Rússia, como basta ler a História para verificar que estes dois povos estiveram mais vezes separados que juntos. Nem sequer são o mesmo povo, os míticos descendentes do “Antigo Rus”, como diz o Sr Putin. É como dizer, mutatis mutandis, que os portugueses e os espanhóis são o mesmo povo, os míticos descendentes do “Antigo Lusitano”.

A História não começa nem acaba nos períodos que convêm à narrativa, ignorando todos os antes e depois. As coisas mudam, os povos, comunidades e países mudam, as nações nascem e morrem, uma dada circunstância histórica não marca o status quo para a eternidade, ou então, por exemplo nós, portugueses, teríamos de ser, para todo o sempre, cidadãos leoneses, ou espanhóis, ou franceses, ou mouros, ou o que a cada um convier segundo a sua narrativa preferida.

Indo à própria Rússia e seguindo a narrativa do Sr Putin, por que razão, Kalininegrado (Koenigsberg), está sob o domínio do actual czar? Não foi fundada pelos cavaleiros teutónicos? Não fez parte do Império Alemão? Da Polónia? Da Prússia?

Deve a Alemanha recuperá-la pelas armas?

E onde termina a mítica “Grande Rússia” que Putin quer ressuscitar? Em Berlim? No Cabo da Roca? Nos sonhos de grandeza do Czar?

Mas há outras perguntas, mais caseiras, que bailam na nossa frente, perante o triste espectáculo dos “porta-vozes” oficiosos do Kremlin nas nossas televisões:

Quem são estes “especialistas” que ali aparecem a debitar a cornucópia de falsidades e quixotismos do Sr Putin? Acreditam no que dizem? Ignoram a realidade?

Se se trata de ignorância, é grave, porque evidencia que pessoas formadas em Universidades Civis e Militares, atingem postos de relevo e responsabilidade apesar de não saberem o mínimo do que era suposto saberem.

Se se trata de cinismo e/ou fervor ideológico, é ainda pior, porque é gente com agenda, sem qualquer preocupação de equilíbrio, que aproveita a boleia dos megafones mediáticos para verter deliberadamente o seu fel, sem contraditório e vestindo abusivamente a capa do prestígio das Forças Armadas.

Confesso que sinto vergonha alheia quando ouço alguns a asneirar ao vivo e a cores, até porque os conheço pessoalmente.

Livrámo-nos dos Vascos Lourenços e quejandos como figurinhas lamentáveis e omnipresentes, mas está aí uma nova fornada, na mesma linha do desprestígio.

Que vergonha!


José do Carmo

*O autor escreve segundo a anterior norma ortográfica.

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Latest comments

  • Deste text só gostei de uma palavra!

    Cumprimentos do Stepan Bandera

  • Expansão da NATO
    https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c3/Map_of_NATO_chronological.gif
    .
    https://www.nato.int/nato-on-the-map/#lat=48.37719766229484&lon=-288.096054762994&zoom=-1&layer-1
    .
    https://www.dw.com/en/nato-why-russia-has-a-problem-with-its-eastward-expansion/a-60891681
    .
    É fácil constatar que tem expandido na direcção da Rússia.
    .

    A) Aceitariam os Estados Unidos um pacto entre a Rússia e o México?
    .
    B) Qual a razão?
    .
    A estas duas perguntas, ainda os Estados Unidos não responderam e quando o assunto passa lá por perto, fogem mais depressa que gato sobre brasas.
    .
    Haverá alguma razão (*) para que os Estados Unidos e aliados, possam invadir países a milhares de quilómetros de distância afirmando que é de interesse vital para eles e os outros países não possam invadir um país vizinho afirmado também que é de interesse vital para eles? Neste caso a Rússia.
    .
    Se se invade um país afirmando que é de interesse vital, porque razão se o destrói completamente? Será o interesse vital próprio, a destruição completa desse país?
    .
    (*) Sem ser o despotismo assente no uso bruto da força, razão pela qual, são quem mais investe em potencial destruidor. Se somarmos mais os aliados e pelas acções conjuntas demonstradas, avizinham-se tempos nebulosos.
    (*) Sem ser por controle da comunicação social pela oligarquia, para que esse interesse vital ganhe razão.
    .
    Ainda não consegui ler o artigo de putin. Ando à procura da versão original, é que a wicked não é de confiança…
    Fundamental para tentar aproximar da verdade, é ouvir o outro lado, tal como se faz nos tribunais, ouvir os dois lados, mas estou com muita dificuldade., penso não ser o único.

  • Todo o texto é objectivo e verdadeiro, mas honestamente há que reconhecer que, quer na Jugoslávia, quer na Libia a NATO não foi apenas defensiva, o que nesta guerra não inverte, nem por sombras, a posição de agressor e agredido até porque a Russia teve muito mais intervenções não defensivas, fora do seu território, do que a NATO.

  • Expansão da NATO
    https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c3/Map_of_NATO_chronological.gif
    https://www.nato.int/nato-on-the-map/#lat=48.37719766229484&lon=-288.096054762994&zoom=-1&layer-1
    https://www.dw.com/en/nato-why-russia-has-a-problem-with-its-eastward-expansion/a-60891681
    É fácil constatar que tem expandido na direcção da Rússia.
    A) Aceitariam os Estados Unidos um pacto entre a Rússia e o México?
    B) Qual a razão?
    A estas duas perguntas, ainda os Estados Unidos não responderam e quando o assunto passa lá por perto, fogem mais depressa que gato sobre brasas.
    Haverá alguma razão (*) para que os Estados Unidos e aliados, possam invadir países a milhares de quilómetros de distância afirmando que é de interesse vital para eles e os outros países não possam invadir um país vizinho afirmado também que é de interesse vital para eles? Neste caso a Rússia.
    Se se invade um país afirmando que é de interesse vital, porque razão se o destrói completamente? Será o interesse vital próprio, a destruição completa desse país?
    (*) Sem ser o despotismo assente no uso bruto da força, razão pela qual, são quem mais investe em potencial destruidor. Se somarmos mais os aliados e pelas acções conjuntas demonstradas, avizinham-se tempos nebulosos.
    (*) Sem ser por controle da comunicação social pela oligarquia, para que esse interesse vital ganhe razão.
    Ainda não consegui ler o artigo de putin. Ando à procura da versão original, é que a wicked não é de confiança.
    Fundamental para tentar aproximar da verdade, é ouvir o outro lado, tal como se faz nos tribunais, ouvir os dois lados, mas estou com muita dificuldade.

    • Peço desculpa pela duplicação 🙁

  • Sinceramente, não sou comunista cassete, nem sou russófilo fanático, nem sou americanófilo chanfrado, mas esse comentadeiro (Zeca Carmo) parece que é tonto (e americanizado também).
    Estive na NATO, propriamente num Estado-Maior conjunto e combinado que agia segundo os desejos estratégicos da sua maior potência integrante.
    E é MENTIRA que a NATO seja uma organização defensiva.
    Desde o 11 de setembro, os EUA com a ânsia duma revanche, mudaram o conceito estratégico da Aliança, de conduzirem operações defensivas para “operações expedicionárias” (um eufemismo para “operações ofensivas”) e invadiram o Afeganistão, que não tinha nada a ver com o 11 de setembro.
    E o comentadeiro que vá ler geopolítica, mais propriamente a “Teoria do Cerco” de Brzezinski, para ver que não é só na Rússia que se sentem “claustrofóbicos” com essa ideia do “cerco” da Rússia (ou URSS). Imagine-se uns lança-mísseis de médio alcance em Kharkiv a poucos minutos de Moscovo, mais perto do que Cuba em 1962?
    Tal como o Putin, a NATO (liderada pelo Zeca das Fraldas Geriátricas) também MENTE.
    Só concordo com ele, em que os ucranianos NÃO SÃO russos, nem querem ser. É verdade que russos, ucranianos e bielorrussos descendem do Principado de Kiev, tal como portugueses e espanhóis descendem de Pelágio, Mas perguntem a um português se é espanhol. As diferenças linguísticas do russo e do ucraniano são como do português ao italiano.

  • Muito bem.
    Trotsky era ucraniano, nasceu numa das cidades mártir, Era judeu também.
    Lénin era judeu e também filho de pai judeu, russo.
    Stalin era geogiano, filho de pai
    Todos foram psicopatas e assassinos como Hitler.
    Podia continuar a enumerar todas estas peculiaridades.
    O Sr Rogério já se percebeu é um especialista, , de tal forma que desata a classificar e a tentar dizer o que as pessoas pensam ou dizem, classificando por categorias de gostos na língua ou por países, mas decerto esteve muito contrariado na NATO, se junto, lá dentro ou como (?), observador.
    Mais não digo, apenas o provoco, porque mal estará ao falar assim, embora se saiba que A NATO sempre foi controlada pelos USA, qual é a sua dúvida?
    Confesse lá então a sua “filia” ou não é classificável, veio só catalogar?
    Falta-lhe substância no comentário que qualquer comunista encartado há pouco, poderia fazer porque cheio de lugares comuns, pouco para um especialista com o curriculum descrito.
    Até Pacheco Pereira que leu muito e tem uma biblioteca enorme seria capaz de melhor, mas o homem é analfabeto funcional, no entanto diz ser historiador, não sei se também é especialista.

  • Stalin filho de pai alcoólico.

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