Os Globimbecis

Por estes dias, sempre que se ouve falar nos líderes carismáticos e icónicos da Iniciativa Liberal (IL), é invariavelmente no contexto de um ataque velado ao CHEGA (CH) ou ao conservadorismo.

Que fique claro que a maioria dos colunistas que são partilhados nos círculos sociais e políticos do CH não são militantes ou apoiantes deste partido de direita, pois o boicote politicamente correcto dos média do regime é quase absoluto. Por conseguinte, seria normal que, partilhando o CH de vários princípios liberais e conservadores fiscais com a IL, pelo menos ocasionalmente se partilhasse uma ou outra publicação de Thiago Mayan, Cotrim Figueiredo ou Carlos Guimarães Pinto (CGP). Isso acontece, por exemplo, com vlogs de Camilo Lourenço.

Porque não acontece então com os grandes líderes da IL? Por uma razão simples: porque a liderança “liberal” passa mais tempo a enxovalhar e menosprezar o CH, do que passa a construir pontes, ainda que da parte do CH não se verifique a mesma animosidade. Quando André Ventura, Gabriel Mithá Ribeiro ou Nuno Afonso publicam artigos, o alvo é por regra o governo ou as esquerdas – porventura o PSD pela sua associação às posições do governo – mas os partidos à direita do PSD são raramente visados.

Enquanto membro da Assembleia de Freguesia de Oeiras, estou à vontade para opinar sobre este tópico, pois não tenho tido qualquer tipo de problema em cooperar com o meu colega da IL, tendo este mesmo votado a favor da moção por mim apresentada no sentido de se iniciar a celebração do 25 de Novembro de 1975, a nível local.

Numa tendência que já tive ocasião de comentar e explicar, o antagonismo da IL tem sido sistemático e contínuo – confesso que por vezes perco a noção se estou a ler colunistas do Bloco de Esquerda (BE) ou da IL. O último exemplo é um artigo de CGP intitulado “Os patridiotas“.

1. Em tudo aquilo a que o CGP já nos habituou, ele constrói um argumento supérfluo falacioso e em tudo acomodado e difamatório.

Falacioso porque contra-argumenta um argumento avançado por… ninguém e como cúmulo, ainda que num texto curto, nada explica, nada rebate e não avança qualquer tipo de política ou reforma…

Acomodado porque, mais uma vez, CGP faz o jogo da extrema-esquerda: qual a diferença entre este tom e tópico, e as fantasias neo-racistas de Joacine Katar Moreira?

Difamatório porque por mais que CGP e os média de extrema-esquerda gostassem que o CH fosse um partido nazi… não é. Trata-se de um partido conservador, cuja esmagadora maioria dos membros vieram dos partidos à esquerda do CH – tal como André Ventura, eu sou exemplo disso, tendo ambos vindo das lides do PSD.

Muito pelo contrário, quem brinca com o fogo do extremismo, entre o CH e a IL, é a IL. A predilecção da IL pelo marxismo cultural e as ligações a George Soros são reais, pois através da família política europeia da ALDE, a IL está ligada às ONGs de Soros, as da Open Society Institute – entre as quais existe uma porta giratória entre o secretariado da ALDE e a liderança das OSIs. Para quem não esteja familiarizado com o assunto, George Soros patrocina vários eventos organizados com a participação de membros da ALDE, e para além da família europeia liberal, Soros também patrocina e está ligado às organizações europeias de esquerda e extrema-esquerda.

No atentado terrorista de Waukesha, perpetrado pelo supremacista negro Darrell Brooks, nos EUA, e que vitimou dúzias de pessoas, ficou clara a relação de causa-efeito das eleições de procuradores ultra-complacentes com os motins raciais de 2020 e com o terrorismo do Black Lives Matter. Procuradores que intencionalmente se abstêm de processar extremistas de esquerda ou que agem com uma benevolência ideologicamente enviesada, levaram à libertação do supremacista negro Brooks e ao seu derradeiro atentado terrorista. O mesmo fenómeno de eleições de activistas de extrema-esquerda patrocinados pelas organizações de Soros levaram a uma onda de criminalidade inédita, mesmo nos EUA.

O fenómeno do extremismo político actual chega ao mais elevado cargo do mundo ocidental, nomeadamente com presidentes dos EUA, de esquerda. Foi o Partido Democrata de Obama que incitou à violência e sabotagem de comícios políticos de Donald Trump em 2016. Antes e depois das eleições de 2016, apoiantes de Trump foram regularmente assediados e espancados nas ruas, por “activistas” de esquerda, incitados ao ódio racial pelos média de extrema-esquerda e pelo Partido Democrata. Biden não escapa a esta tendência pois, durante as eleições de 2020, o staff da sua campanha presidencial financiou e publicitou o pagamento das cauções para a liberdade condicional de vários activistas presos durante o vandalismo e os motins de 2020.

Num exemplo mais próximo aos portugueses, Soros patrocinou várias ONGs que, tal como a organização da qual fazia parte Miguel Duarte, foram acusadas de violar as leis de imigração de vários estados europeus. Muitas destas ONGs, de conluio com traficantes de seres humanos no norte de África, faziam questão de transportar imigrantes ilegais através do Mediterrâneo, sabendo à partida que era um acto ilegal e que os estados europeus não tinham condições para acolher tal imigração a larga escala.

Muito pelo contrário, o CH em nunca esteve associado a qualquer tipo de crime político, muito menos de natureza terrorista. A família europeia do CH é vilipendiada e difamada com regularidade nos média portugueses, mas em nada está relacionada com a extrema-direita nem com qualquer grupo criminoso. Por muito que os ‘jornalistas’ gostassem que Marine le Pen ou Matteo Salvini andassem de cabeça rapada com suásticas tatuadas no braço, essa não é de todo a realidade da direita conservadora europeia, que está muito mais próxima de sectores conservadores católicos do que com qualquer tendência revolucionária.

2. CGP descreve a nacionalidade portuguesa como uma coisa amorfa, que ninguém sabe definir pois “no fundo, enquanto nação global estamos sempre a mudar”.

Isso não é verdade. Portugal tem um milénio de existência e obviamente as coisas vão-se alterando, mas repare-se que em mil anos, a língua continua a ser o português. Existem mesmo provérbios, expressões e receitas medievais que nunca nos deixaram. A mentalidade é também – para bem e para mal – a mesma. Basta ler a Carta de Bruges do Infante D. Pedro, ou o juízo que outros povos faziam e fazem de nós pelo mundo fora, para o verificar. Como descreviam, por exemplo, os japoneses, os navegadores portugueses e os holandeses no século XVII? A diferença de mentalidades descrita pelos oficiais japoneses ou pelos indianos, durante as Descobertas, é em tudo equivalente à observada nos dias de hoje.

O académico holandês Geert Hofstede tem feito um trabalho notável na distinção de vários ímpetos éticos e culturais que diferem em importância de cultura nacional para cultura nacional. Especificamente entre os lusitanos e os neerlandeses, o Centro Hofstede identifica disparidades dramáticas em áreas como o individualismo, a evasão da incerteza e o pensamento a longo-prazo. Isto quer dizer que, por mais que o vernáculo e as tecnologias mudem, a constante da mentalidade dos povos é fortíssima, sobretudo se deixada evoluir organicamente.

Aquilo que é “idiota” é comparar o fenómeno da imigração na Idade Média ou nos Descobrimentos, com o século XXI, em que milhões se podem transferir em poucos meses e alterar radicalmente a cultura local em termos linguísticos, éticos e até alimentares, em poucas semanas.

Se CGP discorda, talvez ele me possa identificar em Molenbeek ou Anderlecht, o que sobra da cultura belga, ou o quão britânico é Londres oriental. Uma análise das dimensões culturais desses subúrbios daria um resultado equivalente ao do resto da Bélgica ou da Inglaterra rurais? Deve ser essa “riqueza cultural” que traz ataques com ácido à cara de mulheres ou “camiões da paz” esmagando crianças; tudo, aliás, fenómenos tradicionalmente europeus… Mas o que interessa a realidade factual quando confrontada com “mehhh mas diversidade”?…

3. Lendo CGP, poder-se-ia pensar que o homem nunca tinha viajado na vida.

É que nós podemos comparar várias economias globalizadas e medir os níveis de terrorismo ou endividamento. Curiosamente, Polónias, Hungrias, Chinas, Japões, Coreias, etc, não apresentam os níveis de violência urbana e incoesão social que apresenta o Ocidente. Porque será? Se calhar deve ser porque são “patridiotas”…

No ano a seguir à importação de milhões de imigrantes ilegais da região MENA – algo sem precedentes na sua escala – a taxa de terrorismo na Europa aumentou 650%. Mas que surpresa!… Quando se importam cidades e povos inteiros, eles não só não têm tempo ou motivação para se integrarem, como trazem com eles os seus problemas e conflitos de origem… Que espanto!… Como se poderia imaginar tal coisa?…

4. O cúmulo da hipocrisia de quem escreve tal artigo: o país que a IL aponta sempre como modelo para Portugal é a Estónia.

Uma comparação completamente desconexa, visto as duas culturas em nada estarem relacionadas: nem no clima, no tamanho ou na história. É ridículo pensar que soluções que resultam em Tallinn funcionariam em Lisboa. Mas a julgar pelo argumento de CGP, não é a Estónia “patridiota”? Não só são ultra-nacionalistas, homogéneos e paroquialistas, como ainda se esforçam por antagonizar a única minoria relevante no país: os russos. Em que ficamos? Afinal a Estónia é para emular ou para desprezar? Fico confuso…

5. Conclui Guimarães Pinto que “ser patriota é abraçar aquilo que a pátria é: multirracial com uma cultura ímpar que é na verdade uma fusão de culturas numa mistura única de pigmentação, tradições, sabores e toponímia”, uma “(…) mistura especial”.

Aquilo que não é explicado, afinal, é o que não é a nacionalidade portuguesa. Se ser Português pode significar todas as línguas, todas as etnias, todas as raças, todas as cores, todos os credos, então que significa ser Português? Quem não é Português? Se o Estado Português tem como função defender e promover o interesse nacional – pelo menos é isso que consta dos juramentos de cargos públicos, tal como aquele que o líder da IL teve que prestar quando eleito para a Assembleia da República — então o Estado defende-o e promove-o perante quem?

A mundivisão de CGP é indistinguível da de Rui Tavares ou da dos dirigentes do BE, para quem “português” são todos aqueles que residem no território nacional. Quer falem português ou não, quer partilhem do sentimento de pertença nacional ou não, quer contribuam civicamente ou não, quer professem valores nacionais ou não, quer perpetuem as tradições que fazem de nós um povo distinto ou não, quer cá tenham chegado legitimamente ou não e, claro, quer cumpram as leis portuguesas ou não. Escusado será adiantar que as comunidades portuguesas e lusófonas, espalhadas pelo mundo fora, em rigorosamente nada são valorizadas por esta perspectiva.

É uma visão totalitária marxista que procura desagregar povos para teleologicamente atingir o governo mundial amorfo e asséptico, e em tudo oposta à famigerada “diversidade” de que tanto falam. Aqueles que genuinamente promovem a tolerância são aqueles que reconhecem que a tolerância se tem para com o diferente e não para com o igual. É fácil tolerar aqueles que pensam como nós. É um desafio compreender e coexistir com aqueles que se distinguem de nós e, para o conseguir, são precisos critérios que a extrema esquerda ILIVRE faz questão de não querer usar na legislação, nem exigir.

Esta promoção do facilitismo e irresponsabilidade nas leis de imigração e da nacionalidade, não é de todo liberal mas sim progressista e marxista.  A verdadeira diversidade é promovida por aqueles que não procuram diluir as várias nacionalidades num único modelo uniforme transnacional, passível de ser governado por uma entidade globalista centralizada – algo que o europeísmo dogmático e incondicional da IL trai ser o seu real objectivo.

6. É por demais óbvio que o alvo de ataque de CGP é o CH.

Mas o que é mais vergonhoso no ataque, é ser velado: a cobardia de CGP não o obriga a exemplificar as acusações que faz. Permite-lhe, sim, falar para um círculo fechado de apoiantes que se auto-congratulam pelo seu viés elitista que pouco eco tem fora das grandes cidades, e, pior um pouco, baseados em preconceitos propagandeados pelos média de extrema-esquerda, com os quais, afinal, eles têm bastante afinidade. É fácil criticar um rival político se falaciosamente dele se criticar uma caricatura de má fé, em vez de se analisar a realidade.

Na verdade, os “liberais” portugueses ficariam bastante surpreendidos se descobrissem que o CH tem vários militantes e apoiantes das mais variadas origens étnicas, bem como – ao contrário da IL – das mais variadas classes sociais e faixas etárias. Os próprios números dos militantes e apoiantes provam-no, pois um partido fechado sobre si mesmo e exclusivo, não seria capaz de suscitar o voto de meio-milhão de pessoas, de norte a sul do país, e de lograr ser a quarta força autárquica em Portugal. Muito pelo contrário, é a IL que peca por ser exclusiva, fechada e intolerante. Não racialmente, mas certamente em termos de comunicação e representação social – até porque, como é sobejamente conhecido, a IL pouco ou nada tem a dizer fora do tópico da economia e finanças (representação essa que, curiosamente, se faz notar precisamente nos mesmos círculos eleitorais aonde o BE e o Livre vão buscar mais votos: caso para reflexão da parte da liderança liberal…)

É particularmente desprezível que um pequeno partido que, ainda por cima, se senta ao lado do CH, considere mais urgente atacar um potencial parceiro de soluções políticas, do que o governo e as esquerdas marxistas da actualidade. Mas aí estará, porventura, o busílis da questão: muitos membros da IL sentem-se mais confortáveis numa colaboração com o BE, que com o CH. Começa a ser impossível crer que Carlos Guimarães Pinto não pertença a esse sector.


Miguel Nunes Silva

Membro da Assembleia de Freguesia de Oeiras, São Julião da Barra, Paço de Arcos e Caxias pelo partido Chega. Escreve para várias publicações internacionais sobre geopolítica.

*O autor escreve segundo a anterior norma ortográfica

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  • Boa tarde, gostei da sua escrita, da sua maneira de explicar um pouco de geo/politica a um leigo (como eu), fácil e compreensivel. Só fiquei com uma dúvida . . . esse tal CGP carlos guimareis pinto . .. não era um que antigamente se chamava miguel de vasconcelos ?

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