Os conservadores e o caso de Famalicão

As mais recentes notícias sobre o famoso caso dos “alunos de Famalicão” confirmam o que os mais conservadores temiam: o Ministério Público quer que os alunos proibidos de frequentar a disciplina de Cidadania fiquem à guarda da escola.

Não vou abordar o que é alegado nem os tecnicismos legais. Estes já foram discutidos recentemente na casa da democracia, aquando de uma proposta do partido Chega que procurava tornar a disciplina de Cidadania opcional, chumbada pela Esquerda e ignorada pela restante oposição liberal e social democrata. Focar-me-ei no ponto inicial, referente à previsível preocupação dos conservadores e latente desorientação.

À direita cresce um sentimento de que o Conservadorismo não é suficiente, ou seja, de que está ultrapassado. Situações como a destes alunos famalicenses são excelentes exemplos do porquê de tal realidade, lamentavelmente, existir.

O conservador de hoje é um progressista do século XX, e os ditos conservadores de Direita deviam ter isso em consideração quando se autodenominam “conservadores”. Uma vez corrompido o sistema em que o país opera, é do nosso interesse conservá-lo? Ou devemos reconhecer que, por estarmos incluídos numa comunidade com pluralidade de ideais e um sistema democrático que permite materializá-las, as instituições e valores que edificaram a nossa civilização são passíveis de alterações erráticas?

Por norma o conservador não rejeita o progresso, e quando os progressistas chegam ao poder, ele é o primeiro a consentir as alterações das instituições e valores a que se propôs defender. Portanto, se corrompidos, é dever do conservador deixar de o ser, isto se efetivamente for um conservador no que aos seus valores concerne. Eventualmente acabará por sê-lo se considerar as consequências positivas da manutenção e conservação de um determinado sistema, não pela conservação em si, mas porque o sistema social em questão é, na sua opinião, funcional.

Ora, um sistema que permite ao Estado impingir nos jovens portugueses, valores considerados pelos próprios conservadores como errados, através da lei e da coerciva arrecadação e gasto dos nossos impostos, deve ser conservado? Ou deve ser combatido?

Em termos de valores, não necessariamente ideológicos e práticos, o típico conservador português da viragem do século, costumeiramente de centro ou de centro direita e defensor da família como célula base da sociedade, jamais permitiria a introdução de conteúdos impróprios numa disciplina direcionada a menores de idade, quanto mais a sua obrigatoriedade e consequente “perseguição” estatal, que procura intimidar através do exemplo e da desmoralização, aqueles que pretendem escapar à educação programada pelas elites políticas.

O motor do desejado crescimento físico e mental do jovem português não pode ser o Estado. Esse papel cabe às famílias portuguesas, que devem ter consciência do seu papel na importante preparação das gerações vindouras.

Uma preparação baseada na compatibilidade entre as leis da natureza e o modo de vida a adotar, dado que, em última análise, são as que nos condicionam diariamente até ao fim das nossas vidas. Se não é pela influência de Deus ou o seu contrário, não cabe ao Estado laico definir.

Infelizmente o Estado substituiu o pai e a mãe, que agora colocam os bens materiais acima de qualquer prioridade, dado o enfraquecimento da (cada vez menos existente) classe média, e da obsessão ilusória do preenchimento de um propósito de vida pela via de carreiras profissionais que exploram o potencial físico e psicológico do português, e especialmente, da portuguesa comum. Os conservadores pouco ou nada fizeram.

Infelizmente, com os pais sem tempo para serem pais, o Estado “nacionalizou” as crianças ao seu belo prazer. Através da ascensão da Esquerda radical ao poder, nos pós 25 de abril, o regime substituiu os prévios valores de Deus pelos “cravos vermelhos”, da Pátria pelo “internacionalismo”, e da Família pelo “liberalismo social”, ou seja, um cavalo de Troia para o tão falado marxismo cultural. Os conservadores pouco ou nada fizeram.

Infelizmente os valores dominantes são fruto da vitoriosa cultura pós-moderna, hedonística e consumista em toda a sua essência. Os conservadores pouco ou nada fizeram.

A cultura tradicional portuguesa está em perda para a importação de culturas vindas do além Atlântico, que são consumidas diariamente pelas crianças portuguesas, enquanto a família tradicional segue o mesmo caminho graças à máquina estatal que atrofiou toda uma economia nacional, ao não colocar a família portuguesa no seu centro. Tudo para que a máquina estatal, aquela que assegura a manutenção do poder dos habituais partidos da Terceira República, seja mantida. Sem dúvida a escola é o melhor local para proceder ao próximo passo, que culmina na erradicação total (e quiçá totalitária) dos valores tradicionalistas de pendor Ocidental, curiosamente decadentes nos países exportadores dos produtos culturais aqui consumidos.

Não deverá ser controverso afirmar que o conservadorismo falhou. Não há nada de belo, heróico e virtuoso neste sistema social para se defender. A meu ver, o conservador português, se quiser deixar de compactuar com quem o quer enfraquecer, deverá rejeitar a consentida modernidade e abraçar a tradição. Não por ser a tradição em si, mas porque funcionou, caso contrário não teríamos assegurado de forma minimamente estável o “passado” que se concretizou em “presente”.

Concluindo, fica aqui registada a minha questão para os conservadores que não gostaram da notícia identificada no início:

– Conservar o erróneo presente, ou assegurar o promissor futuro?


Francisco Pereira Araújo

Partilhar

Latest comment

  • Excelente artigo, vindo de alguém que se adivinha muito jovem, mas que defende com galhardia e inteligência o seu futuro.
    Parabéns

deixe um comentário