Os caceteiros do costume

Alguém que escreve na revista “Luz”, do semanário “Nascer do Sol”, e assina por Bliró, achou que na edição de 27-03-2021 devia fazer uma gracinha, ou um frete, a João Galamba, consagrando-lhe um lugar de elogio:

“O secretário de Estado mais feroz do actual Governo está desaparecido em combate e há quem entenda que é uma mais valia para o país. Galamba sempre gostou de usar a sua prosápia para atacar os outros, mas o desaparecimento está-lhe a fazer bem. E a nós também. Pode continuar assim que se respira melhor.”

As baboseiras que se escrevem na nossa imprensa para agradar ao poder! O que é estrutural numa pessoa raramente muda e, com Galamba, isso está mais do que provado. Sempre que a ocasião lhe parece propícia, lá temos Galamba à traulitada.

A última foi sobre o programa da RTP, “Sexta às 9”, da autoria de Sandra Felgueiras. Disse, em 9-5-2021, apenas uma dúzia de palavras, mas o suficiente para estar em consonância com o seu conhecido estilo violento: “Estrume só mesmo essa coisa asquerosa que quer ser considerada ‘um programa de informação’”. Uma afirmação destas só poderia obviamente provocar indignação e pedidos de demissão. Quem a profere é um membro do Governo e os termos que usa, para denegrir uma jornalista, não contribuem para o bom nome do Estado de que é servidor. Bem pelo contrário. O que disse justificava que fosse imediatamente afastado das funções que exerce. Os impostos dos portugueses estão a paga o vencimento e regalias de que alguém que se comporta como um energúmeno. Mas, com os socialistas, há sempre uma desculpa.

Nem a Vital Moreira, um homem das esquerdas, o comentário caceteiro de Galamba escapou. Escreveu no seu blogue Causa Nossa, nesse dia:

“Não é politicamente admissível que um governante qualifique como ‘estrume’ um programa de televisão, por mais controverso que este seja e por mais que lhe desagrade. Prouvera que fosse um fake, mas o episódio não foi desmentido: só o comentário foi apagado, sem pedido de desculpa. Decididamente, um governante não pode deixar falar os fígados, em vez da cabeça. Pela boca morrem os peixes… e os governantes!”. 

Para o proteger, o ministro que o tutela apressou-se a condescender, em 10-5-2021, que usou “linguagem desajustada”, mas nenhum dos dois pediu desculpa pelas palavras insultuosas de Galamba. Mais um exemplo da impunidade que grassa em Portugal.


“Quem manda aqui sou eu”

Perante constantes abusos de linguagem de socialistas, não é a primeira vez que se recorda o exemplo do afastamento de João Soares, em 7-4-2016, de ministro da Cultura, por ter ameaçado dois colunistas do Público que o criticaram com “duas salutares bofetadas”, segundo escreveu na sua página de Facebook. Condenado pela sua atitude agressiva, João Soares acabou por pedir a demissão invocando “razões que têm a ver com o meu respeito pelos valores da liberdade”. Destacou ainda: ”Não aceito prescindir do direito à expressão da opinião e palavra”. Como Galamba nunca quis saber o que isso significa, dado o seu habitual carácter conflituoso, obviamente não tem emenda. O poder excessivo desta gente que está no poder só faz crescer a arrogância e a vontade de humilhar os que se lhes opõem.

De resto, Galamba tem tido boas escolas no seu partido. A escola Sócrates criou-lhe o ambiente propício para dar largas à sua agressividade. O famoso “animal feroz” tornou-se o modelo a seguir pelos caceteiros de serviço. Para agradar ao chefe, sempre preocupado com a sua imagem pessoal, era ver quem mais carregava nas palavras brutais contra quem pusesse em causa as acções do Governo, do PS ou do líder. Não se debatia, agredia-se verbalmente para intimidar os que discordavam das suas políticas. Sócrates pagava inclusivamente a um blogger para o elogiar e atacar a oposição. O blogue chamava-se “Câmara Corporativa”, onde era exercida uma autêntica perseguição aos seus “inimigos”. Era, e é, assim que Sócrates reage àqueles que desmascaram os seus embustes. Do seu legado como primeiro-ministro ficou a linguagem de ódio dos seus apaniguados nas redes sociais.

Há ainda outra escola que não se diferencia muito da anterior: a escola Costa. Em 22-7-2010, a revista Sábado publicava um trabalho, assinado por Fernando Esteves,  que abordava o relacionamento de António Costa, então presidente da Câmara de Lisboa, com assessores e funcionários no município. “O seu temperamento colérico leva-o a humilhar colaboradores e adversários”, ressaltava Esteves. Na altura vereador, Pedro Santana Lopes disse ao jornalista: “Há vereadores que são enxovalhados em público. Nunca vi nada assim.” Para o ilustrar, são relatados vários episódios sobre o tratamento que dava àqueles que o contrariavam. A revista destacava também as expressões que costumava usar nos seus ataques de fúria: “Quem manda aqui sou eu”; “Você é um marialva”; “Você é um ignorante”; “Você não me faça perder a cabeça, não gosto de gente burra” e “Você é uma reaccionária”.


A necessidade da defesa da honra

Como chefe do Governo, Costa manteve o mesmo perfil de insolência, desqualificando aqueles que o contrariem com piadas de mau gosto ou insinuações despudoradas.

Quando passou a líder da oposição, Pedro Passos Coelho teve de pedir a defesa da honra num debate no Parlamento para se insurgir contra os comentários de natureza pessoal de Costa, bem como as ofensas gratuitas.

Rui Rio tem sido visado igualmente nos seus comentários desprimorosos e, numa das intervenções na Assembleia da República, em Outubro de 2019, para desvalorizar a prestação parlamentar do presidente do PSD, Costa colocou-o ao nível de um “estagiário para vir a ser comentador televisivo”. Mais recentemente, Rio sentiu-se atingido por uma entrevista que Costa concedeu ao DN/TSF/JN quando o comparou a “um catavento”. Rio respondeu, considerando a entrevista de “nível rasteiro”.

O BE, antigo parceiro na “geringonça”, não foi também poupado às invectivas de António Costa ao ter votado contra o Orçamento de Estado para 2021. Acusou-o de se ter posto “ao fresco” durante as negociações por, consoante manifestou,temer ficar associado a um Governo que “vai ser muito impopular”. Por isso, Costa classificou a atitude do BE de “oportunismo político”. Catarina Martins não gostou do que ouviu e reagiu afirmando que não aprecia insultos e que não os tem usado na política.

Percebe-se que, se não lhe obedecem, Costa esquece com facilidade antecedentes, como ter beneficiado do voto do BE para ser governo em 2015, e passa ao ataque comuma linguagem sem contemplações. Terá Rio aprendido alguma coisa com o destrato com que Costa o mimoseou na entrevista?


Cabrita, o herói de Costa

A par disso, quando Costa declara no Parlamento, referindo-se a Cabrita, que tem “um excelente ministro da Administração Interna”, não deve ser motivo de surpresa para ninguém. Cabrita corporiza tudo o que Costa é. Não se importa que Cabrita degrade a imagem do Estado, diga mentiras, faça ameaças, seja boçal, trauliteiro. É assim que o quer para fazer o trabalho impróprio que corresponda aos interesses do chefe do Governo e não tenha de sujar as mãos. Entendem que uma sociedade deve ser tratada à bruta, para se sentir intimidada e tornar-se obediente, como faz este Governo. Cabendo a Cabrita a tutela das forças de segurança, tem ao seu alcance os instrumentos para aplicar o seu estilo impulsivo. No conflito do ZMAR, a proibição de acesso aos seus clientes do advogado dos proprietários é um sinal dos seus tiques autoritários. Só se resolveu pela intervenção de Belém. Também a operação da GNR pela madrugada no complexo ZMAR espelha o seu espírito repressivo. Dispondo da força, julga-se com poder.

Falta ainda referir o nome de Augusto Santos Silva que, no tempo em que foi ministro dos governos de Sócrates, disse um dia: “Eu cá gosto é de malhar na direita”. Como já o demonstrou que a lógica política dele é “malhar”, é dessa maneira que vai distribuindo cacetada aqui e ali, de acordo com as conveniências da ocasião. À informação que lhe desagrada já a classificou de “jornalismo de sarjeta” pois, para publicar a sua constante prosa, o seu elitismo político leva-o a escolher apenas os órgãos que o tratam com reverência. Outra tirada que se lhe conhece foi ter comparado a concertação social a “uma feira de gado”. Mas há mais no seu admirável curriculum: a dada altura, criticou o Presidente Cavaco Silva por não ter condecorado o ex-primeiro-ministro José Sócrates. “Haverá certamente, dentro em breve, um Presidente merecedor da honra de condecorá-lo”, ironizou no Facebook. Até agora não aconteceu e duvida-se que o cauteloso Marcelo queira fazê-lo.

Quando a vida política portuguesa encalha nos insultos de um lado e nas reacções do outro, o que acontece frequentemente, tal significa que, como salientou Carlos Rodrigues no Correio da Manhã de 10-5-2021, “o debate político está capturado pelo padrão de linguagem que medra nas redes socials, um padrão brejeiro, miserável e sempre à procura do insulto fácil e descartável”. Era assim no tempo de Sócrates, continua a ser assim no tempo de Costa. Quem insulta deixa sempre numa posição desconfortável quem é insultado, porque qualquer resposta alimenta quase sempre uma polémica inútil. Mas, quando não se quer falar dos problemas concretos do país, acaba por dar muito jeito, como já temos visto, a conversa oca da provocação.

António Costa, Augusto Santos Silva, Eduardo Cabrita e João Galamba, entre outros, são os expoentes da equipa de choque dos socialistas para “malhar”, sempre que for necessário, recorrendo a uma cartilha própria, sob o lema “quem se mete com o PS leva”, da autoria de Jorge Coelho, agora condecorado postumamente por Marcelo. E pode “levar” de muitas maneiras: com desconsiderações públicas, sobretudo aos adversários políticos; com a denúncia de supostos telhados de vidro; com não reconduções em lugares de imprescindível controlo político; com quedas em desgraça de quem não segue a linha correcta; com inquéritos disciplinares na administração pública por delito de opinião.

Há uma velha frase que continua actual neste contexto: para os amigos tudo, para os inimigos a lei. Pelo visto, não lhes têm faltado executantes para que as suas vontades sejam cumpridas. 


Francisco Menezes

* O autor usa a norma ortográfica anterior.

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