Os abusos do padre Inácio

O padre Inácio Franco Belo, nascido em 1957 e ordenado em 1987, foi colocado no Alto Concelho de Alenquer (Meca, Olhalvo, São Miguel de Palhacana, Ventosa, Aldeia Galega e Aldeia Gavinha); depois transferido para o Vimeiro (Alcobaça) em 1991; é novamente transferido, em 1997 para Santa Beatriz da Silva (Marvila-Chelas), logo depois acumula com Santa Maria dos Olivais (em Lisboa); e finalmente é exfiltrado para a diocese do Algarve em 2012 até que pediu a suspensão das ordens e abandonou a Igreja Católica.

Alegadamente, tornou-se um abusador em série. O semanário Sol, de 8-5-2013, refere dez vítimas menores, com inquéritos-crime abertos, e infrutíferos, em 2009, em 2010 e 2011, nomeadamente com denúncias veiculadas por Catalina Pestana (dirigente da Rede de Cuidadores e ex-provedora heroína da Casa Pia de Lisboa) – consulte-se também o CM, de 4-8-2022, a RTP, de 5-8-2022 (reportagem de Ana Luísa Rodrigues) e o Zap, de 13-9-2022.

Já depois de alegada incontinência homossexual no seminário, referida ao Inconveniente por testemunha, e então encoberta por quem o devia afastar, foi impropriamente ordenado padre. Segundo as notícias, e uma fonte, começou logo, alegadamente, na sua primeira colocação, nas paróquias do Alto Concelho de Alenquer, a meter-se com os acólitos adolescentes. Esta situação é muito perigosa. Os adolescentes são emocionalmente frágeis e os impactos sobre a sua dignidade são terríveis. Já nesta altura aconteciam suicídios de jovens, como foi o caso de um suicídio numa freguesia da zona alta de Alenquer.

Foi transferido para o Vimeiro (Alcobaça) e, por alegadamente ter reincidido, exfiltrado para Lisboa – Santa Beatriz da Silva, em Marvila-Chelas, acumulando depois com Santa Maria dos Olivais, paróquias onde terá alegadamente continuado a tentar e a consumar abusos sobre menores.

O Inconveniente falou com um sacerdote, que tinha responsabilidades no escutismo, o qual denunciou superiormente os abusos sexuais de menores alegadamente cometidos nas paróquias do Vimeiro, Santa Beatriz da Silva em Marvila-Chelas e Olivais, e que tem acompanhado espiritualmente algumas vítimas.

Para lá de ter consultado outras fontes bem informadas, este jornal colheu os depoimentos de dois dirigentes do agrupamento de escuteiros de Santa Maria dos Olivais e obteve um relato de um dirigente jovem do escutismo católico que o padre Inácio terá assediado durante uma confissão num acampamento na vigararia de Alcobaça.

O Inconveniente contactou dois dirigentes do agrupamento de escuteiros de Santa Maria dos Olivais, em Lisboa, que nos prestaram depoimento sobre os factos. Em agosto de 1997, os dois dirigentes participaram no Acampamento Nacional do CNE (Corpo Nacional de Escutas – Escutismo Católico Português), em Valado dos Frades, onde ouviram o relato de um dirigente do agrupamento do Vimeiro (Alcobaça), que, indignado, se queixou de abusos realizados sobre rapazes do escutismo pelo prior, que não nomeou, da sua paróquia e de como o poder que tinha na hierarquia da Igreja lhe permitiu continuar os abusos sem ser suspenso.

Entretanto, por causa desses abusos sexuais sobre esses miúdos e tentativa de abuso de outros, o padre Inácio foi finalmente transferido no final de 1997 para Lisboa, ainda que no Vimeiro tenha levantado uma parte dos paroquianos contra essas denúncias. Foi colocado na paróquia de Santa Maria dos Olivais, na área da Expo-98 e mais tarde acumulou com a paróquia de Santa Beatriz de Marvila (Chelas).

Algum tempo depois, dirigentes do agrupamento do CNE dos Olivais começaram a estranhar a conduta do padre Inácio para com miúdos de 14 e 15 anos: fez uma bizarra carícia na face de um acólito durante a comunhão, na missa; apareceu numa atividade noturna no acampamento com um miúdo de cerca de 14 anos, sem ligação religiosa e que havia trazido de uma “rave“; um escuteiro pioneiro de cerca de 15 anos faltava às atividades de sábado porque o padre o levava para a praia; foi visto por outro dirigente do agrupamento num pinhal no carro com outro adolescente em posição inusitada; e um miúdo escuteiro avisou que deixava de ser acólito, pois o padre tinha-o assediado sexualmente. Os dois dirigentes do agrupamento dos Olivais, lembraram-se então da conversa do colega do Vimeiro no Acampamento Nacional e, através dos canais escutistas, conseguiram comunicar com este que lhes confirmou que o referido sacerdote alegadamente abusador era o padre Inácio Franco Belo.

Outro dirigente do agrupamento de escuteiros de Santa Maria dos Olivais também ouviu o relato assustador do seu colega do Vimeiro (Alcobaça) durante o Acampamento Nacional de agosto de 1997, em Valado de Frades. Lembra-se que este lhes revelou que, segundo relato dos adolescentes que sofreram o assédio e abuso sexual do padre Inácio, este levava miúdos acólitos para um apartamento, de um familiar, em São Martinho do Porto, que abusava deles à vez num quarto e ainda que, ao longo de seis meses, ia esperar um dos miúdos no trajeto da escola a fim de abusar dele.

O padre Inácio chegou em setembro de 1997 à paróquia de Santa Beatriz da Silva (Marvila-Chelas) e logo depois acumula com Santa Maria dos Olivais. Vinha com a fama de “padre empreiteiro” por já ter liderado a construção de centros paroquiais nas paróquias anteriores. A outra fama horrível não o precedeu: os paroquianos, e os dirigentes dos movimentos da Igreja, como os escuteiros, não foram prevenidos pelo Patriarcado de Lisboa sobre as tragédias anteriores dos abusos sexuais sobre menores nas paróquias anteriores e não puderam, por isso, proteger os seus filhos.

Relata, porém, que começam a circular informações de que o novo padre era particularmente agressivo para as mulheres, designadamente as do centro paroquial, tratando-as “abaixo de cão”, enquanto era particularmente meloso com os miúdos acólitos e escuteiros, dos 14 aos 16 anos, o seu grupo-alvo. Dedicava-se especialmente aos mais vulneráveis e carentes, filhos de famílias separadas, disfuncionais e pobres. Este segundo dirigente do escutismo de Santa Maria dos Olivais notou que o padre telefonava a um escuteiro e acólito de 15 anos para que vá à noite ter com ele à igreja (!…) vazia. Este adolescente terá alegadamente sido assediado pelo padre, que todavia não terá consumado o abuso.

Mais tarde, estes dois dirigentes do escutismo tiveram conhecimento de que o padre Inácio tinha alegadamente abusado de dois acólitos da paróquia de Santa Beatriz de Marvila, tendo a mãe de um deles apresentado queixa ao presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Jorge Ortiga (arcebispo de Braga e sem jurisdição sobre o Patriarcado de Lisboa), que a terá remetido para o Ministério Público. Ainda segundo um destes dirigentes do escutismo, um destes miúdos de Marvila alvo do padre Inácio tornou-se doente psiquiátrico por causa dos alegados abusos sexuais, sequelas terríveis de que também sofrem as vítimas do Vimeiro.

Contudo, enquanto os dirigentes do agrupamento dos Olivais procuravam confirmar as suspeitas, houve uma fuga de informação mal-intencionada e o padre Inácio soube que havia sido identificado como o abusador sexual de crianças do Vimeiro, em Alcobaça. Queixou-se à hierarquia do escutismo e da Igreja e, como manobra de diversão dos abusos sexuais referidos, começou a vituperar nas homilias os dirigentes do escutismo da paróquia por alegada difamação e reunia com alguns jovens e seus pais para promoverem a expulsão dos chefes do escutismo, a quem imputava indecências!…

Os dirigentes explicam-se ao Núcleo de Lisboa Oriental do escutismo, à Junta Regional e até à Junta Nacional da organização, mas sem sucesso.

O Assistente Regional do Núcleo de Lisboa Oriental do escutismo era o seu colega padre Nuno Aurélio que o apoiou na investida contra os dirigentes do agrupamento, os quais pretendia expulsar. O padre Nuno Aurélio, prior da Encarnação de quem falamos em artigo anterior, terá sido muito agreste com os dirigentes queixosos da perseguição do padre Inácio: “recebeu-nos com sete pedras na mão” – relembra um deles. Os chefes do agrupamento defenderam-se perante a comissão de inquérito criada pelo Núcleo de que não haviam feito qualquer difamação, mas foi decidido pelos órgãos regionais e nacionais suspender o agrupamento, já que não conseguiam a demissão dos seus inocentes dirigentes. Relativamente aos casos de abuso tentado e consumado, nada.

Em fevereiro de 2003, o agrupamento dos Olivais é suspenso. Mas isso não impediu o padre Inácio de fazer acantonamentos, com dormida, na casa paroquial com os “pioneiros” (como são designados os escuteiros do 14 aos 16 anos) do agrupamento…

No outono de 2003, meses após a suspensão do agrupamento dos Olivais, o bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa, D. Manuel Clemente telefonou diretamente ao chefe do agrupamento e marcou uma conversa, com ele e com o chefe-adjunto, sobre o diferendo com o padre Inácio (assistente do agrupamento). D. Manuel Clemente havia sido escuteiro e era natural de Torres Vedras, na zona do Oeste onde o padre Inácio havia exercido funções e acumulado denúncias, desde o Alto Concelho de Alenquer ao Vimeiro (Alcobaça).

Acresce que o então cónego Manuel Clemente fazia parte da equipa formadora do Seminário Maior dos Olivais, liderada pelo cónego Carlos Paes (que já havia sido prefeito durante dez anos do Seminário Menor de Almada), onde Inácio Belo já tinha sido referido, por testemunhas, por práticas homossexuais com outros seminaristas contemporâneos. Apesar de denúncias concretas, esse grupo era amparado pelo vice-reitor Carlos Paes – mais tarde, exonerado dessa função e transferido para a paróquia de São João de Deus, em Lisboa.

A conversa dos dois dirigentes com o bispo decorreu no seu gabinete do bispo no Seminário dos Olivais, de que, nessa altura, era reitor. Atendendo à prática eclesiástica e à personalidade de D. José Policarpo, é difícil crer que D. Manuel Clemente tivesse agido sem incumbência do patriarca e que, por outro lado, não conhecesse os antecedentes do padre Inácio no Alto Concelho de Alenquer e no Vimeiro.

Segundo o relato dos dois dirigentes do agrupamento dos Olivais, D. Manuel Clemente disse-lhes que, embora julgassem ter razão, não podiam fazer frente ao assistente e teriam de se afastar do agrupamento. Que um dia a verdade haveria de ser reposta. D. Manuel Clemente concluiu, dizendo-lhes: “temos de rezar pelos nossos inimigos: rezem por ele” (padre Inácio). Os dois dirigentes escutistas ficaram indignados por o bispo tomar a defesa do reincidente abusador, mas decidiram obedecer-lhe e demitir-se.

A ideia com que ficaram foi de que a conversa com o bispo acontecera porque o Patriarcado temia que o assunto surgisse na imprensa. Dos quinze dirigentes do agrupamento dos Olivais, onze, solidários com a injustiça e indignados com a proteção da hierarquia ao padre abusador, assinaram a carta de demissão. Dirigentes do agrupamento contactaram depois o jornal Independente, para expor o perigo que o padre constituía, mas também aí o assunto foi tapado.

Entrementes, os imbróglios do padre Inácio não se circunscreveram à conduta sobre os adolescentes, mas, ainda sempre de acordo com o relato de dirigente do escutismo dos Olivais, também à parte financeira da paróquia, que sofreu um rombo. O padre havia liderado construção da igreja de Marvila. Alegadamente, trabalhava com construtores a quem envolvia, por contrapartida, em negócios futuros. É assim que aparece o insólito envolvimento do padre Inácio, cerca de 2002, no projeto do parque de estacionamento no jardim da rua José Lins do Rego, em que a exploração seria concedida à Bragaparques. E, alegadamente, cria uma fundação em Santo Estêvão, Benavente, para a qual terá contribuído, entre outras pessoas, uma senhora idosa que depois se terá arrependido de doar prédios em Lisboa com a promessa de vir a ser alojada nessa localidade ribatejana e cuja família contestou esse ato.

Segundo quem o conheceu nesse período, o padre Inácio demonstrava um apetite voraz por dinheiro e procurava o contributo, em bens e pertences, de pessoas idosas para os seus projetos.

As queixas sobre os imputados abusos sexuais de menores do padre Inácio Belo chegam, então, ao Ministério Público. E é, alegadamente, sujeito a medidas judiciais de coação, permanecendo na Casa Diocesana do Clero, na Av. 5 de Outubro, em Lisboa. Mas o processo terá sido arquivado por prescrição dos imputados factos. Porém, como o escândalo não podia ser ignorado, o padre Inácio é uma vez mais exfiltrado para a diocese do Algarve, ocupando-se de serviços religiosos eventuais, especialmente os funerais.

Alegadamente, segundo fontes contactadas, também pratica exorcismos, constando ter criado um ritual próprio, alegadamente recebendo dinheiro. Contudo, as notícias na imprensa perseguem-no. Fica sem função atribuída na Igreja e chega a trabalhar como empregado de mesa. Quando alguns casos foram tornados públicos, refugia-se em Angola, onde, conforme informação direta obtida pelo Inconveniente, disse a quem aí o reconheceu que não dissesse a ninguém que era padre… Arrefecido o ambiente mediático, retorna a Portugal. Terá trabalhado depois como mediador imobiliário da Remax, na zona de Benavente.

O processo canónico, que corria devagar os seus termos, terá motivado a decisão da Santa Sé, cerca de 2015: ou o próprio pedia a suspensão ad divinis ou essa sanção ser-lhe-ia imposta. A suspensão das ordens, porém, só foi solicitada pelo próprio em 2019, quando o Papa Francisco endureceu a política sobre os abusos sexuais de menores através do motu proprio “Vos estis lux mundi”, alegando o Patriarcado de Lisboa que não o tinha conseguido notificar antes…

E agora ter-se-á refugiado em Espanha, exercendo como pastor da “Igreja Anglicana Carmelita Europeia“. Na RTP, o reverendo máximo desta Igreja revelou que solicitou informações sobre Inácio Belo ao Patriarcado de Lisboa, que nada lhe contaram do passado do padre nem sobre o motivo da saua saída da Igreja Católica. Apesar de notícia no CM, de 28-7-2022, sobre vários inquéritos-crime abertos sobre padres portugueses, não se sabe se existe algum processo-crime ativo contra ele.

Um destes ex-dirigentes escutistas lamenta que a paróquia de Santa Maria dos Olivais tenha sido castigada com uma anormal frequência de pastores problemáticos: além do padre Inácio Belo, também o padre João José Cândido da Silva, agora no Alcoitão, e o padre Davide Matamá (do Porto e amigo do bispo Carlos Azevedo), capelão prisional e assessor da Pastoral Vocacional, no Porto.

Em conclusão da sua declaração ao Inconveniente, um dos ex-dirigentes do escutismo dos Olivais lamenta o desfecho e as consequências que decorreram nas vítimas e nas comunidades, das omissões da hierarquia da Igreja. Mantém-se católico praticante e lastima “o encobrimento e as transferências” dos padres abusadores.

O Inconveniente tentou contactar o padre Inácio Belo, mas não logrou sucesso.


António Balbino Caldeira

Nota: Sobre o enquadramento do tema veja-se, no Inconveniente, “Abusos sexuais de menores na Igreja Católica portuguesa”, de 17-8-2022, e ainda “Abusos sexuais de menores na Igreja Católica portuguesa – II”, de 24-8-2022, sobre a distinção entre abusos sexuais de menores de 14 ou 16 anos (consoante tenham ocorrido depois ou antes de 2007) e coação, assédio e abuso de adolescente ou jovem internado, da homossexualidade ou heterossexualidade praticantes por clérigos e pessoas consagradas maiores a quem o Código de Direito Canónico, no cânone 277.º, estipula “continência perfeita e perpétua”.

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