Opinião informativa e informação opinativa

Sou um consumidor de informação corrente e que aparece nos meios da dita. Jornais, revistas, rádio e tv, mais a internet são os meios de saber o que se passa e ajudar a pensar sobre o que acontece. 

Não obstante sinto uma grande dificuldade em obter informação cabal e avalizada sobre qualquer assunto importante que vá para além dos factos que qualquer um pode observar se lhe forem mostrados. 

Assim, a primeira coisa que espero dos media é o relato dos factos com a maior fidelidade possível ao real. Depois o ideal seria que tais factos fossem mostrados com uma interpretação minimamente invasiva e destinada apenas a fornecer pistas a quem se destina, sem desvirtuar tal realidade. 

Alguns exemplos de acontecimentos recentes ajudarão a explicar melhor a ideia exposta. 

Os casos de Tancos e agora do procurador europeu, na área da justiça, podem ajudar a compreender melhor a informação que temos e a dificuldade em contar o que se passou de modo a esclarecer o público a quem se destina.

No caso de Tancos, para se ter uma boa informação seria sempre necessário que as notícias integrassem vários factos relevantes com explicação detalhada ou implícita sobre os mesmos. 

Por exemplo, qual era a essência, desde o começo, de tal acontecimento e respectiva sucessão de factos dados a conhecer?

Era a ocorrência de um furto de armas num paiol do Exército mal guardado e vigiado e posteriormente o que ocorreu e como ocorreu para que tais armas fossem devolvidas pelo respectivo autor. 

Para alguém noticiar um acontecimento destes é necessário saber uma série de coisas que eventualmente um jornalista pode não saber. 

Se não souber, por exemplo, que todo o facto criminoso deve ser comunicado no mais breve espaço de tempo ao Ministério Público, seja por quem for, principalmente a polícia pela simples razão de que aquela entidade detém o exclusivo da investigação criminal, algo ficará por compreender e depois explicar aos leitores. E neste caso com relevância. 

De igual modo se um jornalista não souber que no caso de haver necessidade de intervenção urgente de um juiz de instrução, num processo desse tipo, tal deverá suceder com celeridade e ponderação da realidade exposta, algo ficará por compreender e explicar ao público destinatário da notícia. 

Desse desconhecimento decorrerão consequências para as notícias em causa que não espelharão a realidade que deveria ser contada. 

Estes são apenas dois exemplos concretos do que pretendo dizer ao escrever que fico sempre com água na boca quando leio, ouço ou vejo notícias sobre assuntos similares. 

Pegando agora no caso do procurador europeu, a essência da notícia residia na circunstância de se poder saber se a designação pelo governo português partiu de um vício inicial: o de o governo querer escolher aquele e não outro magistrado e ter actuado com esse propósito, escondendo os indícios de tal actuação lesiva do interesse público. 

A hipótese, nesse caso é abdutiva, porque não se deduz ou induz apenas dos factos conhecidos e denunciados pelos interessados. 

Para se dilucidar tal realidade o jornalista carece de saber algo que pode não saber de momento mas poderá informar-se em pouco tempo: como se processou o concurso, se tal ocorreu e como se escolheu de facto o candidato. Terá que conhecer leis, normas e regulamentos para lidar com os factos e ajustar os mesmos. Se tal não suceder a informação será sempre deficiente e o público mal informado e com prejuízo para os visados, além dos destinatários das notícias. 

Assim, partindo do pressuposto que os jornalistas são profissionais da informação, torna-se necessário além do mais que obedeçam apenas aos ditames da mesma, cingindo-se aos factos e realidades apuradas e contando-as tal e qual.

Ora, o que sucede em Portugal neste domínio? Uma piolheira à vista, como diriam os intelectuais do nosso séc. XIX. 

Uma boa parte dos jornalistas dos media nacionais não cumprem tal desiderato porque são incompetentes para obter informação cabal e avalizada, derivando tal deficiência do desconhecimento e ignorância próprios de quem não tem preparação intelectual e académica e, por outro lado, não se respeitam a si próprios no exercício da profissão, vendendo a sua competência em produzir notícias aos interesses avulsos da ocasião, mormente de natureza política ou ideológica ou de carreira oportunística. 

Este fenómeno é visível em quase todos os media nacionais, com grande destaque para quem tem responsabilidade editorial nas televisões, nas agências de notícias e nos jornais que aliás são poucos e pouco lidos em Portugal. 

Exemplo? Basta pegar em qualquer um dos órgãos de informação que temos e ver quem os dirige e como se noticiam certos factos, nomeadamente os acima citados. 

O jornalismo nacional não sabe, e pelos vistos não quer saber, para além do que pode noticiar que preencha os mínimos para ocupar espaço informativo, na melhor das hipóteses. Na pior, estão na profissão para se prestarem a fretes de natureza espúria ao jornalismo porque tal lhes traz dividendos pessoais que da outra forma não teriam. 

É esta a minha visão da informação em Portugal. 

José

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Latest comments

  • Ora aqui está pertinentíssima lição de jornalismo que devria ser mistrada à generalidade dos, so called, jornalistas que por aí circulam.

    Uma outra nota. verifico com agrado que têm endereço no protonmail, para ‘onde irei’ dentro de dias também.

  • Correcto: “… devria ser mistrada …” deveria ter sido “… deveria ser ministrada …”
    Gralhas que a pressa traz …

  • E no dia em que estiveres do outro lado, do lado do facto noticioso, vais partir o coco de riso ao ler a “notícia”.

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