O tempo eterno dos amigos de Alex

Lawrence Kasdan (1983). Os amigos de Alex (The big chill).

Um velho filme, de 1983, talvez o mais fidedigno retrato que me ocorre, de quem foi jovem nos loucos anos 60/70, ao mesmo tempo puros e ainda sem drogas. Um velho filme que, para nós, os Amigos de Alex portugueses, será sempre actual. Dificilmente seria tal filme produzido nesta época em que a cancel culture já conseguiu suprimir os Globos de Ouro e reduzir a mínimos históricos o share televisivo da atribuição dos Óscares da Academia de Hollywood.  De facto, no filme, não encontramos minorias étnicas em qualquer categoria a considerar, nenhum dos actores ou actrizes é negro ou asiático, nenhuma mulher é vítima de machismo… Encontramos “apenas” a espécie humana na mais genuína, sincera, expressão de amizade, desencanto, humor, frustração, amores e desamores. Encontramos a vida como ela é – ou melhor, larger than life.

Na sinopse, lê-se que um grupo de amigos, ex colegas de faculdade, se reúne para o funeral de um amigo comum, Alex, que se suicidou. Acabam por decidir passar o fim-de-semana na enorme casa do casal que os acolheu e a sucessão de diálogos e situações acaba por revelar uma amizade tão forte que, revivida, ninguém desejará regressar depois daquele fim de semana às suas vidas: banais, frias e, afinal, solitárias.

Era assim a amizade nesses tempos: franca, descontraída, desinibida. Sobretudo cúmplice, imorredoura. Tanto tempo passou, na sua habitual inclemência, mas nós, agora mais propriamente “Avós de Alex”, só fisicamente mudámos. A rebeldia ficou.

Os “Amigos de Alex” que tenho a felicidade de manter eram, entre os anos 60 e 70, jovens que se reuniam sobretudo numa pequena aldeia ribatejana. Uns, lisboetas com raízes e casas nessa aldeia; outros, lá nascidos, mas a estudar em Lisboa; outros ainda, destinados por dificuldades económicas a uma vida aldeã, que, nesse tempos, estava longe dos encantos que os ” jovens agricultores” urbanos nela encontram hoje em dia. Um grupo interclassista, portanto, saudavelmente livre de luta de classes. Nesse tempo, o rio Almonda oferecia recantos paradisíacos. Recordo que nele se realizou um concurso internacional de pesca até ao dia em que a indústria do papel higiénico foi autorizada a construir uma fábrica a dez metros da nascente, tornando de cores variáveis as águas anteriormente límpidas e vibrantes de enormes cardumes cinzentos.

O nosso lugar, antes da desgraça ecológica era, pois, um magnífico choupal à beira duma cascata e duma piscina natural. Ali nadávamos, fazíamos piqueniques e começávamos a olhar, discretamente, a musculatura ou as curvas dos nossos amigos ou amigas. Quatro casamentos haveriam de resultar, mais tarde, dessa incipiente atracção.

E era essa mesma atracção que nos levava a organizar os famosos “bailes de garagem”, sendo que os engenhosos disc-jockeys tinham sempre artes de deixar para fim de festa uns melosos slows, permitindo aos corpos cansados de dançar rock e pop, o encosto tanto mais apertado quanto mais sedutor e cúmplice era o parceiro. Não nos interessavam, obviamente, os bailaricos de aldeia, ao som da concertina e com adultos vigilantes sentados à volta do recinto de dança.

Criámos, então, numa velha casa que os meus pais já não usavam, um Clube, o “Pop Gato”, onde se fazia ouvir repetidamente “Bridge over troubled waters” , “El condor pasa”, entre muitas maravilhas do vinil. Décadas mais tarde, por entre as brumas da sua senilidade, ainda a minha Mãe exultaria ao ouvir Simon e Garfunkel, dizendo: “esta é do Pop Gato”.

Todos nos tínhamos mobilizado para decorar o espaço, cortando canas para fazer divisórias, pedindo velhas rodas de carro de bois, barris que servissem de assento, enfim, um entusiasmo indescritível. E, se o velho gira discos era o centro das atenções, nem só de dança constava a animação.

Havia também debates, sob forma de julgamento. Era lançado um tema, dividiam-se as facções e o amigo mais velho, já quase jurista, servia de juiz. Quem perdesse tinha de, como penitência, abastecer o grupo de melancias, melões, ou cestos de uvas ou figos. 

Obviamente, a existência deste casto e inocente clube era alvo de grande especulação e algumas calúnias. E foi assim que, numa noite, uma das amigas, a quem o pai queria demonstrar a maldade dos rapazes, foi levada por ele a esconder-se perto da ladeira que os rapazes subiam até chegar ao clube, para ouvir as suas intenções. Ao que parece, um querido amigo teve nessa noite o azar de se fazer acompanhar de dois rapazes estranhos ao grupo, que cantarolavam “vamos lá ao Pop Gato, gozar com as pop gatas”. Escusado será dizer que fomos forçados a encerrar portas no dia seguinte, e tendo as raparigas de ouvir, pela milionésima vez, que estava provado que os rapazes eram animais perigosos…

Estes “Amigos de Alex”, entretanto, também vieram a ser afectados pelo suicídio de um dos mais velhos. Era um rapaz muito pobre, de uma família da espécie de párias locais a que chamavam “sarranhos”, porque vinham sazonalmente das serras para fazerem os trabalhos mais duros, dormindo pelos barracões, até conseguirem juntar dinheiro para uma casa. Não gozando do estatuto de universitário, ao contrário da generalidade dos rapazes, foi mobilizado para a Guiné. Sabendo que essa mobilização era para muitos uma condenação à morte,  oferecemos-lhe um piquenique junto à cascata. Quando voltou, são e salvo, casou com uma rapariga ainda mais pobre do que ele, mas muito ambiciosa. Endividou-se, afectado pelo stress pós-traumático que vitimava tantos, pôs, com um tiro, fim à sua desgraça. Era o nosso Alex.

As vicissitudes da vida não fizeram mais do que fortalecer a nossa amizade fraterna. Todos sabíamos das nossas qualidades e defeitos. Que um era tresloucado, outra mentirosa compulsiva, outro um D. Juan que confessaria quarenta namoros antes do tardio casamento, outra uma rebelde sem emenda… Ninguém julgava ninguém, ninguém fingia ser o que não era.

E estávamos lá uns para os outros. Quando começaram os casamentos, quando chegaram os filhos, a casa dos já casados estava sempre aberta para albergar os ainda namorados, sobretudo quando os seus amores eram contrariados. Quando chegaram os divórcios, lá estavam os amigos a levar a pessoa mais chorosa a almoçar num bom restaurante e a ouvir-lhe as mágoas. Por vezes, ainda, a reorganizarem bailes de garagem na tentativa de conseguir par para os solitários com novos e insinuantes slows.

E, quando os amados filhos se tornavam amargas decepções, lá estavam os ombros amigos, os ouvidos atentos, os conselhos.

Todos, sem excepção, nos tornámos ecologistas. Não com o fanatismo dos tempos que correm, mas indignados com a destruição do nosso rio, transformado em triste leito de águas escuras e turvas, com limos castanhos e raquíticos peixes da mesma cor. Restava-nos a Serra de Aire, imponente e mística, mas temíamos que a esventrassem, como já tinham feito à Arrábida. Seguiram -se décadas, uma revolução, a progressiva decadência e a morte dos pais, o desconsolo de termos visto falhar o desenvolvimento que sonháramos para o nosso país.

Nesse remoinho, a nossa própria decadência (por enquanto apenas física), a perplexidade perante um mundo diferente, feroz, de gentes cada vez mais perdidas e agressivas. Um mundo frio, mas onde, felizmente, o calor da nossa sempre cúmplice amizade persiste e nos aquece ternamente a alma.


Isabel Pecegueiro

* A autora usa a norma ortográfica anterior.

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Latest comments

  • Texto que mostra muito bem uma época, historicamente recente, mas
    que parece longe vários anos luz.
    Muito sugestiva a imagem e o link ao trailer do filme.

    • É vintage😊. Muito obrigada!

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