O Sistema de Saúde no Pós-Covid19: o regresso à crise crónica?

Na análise de impactos da Pandemia do Covid19 sob os sistemas de saúde Europeus devemos assumir uma visão equilibrada entre efeitos negativos e as oportunidades para o Futuro.

Entre os efeitos negativos, destaco o colapso das cadeias logísticas no fornecimento de materiais e equipamentos de protecção individual para ambos os profissionais de saúde e para os utentes e cidadãos, assim como para as vacinas. Este colapso confirma-se através dos processos especulativos e fraudulentos verificados em alguns materiais de protecção individual (sobretudo máscaras e ventiladores). Para elucidar, em fevereiro de 2020 estavam empresas europeias a vender à China máscaras N95 a 9 euros (sendo o seu preço original abaixo habitual de 0.80 euros). Essas máscaras chegaram a ser revendidas online na China a 16 euros por máscara. Em abril de 2020, a situação inverteu-se e intermediários chineses estavam a vender mascaras N95 aos Europeus por preços semelhantes. O mesmo foi verificado em todos os outros materiais de protecção individual colocando em risco os profissionais de saúde e os cidadãos.

Um outro efeito negativo, foi a constatação da falta de preparação dos decisores políticos na gestão de emergências de doenças transmissíveis, confirmável através do atraso com que a maioria das medidas foram implementadas, desde o momento do início do fenómeno (em janeiro 2020) às primeiras medidas de intervenção (março 2020) e pela inexistência de sistema efectivo de decisões baseadas na evidência. As decisões políticas foram sobretudo baseadas na pressão mediática e nos efeitos das sondagens de opinião na popularidade dos governos. Poucos Estados Europeus conseguiram implementar as medidas conforme a evidência cientifica disponível. Neste aspeto destacou-se sobretudo a Suécia. Outros estados tentaram, mas sucumbiram à pressão mediática “populista”. Por outro lado, os decisores falharam pela chocante negligência a que submeteram todos os outros doentes, nomeadamente os doentes crónicos, que ficaram sem acesso aos serviços de saúde, conforme as suas necessidades efectivas. Esta foi uma das mais preocupantes falhas da gestão do sistema de saúde.

Que lições para o Futuro? Entre uma diversidade de questões de gestão em saúde relevantes para evitar as mesmas falhas graves, impõem-se a introdução de medidas, assumindo-se que novas Pandemias acontecerão e que os sistemas de saúde não podem cometer os mesmos erros repetidamente. Indico para o debate, algumas dessas ideias em formato simplificado:

– Reforço das estruturas de saúde digital (sobretudo de apoio no domicilio aos doentes crónicos) e soluções de Inteligência Artificial;

– Reforço efectivo dos serviços de cuidados domiciliários de saúde;

– Investimento maciço em Literacia em Saúde (a baixa literacia gerou todo o tipo de perceções erradas durante a Pandemia do Covid19);

– Reforço da colaboração entre os sectores público, privado e social na promoção da sustentabilidade das várias respostas dos sistemas de saúde;

– Rever o papel dos Seguros de Saúde nas respostas às Pandemias e respectivas coberturas de risco para os profissionais e para os cidadãos;

– Definir cooperação estratégica com a industria farmacêutica no sentido da partilha de informação para um planeamento eficiente (Big Data Management).

Relativamente ao sistema de saúde em Portugal, assumindo a validade destes desafios para o seu Futuro, devemos ter noção das suas fragilidades especificas de longo prazo. Nomeadamente, o baixo nível de sofisticação da gestão hospitalar no sector público, os elevados índices de infecções na prestação dos cuidados de saúde, a incapacidade política de transferir grandes recursos do sector hospitalar para a comunidade e reforçar os cuidados de saúde primários, a restrição financeira na modernização do parque tecnológico na área do diagnóstico e a incapacidade de motivar os melhores profissionais de saúde a dedicarem-se ao sector público. Ou seja, o SNS regressará à normalidade da sua crise crónica. Business as Usual?

Prof. Paulo K. Moreira

Editor Cientifico internacional em Gestão e Políticas de Saúde (Taylor & Francis, Oxford, UK)

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  • Penso que se pode incluir também uma reflexão quanto a aplicações móveis (apps) que poderão ter um papel relevante no controlo de epidemias / pandemias, sobretudo no que toca a requisitos e legislação aplicável (RGPD).
    Em Portugal há uma dificuldade crónica em antecipar problemas. Aposta-se muito no improviso, e depois o tempo escasseia e os resultados são desastrosos!
    Andámos meses à espera duma app que ia facilitar a detecção de contágios. Depois de muitas discussões sobre “dados pessoais” e “privacidade”, apareceu finalmente uma solução que logo à partida peca por uma grande limitação : exige uma versão de sistema operativo muito recente!
    Então e quem tem um equipamento mais antigo, que não suporta essa versão ? Compra um equipamento mais recente !
    Todos sabemos que proliferam por aí montes de apps bem mais complexas e menos exigentes. Se a questão é o tempo de desenvolvimento, então há que antecipar os problemas em vez de correr atrás deles!
    Numa época em que os adolescentes se divertem a produzir pornografia com os TM oferecidos pelos pais, é estranho que a “privacidade” seja um entrave ao controlo da pandemia!

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