Editorial – O Polígrafo censor (atualizado)

O blogue Porta da Loja foi censurado pelo Blogger (Google). O José, que é seu o seu autor, também escreve no Inconveniente. O caso é o seguinte.

Em 6-3-2021, o José fez um poste “O Polígrafo grafado de burrice”. O poste foi denunciado ao Blogger (por alguém ainda não identificado), que o censurou, removendo-o da plataforma, como notou o José, ontem, 15-5-2021, no mesmo blogue.

O Polígrafo é um jornal verificador de factos (fact-checker) dirigido por Fernando Esteves, que, segundo Felícia Cabrita, no Sol, de 17-11-2019 (“Hospital de Santa Maria pagou 20 mil euros ao diretor do Polígrafo por um livro sobre o tratamento da hepatite C”), era, desde 2003, “com Pedro Coelho dos Santos, sócio da Alter-Ego, Lda., uma empresa de consultoria e comunicação, atividades incompatíveis com o jornalismo”. Acrescenta Felícia Cabrita que, no processo-crime Máfia do Sangue, o Ministério Público (MP)


“diz que a Alter-Ego prestou serviços de consultoria e assessoria de imagem a Lalanda e Castro, nomeadamente para controlo dos danos que as investigações do MP nos casos da Operação Marquês (sobre suspeitas de corrupção passiva, evasão fiscal e branqueamento de capitais praticados por Sócrates) e da Máfia do Sangue estavam a causar à sua imagem. Antigo quadro do INEM, há muitos anos que Pedro Coelho dos Santos assessorava também Luís Cunha Ribeiro, outro arguido na Máfia do Sangue, acusado de corrupção passiva, desde que este foi presidente da Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo e participou nas adjudicações de compra de sangue à Octapharma.”


Paulo Lalanda de Castro é arguido do processo Máfia do Sangue, que aguarda ainda a decisão instrutória do juiz Ivo Rosa no TCIC, arguido no processo Marquês em negócios rocambolescos de José Sócrates.

O Polígrafo é propriedade de Fernando Esteves e do banqueiro são-tomense N’Gunu Olívio Noronha Tiny (espaventoso colega de Carlos Feijó e muito próximo de José Eduardo dos Santos). Segundo refere Felícia Cabrita, no Nascer do Sol, em 17-11-2019, “segundo os autos da Operação Marquês”, Fernando Esteves “avisara em 2014 um jornalista amigo de Sócrates, Afonso Camões, da iminência da detenção do antigo primeiro-ministro”.

O José deu conta da censura do seu poste, em 15-5-2021, e noticiou-a no poste “A vergonha do Polígrafo”, na Porta da Loja.

E explica o caso num poste seguinte, “A falta de vergonha do Polígrafo”, ainda de 15-5-2021:

O que se escreveu no postal era que a citação apócrifa [de Marcello Caetano] que circulava pela net era isso mesmo, apócrifa, mas apenas em parte e no essencial era verdadeira.”

Após protesto, o poste em causa foi ontem restabelecido (“reinstated”) pelo Blogger, conforme indica o José. Mas o Inconveniente nota agora (16-5-2021) que a censura foi retomada e o poste novamente removido.

Esta segunda censura do Blogger, possivelmente por queixa do lado do Polígrafo, ocorre após uma mensagem raivosa, verrinosa e arrogante, do próprio Fernando Esteves, ao José.

Que o Inconveniente saiba, é a primeira vez que um poste de um blogue alojado no Blogger é censurado em Portugal. O Porta da Loja é o blogue, principalmente dedicado a temas jurídicos, com maior notoriedade e prestígio no País.

Ao verificador de factos Polígrafo tem sido imputada com frequência a falsidade de análise e, sistematicamente, o enviesamento político-ideológico nas suas publicações. Todavia, a censura é intolerável no jornalismo. Quem não gosta do que dizem de si responda, em vez de se portar como um rapaz que leva um tabefe de um colega por ter feito algo ofensivo e, porque perdeu, vai vingar-se a fazer queixinha aos pais para punirem “aquele menino que me bateu”…

Um jornal armado em censor é uma vergonha do jornalismo, atividade nobre que tem como lema a liberdade. É uma infâmia que jornalistas persigam a liberdade de expressão dos outros.


Pós-Texto (13:48 de 17-5-2021): Numa versão anterior deste artigo, ontem publicada, escrevi que Fernando Esteves foi assessor de imagem de Paulo Lalanda de Castro, referindo a reportagem de Felícia Cabrita, no Sol, de 17-11-2019. Nessa reportagem, Esteves “descarta-se” e diz que não foi ele, mas Alter-Ego:


“Dei-lhe autorização [a Coelho dos Santos] para faturar através da empresa as suas atividades privadas, mas eu nunca soube quem eram os seus clientes. E ele nunca me disse que trabalhava para Lalanda e Castro e Cunha Ribeiro. Eu cometi aqui uma imprudência: já devia ter largado a empresa há muito tempo. Não tenho como negar isso.”


O diretor-adjunto do Polígrafo, Gustavo Sampaio, escreveu-me ontem, 16-5-2021, a dizer que o Polígrafo não fez qualquer tipo de queixa relativamente ao conteúdo em causa (tal como já garantiu em resposta ao visado), dizendo-se “completamente alheio a essa situação”. Por isso, emendo o artigo nessa parte: não é conhecida a identidade dos denunciantes ao Blogger sobre o poste do José na Porta da Loja. Denunciantes no plural: quero crer que o Blogger não remove conteúdo por haver somente um denunciante. Como Gustavo Sampaio desmente que tenha sido “o Polígrafo” a queixar-se ao Blogger e Fernando Esteves escreveu ao José, da Porta da Loja, a afirmar que “não fazia ideia do que aconteceu e de qualquer modo não se incomodou nada com a censura“, pois, “nem V.Exa. nem o seu blogue são suficientemente relevantes para que nos preocupemos com o que partilha com os seus seguidores”, ficamos nesse desmentido.

Não se sabe quem são os denunciantes que se queixaram ao Blogger do poste do José nem quem foram os denunciantes (os mesmos?!…) que, após revisão do Blogger que restabeleceu o poste, voltaram a queixar-se, o que provocou que o poste foi novamente censurado. Não se sabe se a identidade dos denunciantes, e redenunciantes, tem qualquer ligação ao Polígrafo ou aos seus jornalistas. E seria muito interessante saber porque no Inconveniente não apreciamos non-denial denials que deixam quem os soletra com pimenta na língua.

No Inconveniente, voltaremos mais tarde a este assunto da censura e do Polígrafo. Reparo que também Pedro Almeida Vieira, do Farol XXI, está sob fogo do Polígrafo


António Balbino Caldeira
Diretor

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Latest comments

  • É só mais um caso de gente arvorada em sacerdote da verdade, a atirar pedras para o ar esquecendo os seus “telhados de vidro”!
    A propósito duma notícia perturbante do Angola Online, pedi uma verificação ao Polígrafo, até porque estaria em causa a defesa da honra da SIC (parceira do Polígrafo), mas até à data não consegui ver qualquer análise relacionada com o assunto!
    Resta-me portanto, ler nas entrelinhas, e concluir que a acusação feita na notícia do Angola Online seja tão verdadeira, que seria difícil ao Polígrafo enviesá-la, e por isso prefere ignorá-la!
    A cópia do email com o pedido de verificação foi publicada aqui : https://blasfemias.net/2021/02/15/isto-ja-foi-desmentido/#comment-2322463

  • António:
    Tanto quanto me apercebi até agora, o postal em causa foi recolocado e não voltou a ser censurado.

    Quanto ao papel do tal Polígrafo o director do sítio, F. Esteves disse-me em mensagem que lhe comuniquei iria ser publicitada na sua essência, que nada tivera a ver com o caso.

    Não sei se teve ou não mas costumo acreditar no que me escrevem a dizer, até prova em contrário.

    Em relação ao Polígrafo, ficarei atento às suas “démarches” e ao seu funcionamento estatutário bem como resultados que sejam conhecidos. Não por causa disto mas porque o sítio se tornou suspeito de manipulação de informação, assumindo precisamente os vícios de informação que pretende combater. Só por isso.

    Abraço.

    PS: publico aqui este esclarecimento para ser público e só porque li a notícia agora.

    Para quem não saiba a minha colaboração no Interveniente tem sido mais moral que outra coisa porque apenas consegui publicar um artigo de opinião. Tenho dificuldade em escrever e publicar algo nos sítios alheios, até comentários.

    Abraço e obrigado pela atenção.

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