O paradoxo dos números

Desde os tempos antigos, a humanidade teve necessidade de criar e utilizar os números para organizar e compreender o caos da realidade. Não me refiro à matemática em si mesma – amada por poucos e odiada por muitos -, mas a algo mais simples e acessível. Os números são imprescindíveis na nossa vida quotidiana: saber a quantas andamos, quando devemos esperar os parabéns, chegar a horas a um encontro, reivindicar que o nosso carro anda mais e gasta menos do que o do vizinho… Só para citar alguns exemplos comezinhos fora da alta finança, da ciência, dos mercados e dum certo snobismo culto que prevalece em muitos sectores.

Mas, a par da evolução da sociedade, evoluíram também rapidamente os números.

Tornaram-se sofisticados, requerendo tradução simultânea do tecniquês, hiper-abstractos, atingindo o máximo nos textos de política e economia, soberbos quando se julgam senhores da suprema verdade do mundo, distantes porque exprimem e adquiriram uma força e uma influência alienantes sobre os povos.

Nesta overdose de números prepotentes em que vivemos, desejosos de serem entendidos, perdeu-se, paradoxalmente, a capacidade basilar do cálculo mental: a geração digital não sabe a tabuada e a geração analógica já quase a esqueceu. Duvida-se da própria cabeça, sem pestanejar sequer, calculadora e telemóvel que façam as contas!…

O dilema hoje, muito pouco hamletiano, poderá ser assim enunciado: poder dos números ou números ao poder?

No primeiro caso há que ter atenção porque, como alguém escreveu “Os números, sob tortura, confessam tudo o que se quiser”.

No segundo caso impõe-se uma reflexão. Escrevia Trilussa:

Conto pouco, é verdade:
Dizia o Um ao Zero –
– Mas tu o que é que vales? Nada, mesmo nada,
– Quer na acção quer no pensamento
Permaneces uma coisa vazia e inconcludente.
Eu, pelo contrário, se me meto à frente
De cinco zeros iguais a ti,
Sabes quanto valho? Cem mil.
É uma questão de números. É mais ou menos
O que acontece ao ditador
Que cresce em potência e valor
Quanto mais forem os zeros que o seguem.

Tradução livre do poema Números, de Trilussa, poeta, escritor e jornalista italiano (1871-1960).


Maria J. Mendes,
Pessoa ecléctica com uma paixão não correspondida pela psicologia, livre pensadora sobre tudo o que é humano

*A autora usa a norma ortográfica anterior.

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Latest comment

  • Na ortografia de 45 é «ecléctico».
    Cumpt.s

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