O pânico em Bruxelas

Após semanas de protestos dos agricultores na Europa, assunto que os meios de comunicação dominantes tentaram esconder e só muito tarde e de forma distorcida referiram, eis que se notam sinais de fraqueza e cedência da Comissão Europeia (CE) em relação a algumas das preocupações dos agricultores.

Embora estas preocupações possam variar de país para país, têm em comum a resistência às imposições burocráticas de Bruxelas, assentes na narrativa climática e ambiental, isto é, a redução das emissões de gases de efeito estufa, promoção da biodiversidade, menor uso de pesticidas e fertilizantes, etc.. Mas estas imposições não afectam os produtos importados, tornando estes muito mais competitivos em relação aos produzidos na Europa, como acontece por exemplo com os cereais da Ucrânia e com produtos de países da Mercosul e outras origens onde a produção agro-alimentar não está sujeita a regras climático-ambientais semelhantes.

A redução de gases de efeito estufa serve de desculpa para encarecer os combustíveis e os fertilizantes, para mandar abater gado na UE, para reduzir as áreas cultivadas e para expropriar terrenos agrícolas, para reduzir subsídios que visam compensar perdas na produção, para aumentar a burocracia com certificações, estudos, medidas sanitárias, etc., dificultando bastante a vida dos agricultores europeus.

Ao observar os tractores a percorrer as ruas das suas cidades contra a política agrícola comum (PAC), os políticos de esquerda europeus temem perder protagonismo, com as eleições europeias à porta. Talvez por isso os agricultores tenham obtido a sua primeira “vitória” quando a presidente da CE, Sr.ª Von der Leyen, veio recentemente informar os Estados-Membros do adiamento por um ano de uma regra sobre os pesticidas, destinada alegadamente a proteger a biodiversidade e a saúde do solo. Outras concessões têm sido feitas aos agricultores por parte dos respectivos governos mas até agora estas concessões não contribuíram para pôr fim à agitação uma vez que também vão no sentido de adiar medidas ou de prometer apoios que em parte já deviam ter sido pagos. Ou seja, houve uma cedência da CE, mas não um abandono da narrativa climático-ambiental que apenas sofreu uma pequena derrota.

Estes protestos dos agricultores europeus são o culminar de uma crescente revolta conectada a posições de partidos da direita que vêm denunciando há meses o “acordo verde europeu”, mas convenientemente referidos nos meios de comunicação dominantes como partidos de extrema-direita por serem “negacionistas” da narrativa climática. Com a aproximação das eleições europeias e com a direita em ascensão em vários Estados-Membros, os grupos verdes (que substituíram a “luta de classes” pelo “combate às alterações climáticas”) temem que o enfraquecimento das regras climáticas e ambientais exigido pelos agricultores encontre cada vez menos resistência dos políticos de esquerda que os apoiavam, receosos de perder o poder e obrigados a fazer cedências face à revolta em curso.

Resta saber se esta revolta dos agricultores contra a política climática irá ter repercussões noutros sectores e captar o apoio generalizado do público. Nas mais recentes eleições europeias, estas políticas desempenharam um pequeno papel na campanha eleitoral, tendo ficado atrás de outras questões como a imigração ou o desemprego.

O certo é que uma mudança para a direita no Parlamento Europeu significaria mais assentos ocupados por quem não leva a sério as alterações climáticas e duvida da necessidade das acções para as travar. Embora as políticas que compõem o acordo verde europeu já tenham sido em grande parte aprovadas, algumas de forma diluída ou adiada, as eleições de Junho próximo poderão inclinar a balança a favor dos que defendem a revogação total das regras da PAC. Até agora, só os agricultores têm protestado nas ruas contra as políticas climáticas da Europa, para além de algumas vozes desgarradas no Parlamento Europeu.

Henrique Sousa

Editor para Energia e Ambiente do Inconveniente

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Sub-diretor do Inconveniente

Latest comments

  • Bruxelas não me diz nada! Nem sequer fui ouvido para a adesão a esse grande panelão onde os parasitas se vão refastelar, mas gostei de ver a capacidade de iniciativa dos agrários tugas.
    Inorgânicos ou desorganizados, mas sobretudo sem “assessores de imprensa” que lhes digam como posicionar as fuças perante as lentes ávidas de assunto para colmatar os vazios televisivos, eles abanaram o sossego da fala barato de Abrantes .
    É isto que o povo tuga tem de bom! Quando os representantes (democráticos ou não) falham, eles assumem o comando e vão à luta!
    Os acomodados de S. Bento que se cuidem, já faltou mais para que aquilo seja ocupado com cabras, suinos e vacas!

  • Discordo do último parágrafo. Detesto redundâncias.

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