O padrão de Ascenso Simões

O deputado socialista Ascenso Simões, no Público, de “O salazarismo não morreu” (acesso pago, mas cujo resumo pode ser visto no Zap), no qual defendeu que o Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, deveria ser destruído enquanto “monumento de um regime ditatorial” e afirmou que na revolução do 25 de abril de 1974 “devia ter havido sangue, devia ter havido mortos”. Estas declarações absurdas, cuja oportunidade só se compreende pela necessidade de escândalo para obter mais algum tacho político, foram jocosamente glosadas por Luís Sena de Vasconcelos, em 22-2-2021, no blogue Porta da Loja, do José, que também é colunista do Inconveniente. Lembrei-me de dois escritos meus, no meu blogue Do Portugal Profundo, o primeiro de 5-6-2006 e o segundo de 17-9-2020, que convém respigar sobre tal personagem.

“Queres que assine por ti?

Do Portugal Profundo, 5-6-2006

O secretário de Estado da Administração Interna, Ascenso Luís Seixas Simões, ex-secretário da mesa da Assembleia da República, uma rising star do Governo, faz hoje, 5-6-2006, notícia (que transcrevemos, pela sua importância) no Correio da Manhã, juntamente com o seu amigo Paulo Pedroso. Não consta que, desta vez, tenha mandado retirar o jornal das bancas, como se alega que terá feito ao “Jornal de Notícias de Vila Real”
Se vivêssemos num Estado responsável, o secretário de Estado seria imediatamente demitido, mas nós sabemos que neste Estado os abusos dos políticos não são punidos. Paulo Pedroso, cujo casamento em segredo foi noticiado pelos jornais, encontrava-se, segundo disse a sua mulher, ao PortugalDiário em viagem para a Roménia e não se conseguiu colher-lhe uma reacção ao assunto.  
Um membro da bancada do PS na Comissão de Ética (!) terá dito que “até pode haver justificação plausível para este caso”… Não faz sentido a utilização defensiva do advérbio pelo senhor parlamentar socialista, pois o País todo sabe que existe de certeza uma “justificação plausível” para estes casos: a falta de vergonha e de respeito pela lei que os próprios deputados fazem. Acresce ainda um facto mais grave, nessa altura Ascenso Queres-Que-Assine-Por-Ti Simões era Secretário da Mesa da Assembleia da República, função, que exerceu de Abril de 2002 a Setembro de 2004, em que tinha a obrigação do controlo de presenças, conforme estabelece a alínea a) do art.º 29.º do Regimento da Assembleia da República:

“Artigo 29.º (Secretários e Vice-Secretários) 1 – Compete aos Secretários o expediente da Mesa, nomeadamente: a) Proceder à verificação das presenças nas reuniões plenárias, bem como verificar em qualquer momento o quórum e registar as votações;”

Mas o furo do Correio da Manhã não penetrará o muro da imunidade política. Se o Estado fosse sério em vez de corrupto, a folha de presenças desse dia seria peritada pela PJ – aliás, as folhas de presença dos últimos anos, desde que surgiram suspeitas públicas de que poderia haver falsificação de assinaturas no Parlamento. Se os serviços da AR atestam que Paulo Pedroso esteve presente na sessão plenária de 23 de Abril de 2003 e as dúvidas permanecem, julgamos que será fácil dissipar as suspeitas: basta consultar o video desse dia que o Canal Parlamento tem gravado, analisar também a folha de presenças desse dia para comprovar que não houve falsificação e que a assinatura que lá consta não é de Ascenso Simões mas do próprio Paulo Pedroso. Se houver falsificação, tem de haver demissões. Tem, ou teria… Não tenho a mínima confiança no Presidente do Parlamento ou nos seus órgãos de gestão. A notícia é esta.

“AR: Exame pericial da PJ a telemóvel em 2003
Ascenso quis evitar a falta de Pedroso

Bruno Contreiras Mateus, CM, 5-6-2006

Queres que assine por ti a folha de presenças? Ascenso.” Esta mensagem escrita foi enviada, na tarde de 23 de Abril de 2003, pelo actual secretário de Estado da Administração Interna, Ascenso Simões, ao então colega da bancada parlamentar socialista Paulo Pedroso. O registo consta de um exame pericial da Polícia Judiciária ao telemóvel de Pedroso.
“Não me recordo da situação”, afirmou ontem ao CM o membro do Governo de Sócrates. Segundo os serviços da Assembleia da República (AR), “o sr. deputado Paulo Pedroso esteve presente na reunião plenária de 23 de Abril de 2003”.
O CM tentou contactar o ex-deputado, que se encontrava ontem, segundo a sua mulher e deputada do PS, Ana Catarina Mendes, “em viagem para a Roménia”. Apesar de Ascenso Simões não se recordar da mensagem que enviou a Paulo Pedroso (ver entrevista), o ex-secretário da mesa da AR diz que, por várias razões, alguns deputados presentes em sessões plenárias se esquecem de assinar a folha de presenças.
José Matos Correia, presidente da Comissão de Ética (CE) da AR, considera que “em nenhuma circunstância é aceitável que um deputado assine a folha de presenças por outro”. O deputado do PSD não comenta o caso. Só que acrescenta: “Não me passa pela cabeça que isto aconteça.” Luís Rodrigues, também do grupo parlamentar do PSD e membro da CE, defende que “assinar a folha de presenças por outro é enganar a ‘coisa’ pública. É, no mínimo, uma conduta incorrecta e que merece sanção política”.
Para um membro do PS na CE “até pode haver justificação plausível para este caso”. Luís Fazenda, do BE, considera “ilegal” alguém assinar a presença por outro deputado. Bernardino Soares, do PCP, não comenta e Mota Soares, do CDS-PP, não estava ontem contactável.
‘NÃO SE TRATAVA DE QUALQUER ASSINATURA’
Correio da Manhã – Recorda-se desta situação?
– Ascenso Simões – Não.
– Parece-lhe aceitável que um deputado assine a folha de presenças por outro?
– No exercício da função [de secretário da Mesa da Assembleia da República] verificaram-se algumas situações em que senhoras e senhores deputados, tendo estado ou estando presentes na sessão plenária, não haviam assinado o livro de presenças. Nessas circunstâncias era assinalada a presença do deputado com um ‘P’. Não se tratava de qualquer assinatura. Também em situações em que uma senhora ou um senhor deputados que entrassem durante a sessão, como aconteceu algumas vezes com os senhores deputados que integravam as direcções de grupos parlamentares, era assinalada a presença na folha ‘rosa’.
– Considera esta situação leal perante o eleitorado?
– As circunstâncias em que aconteceu foram as que se prenderam com o facto de uma senhora ou um senhor deputados terem estado presentes desde o início ou entrando a meio da sessão plenária.”

E um segundo escrito, mais recente, sobre uma atitude da mesma laia.

“A decência e a elevação de um ascenso político”

Do Portugal Profundo, 17-9-2020

O deputado socialista Ascenso Queres-Que-Assine-Por-Ti-A-Folha-De-Presenças Simões injuriou de «fascista» um cidadão que lamentou a sua altercação com agentes da polícia por insistir em passar uma barreira policial devido a obras junto da Assembleia da República, ontem, 16-9-2020, conforme vídeo difundido pelo CM. Segundo o próprio, até recebeu do guarda ordem de detenção, embora a PSP negue.
Ascenso Simões é useiro e vezeiro nestas cenas, a pedir meças ao socialista brasileiro Ciro Gomes. O CM, refere uma notícia da jornalista Maria Henrique Espada, de 15-3-2019, na Sábado, na qual esta refere o seguinte:

«O deputado Ascenso Simões enviou a uma funcionária parlamentar (entre outros) as intervenções dos deputados do PS por Vila Real. Esta pediu: “Agradeço que não enviem emails com este conteúdo.” Ascenso ripostou. “Sei (…) que é horrível haver deputados e que estes prestem contas. Mais, é lamentável que os funcionários, que só existem porque há deputados e porque há democracia, tenham que aturar estes e que aceitar aquela. Continuarei a enviar. Quanto mais não seja, porque está aqui para me ‘servir’ e para honrar o salário que os portugueses lhe pagam.”»

«Está aqui para me ‘servir’» é uma expressão de menosprezo que nem no séc. XIX um patrão diria a uma empregada doméstica. Aqui, tudo vale.

Ascenso cultiva a escrita, tanto com a tesoura de poda, ao estilo maneirista gongórico dos ministros do Supremo brasileiro, como com a charrua, como se pode observar num texto de 4-1-2019

«O atrevimento que este documento pode conter, ao controverter sobre a forma como os grupos parlamentares usam os recursos que a Assembleia da República lhes destina, poderá, numa primeira etapa, fornecer assomo, quiçá, leituras equivocadas.»

Este operacional de António Costa, como antes tinha sido de Jorge Coelho e de José Sócrates, escrevia em 9-8-2015, segundo citação do Observador, ter «um passado que não [quer] manchar» (sic) e «tenho pelo meu país o respeito de sempre ter feito política assumindo todas as responsabilidades de a fazer com elevação e com decência». «Com elevação e com decência»… 

Um político que, num país do centro e norte da Europa, se comportasse desta maneira de oferecer assinar por outro, de desprezo por funcionário e injúrias a cidadãos seria imediatamente afastado. No Portugal socialista é um herói promovido.”

Palavras para quê?!… É um artista socialista…


António Balbino Caldeira

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