O juiz e a farsa

A hipótese do juiz Castro andar a fazer teatro é absurda. Desde logo, porque ao confrontar o sistema na sua estrutura corre perigo de vida, e ninguém daria a vida por uma brincadeira, ou para não ter de usar uma máscara e fazer um teste.

Tratando-se de um agente político saído do seio do próprio sistema e pago para produzir um determinado efeito (desestabilizador, antagónico, de válvula de escape ao partidarismo reinante), teria de estar sob protecção do mesmo sistema, coisa que não acontece por um motivo: nem as chefias da polícia nem o regime parecem suportá-lo, demonstrando-o com uma forte campanha de ódio (rotulá-lo repetidamente de “negacionista”, retratá-lo como desequilibrado, etc.).

Outra possibilidade seria estar a travar este combate para se auto-promover, recorrendo a uma boa dose de loucura. Facto é que se encontra a um passo de ser afastado da judicatura, arriscando a sua carreira e a sua vida (além da dos seus familiares) por causa dos seus posicionamentos públicos.

Mas será que poderia estar mesmo a pensar no poder, por exemplo, numa candidatura a presidente da República, tendo encontrado na ideia de protesto anti-sistema uma montanha facilmente escalável em Portugal, uma vez que André Ventura não aproveitou o flanco abstencionista? Seria possível, mesmo considerando os riscos.

O plano de assalto ao poder não condiz, porém, com a sua postura ostensivamente agressiva, arrogante e impulsiva, que afasta a maior parte do eleitorado português, sempre preocupado com a moderação do discurso, normas de polidez e respeitos humanos (inclusive acima dos princípios morais); do ponto de vista da revolução armada, também muitos militares e agentes de segurança ficaram melindrados com o que fez à porta do Conselho Superior da Magistratura.

Mais parece que o seu plano é não ter plano algum: entrar à cotovelada desqualificando quem quer que se atrevesse como um corrupto do sistema e tirando proveito dos ataques dialecticamente, não obstante a sua inexperiência televisiva e amadorismo ao nível da comunicação – elementar, diria Ventura.

O episódio amplamente divulgado, em que o juiz interpela agentes da PSP, retrata bem esta tensão: entre alguém que falaria para as câmaras em busca de apoio para um projecto de poder pessoal e alguém que fala com a própria voz, colocada como poucas a partir do centro da sua personalidade, por muito desagradável e inoportuna que seja.

É certo que aquele diálogo, registado pelas câmaras do poder, pode tê-lo feito perder a popularidade que tinha vindo a conquistar nos últimos tempos – nomeadamente, com o ataque à imunidade política de Ferro Rodrigues, persona non grata e de alguma maneira o símbolo mais eloquente da urgência na mudança. Mas a questão é que se Castro estivesse muito preocupado com a sua reputação em Portugal, jamais a arriscaria daquela maneira.

Ao impor-se daquela forma, o juiz esperava apenas, segundo a sua própria versão, impedir que a polícia, já preparada com tropas especiais, não voltasse a agredir violentamente os populares que lá se encontravam pacificamente em seu apoio, como tinha sucedido em Abril, ao mesmo tempo em que passava a mensagem de que os recentes atropelos à Constituição e à subversão do Estado de Direito sob (cada vez mais) questionáveis pretextos sanitários, no frente a frente e olhos nos olhos valem pouco mais do que nada – e podemos admitir que conseguiu.

Era evidente: se carregassem sobre as pessoas, estariam a dar razão ao juiz, que posaria de defensor dos direitos individuais. Assim, fizeram com que perdesse aparentemente a razão, tendo sido facilmente descredibilizado como sobranceiro e louco.

Em todo o caso, o sistema mostrou, uma vez mais, o seu desejo de totalitarismo e violência: se os donos da polícia tivessem a oportunidade de mandar novamente os manifestantes para o hospital não hesitariam em fazê-lo. Como não conseguiram, o circo mediático atacou aquele que os protegeu, inclusive com a imputação de responsabilidade sobre qualquer tipo de violência que de agora em diante suceda contra a classe governante.

Por muito que discordemos da forma como Castro se expressa – situação que resulta num fortalecimento do PS de António Costa, ao ter novamente em quem depositar as culpas expiatórias que outrora cabiam ao CHEGA (que entregou a frente da contestação da pandemia a estes movimentos populares, por receio ou estratégia) –, o linchamento a que a imprensa sujeita quem quer que se oponha aos seus donos é de uma cobardia desprezível.

Finalmente, se quem manda de facto é a associação dos juízes e não o juiz individualmente, então o poder judicial não é mais do que a tautologia de um consenso gerado por quem nele se infiltrou e domina, uma ditadura encapotada, um grupo opaco semelhante a qualquer sociedade secreta – em suma, uma autêntica farsa.


Maciel Rodrigues

*O autor escreve segundo a anterior norma ortográfica.

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  • O certo é que o Dr. Juiz acabou evitando uma provável carga sobre os pacíficos civis que estavam no local para o apoiarem… Afinal os militares de boina tinham «ordens» exatas para fazer o quê?

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