O Homo Novus no seu infantário

Anda para aí um vídeo brasileiro a circular, que simplifica bastante o modo como, nas nossas sociedades afluentes, as últimas gerações lidam com a frustração.

No vídeo, homens de várias gerações ao sair por uma porta, batem com o ombro no umbral.

O mais velho, ignora e segue em frente, o seguinte esboça um trejeito, o que se lhe segue em idade diz uns palavrões e por aí adiante até chegar ao mais jovem, um latagão na casa dos 20, que dá saltinhos, emite gemidos e ais e uis, de queixa e dor.

É uma caricatura, mas em termos genéricos é um bocado assim que se desemboca numa actualidade habitada por uma nova espécie de sapiens: o Homo Novus.

Recorde-se que, na URSS, sob a batuta pseudocientífica das teorias de Trofim Lyssenko, a ciência comunista tentou fabricar o Homo Sovieticus, um sapiens desprovido de individualidade e todos os “defeitos” do individualismo, totalmente comprometido com o colectivo e os ideais comunistas, enfim, um equivalente humanóide da abelha obreira.

A experiência falhou, o Lyssenkismo acabou mal, e o Novo Homo Sovieticus não viu a luz do dia, apesar de duramente martelado na forja.

Talvez apareça na China, agora com outros métodos bastante mais avançados, inspirados nas ideias de “Brave New World”, de Huxley.

No entretanto o Ocidente, está a produzir uma espécie diferente de Homo Novus, caracterizado por exibir sem constrangimentos e até com orgulho, a sua condição de vítima

Todos querem ter esse estatuto, todos acham fofinho mostrar as fragilidades e os agravos, reais ou imaginários de que são vítimas, enfim, pelo menos no que ao mundo masculino diz respeito, mostrar a lágrima no canto do olho, mostrar que se sofreram traumas, vitimizar-se, como individuo ou comunidade, passou a ser visto como sinal de “crescimento” e pertença a uma categoria “avançada”, melhor e moralmente superior.

No mundo real é em criança que berramos, pedimos, choramos, imploramos, reivindicamos.

Aos pais, claro, que são quem nos protege e alimenta, porque são eles os adultos, os que têm poder, os “responsáveis”.

Depois crescemos, e percebemos que com a independência vem a responsabilidade de nos fazermos à vida, de enfrentar as consequências boas e más das nossas próprias decisões, de dormirmos na cama que fazemos, sem ter a quem nos queixar.

Ninguém nos vem meter a comida na boca, ninguém nos salva do bully do recreio, ninguém nos dá beijinhos no dói-dói.

Mas isso era antes.

Agora, em sociedades infantilizadas, nas quais o Estado assumiu o papel de pai, aspiramos a ser outra vez filhos menores, protegidos e alimentados, sujeitos ao arbítrio ou disposição do paizinho, que umas vezes nos aconchega, outras nos arreia, por vezes nos permite sair, de vez em quando nos manda ficar de castigo no quarto, e nos dá a mesada que entende, para nos manter sob controlo.

Para nossa segurança, claro, vá, veste a camisola, não te constipes.

Numa sociedade assim, quem não chora não mama e é por isso que as aptidões básicas para o sucesso passaram a ser as típicas de uma criança: reivindicar, chorar, pedinchar, fazer birra, vitimizar-se, etc. sob o olhar paternal do Estado que tudo tende a regular, incluindo o que devemos comer, vá menino, menos sal no pão, menos açúcar, anda, podes comer isto, mas não aquilo, ai, ai, tau tau se o menino fizer esta ou aquela maldade.

Como se infantilizam e castram tão facilmente gerações de adultos?

Com tempo, jeitinho e muita doutrinação, que amestrar pessoas não é o mesmo que amestrar um chihuahua.

Uma das tácticas passa pela literatura infantil que, hoje e dia, nada tem a ver com a que existia há uns anos, bárbara, cruel, insensível, traumatizante.

Hoje os piratas são boas pessoas, os crocodilos não passam de lagartixas engraçadas, os tubarões assumem-se como petingas sorridentes, as bruxas são afinal bondosas velhinhas que distribuem biscoitos, os dragões transmutam-se em fofinhos animais de estimação, que salvam o planeta, e os lobos já não comem a avozinha nem os porquinhos.

A formiga rabiga tem família do género alternativo, é transgénero e vítima de transfobia, a cabra cabrês é mãe solteira e é oprimida porque tem a pele da cor das vítimas cósmicas, os vampiros vivem vidas fantásticas e lacrimejantes histórias de amor, etc, etc.

As histórias antigas, que nos tempos do obscurantismo nos sacudiram com medo, excitação, raiva, frustração, indignação, paixão, alegria e tristeza, estão agora sujeitas a revisão ideológica e censura para se ajustarem ao cânone woke ou da correcção politica, enfim, da Verdade!

O Capuchinho Vermelho é de uma violência extrema, a Branca de Neve perpetua intoleráveis preconceitos de género, a Bela Adormecida é um repositório de machismo, o Tintim é profundamente racista, e até os textos clássicos são censurados e classificados como inadequados.

O Ulisses, caramba, branco, heterossexual, aquela sua faceta machista e violenta, a cegar o pobre ciclope, a enganar uma mulher que o queria só para ela, valhamedeus!

A Dalila, a tirar a força ao Sansão, uma história bíblica que perpetua vis preconceitos contra as mulheres, bem como o execrável Pavarotti a trautear a nauseante lírica “La donna è mobile, qual piuma al vento” (Rigoletto, Verdi).

As canções infantis em que já não se atira o pau ao gato, mas sim o pão, que ele não comeu, eu, eu.

Tudo tem de ser fofo, sorridente, amigável, alegre, assexuado, açucarado e filtrado.

Isto também é preciso, obviamente, mas não como narrativa exclusiva, porque é apenas uma face da moeda da vida real. A realidade tem isso e o seu contrário e tudo tem de estar presente na educação e aculturação.

Caso contrário, estamos activamente a converter milhares de crianças em imbecis mimados, irresponsáveis e irrecuperáveis, incapazes de lidar com a frustração, ofendidos por tudo e por nada, alheios ao lado escuro da vida, ignorantes do medo, da dor, do falhanço, da maldade, da tristeza e da morte.

Mas o mundo é, sempre foi e sempre será um local perigoso, à mercê de uma natureza implacável e aleatória, sem sentimentos, e no qual há pessoas francamente más.

Esconder às crianças que esse mundo real as pode atacar, maltratar, frustrar ou matar em menos de um fósforo, pode ser muito útil na infantilização de comunidades inteiras e no controlo das travessuras individuais mas, a prazo, é absolutamente suicida, porque uma sociedade não é um infantário, nem o sapiens uma abelhinha da colmeia.

Pagaremos caro este delírio…


José do Carmo

* O autor usa a norma ortográfica anterior.

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Latest comments

  • Um bom texto. Nāo é de admirar se estas crianças, habituadas a uma excessiva proteçāo açucarada, em adultos, vāo precisar sempre dum “tutor” que os guie nas escolhas da vita: padre, coach, psicanalista, leader politico…

    • É preciso criar a necessidade para incentivar a empregabilidade, ou seja a economia … daqui a uns anitos volta a moda do “small is beautiful” , depois volta o “pensar em grande” , …. são os ciclos da estupidez humana !

  • Simplesmente fantástico, este texto! Parabéns!

  • Sintomático de todo este exagero quer de agravos, quer de benesses, desta forma galinácea de viver, está a própria linguagem que recorre constantemente a adjectivos para qualificar qualquer treta irrelevante, usam-se palavras como “fenomenal”, “fabuloso”, “fantástico”, “maravilhoso” ou “horrível”, “horroroso”, “que medo” ou “detesto” para simplesmente descrever um bife mal passado ou umas batatas com pouco sal.

    Sociedade pouco saudável esta em que as mulheres querem ser como os homens e os homens tem medo de o ser. Em que o Ocidente tem vergonha do seu passado apesar de ter sido o protagonista de todos os grandes avanços do mundo, tirou continentes da idade da pedra, trouxe ao Mundo tecnologia para viajar á lua em vez de viajar de carro de bois ou barco á vela, desenvolveu conceitos como democracia, liberdade, humanismo,… Para quem gosta de ver as pessoas a preto e branco não seria também justo algum agradecimento de uns e orgulho de outros?

  • Muito bem… como sempre!

  • José do Carmo, até Hitler tentou essa jogada e foi por pouco que falhou (?). Todos os ditadores a jogam, basta ver aquelas assembleias da Coreia do Norte, aquilo tudo muito “formatadinho”, a bater palmas em uníssono, é uma coreografia de fazer inveja 🙂
    Mas a sua abordagem veio dar-me uma pista para um caso recente (muito posterior ao artigo), e por isso resolvi associá-lo aqui:
    – Será que aquele incidente da vacina Janssen em Mafra, com jovens a desmaiar, pode enquadra-se neste conceito que tão bem descreveu ?
    – E os incidentes dos recrutas comandos ?
    – Será que esta geração jovem está mesmo “imprópria”, e temos de rever rapidamente podo o processo da “cadeia de produção” ?
    – Será que a “geração rasca” afinal existe mesmo ?
    Pois eu apostaria nos 4xsim!

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