O grande Tiny

Um dos acionistas do Polígrafo, com 30% de participação, é o advogado e “banqueiro” N’Gunu Olívio Noronha Tiny, ex-homem de mão do presidente angolano José Eduardo dos Santos. Importa descobrir a teia de aranha mediática-financeira-política que tapa os interesses ocultos e restringe a liberdade de informação e opinião no País. Vamos procurar dilucidar o assunto.

Os restantes 70% do Polígrafo pertencem a Fernando Macedo Esteves, que também dirige a publicação e está ligado a outros negócios de uma constelação intrincada (Conta-me Histórias, Lda., Inevitável e Fundamental, Lda., Episódio Inédito, Lda., etc.), que também tem como acionista o Emerald Group, de N’Gunu Tiny, que o Pedro Almeida Vieira expôs, em 20-5-2021. Além do Polígrafo, no qual entrou com 30% do capital por um valor não revelado, e nas sociedades conexas de consultoria de comunicação, N´Gunu Tiny, ficou recentemente com a Forbes Portugal, que era detida pela Zap, de Isabel dos Santos, filha do ex-presidente, com direitos de publicação para a África lusófona.

Consta que foi num cofre do BES, em Lisboa, pertencente a N’Gunu Tiny, que foram encontradas as ações ao portador do falido BES Angola.

O BES Angola foi uma parceria desastrosa com BES nacional, montada por Ricardo Salgado, que contribuiu fortemente para a ruína da instituição financeira nacional. O BESA era liderado pelo angolano Álvaro de Oliveira Madaleno Sobrinho, da rica família Madaleno (ligada à família de José Eduardo dos Santos, como explicou a sua filha Tchizé, em 21-9-2018). O ex-presidente angolano foi criado pela família van Dunem e, aliás, “batizado como José Eduardo van Dunem“. A ministra portuguesa da Justiça, Francisca Eugénia da Silva Dias Van Dunem, nascida em Luanda, também pertence a este glorioso clã.

A família Madaleno, onde pontificam os irmãos Álvaro, Emanuel e Sílvio, radica a sua influência não só no poder financeiro, mas também nos média. Álvaro Sobrinho, e o seu clã de origem luso-angolano, é agora também protegido pelo novo presidente angolano João Lourenço. Note-se que, segundo o CM, de 3-5-2021, citado pelo jornal angolano Novo, a Procuradoria-Geral da República de Angola mandou arrestar contas e bens da família dos Santos e dos seus gestores e dos temidos generais Manuel Hélder Vieira Dias (Kopelipa) e Leopoldino Fragoso do Nascimento (Dino) que serviam José Eduardo dos Santos, mas não de Álvaro Sobrinho (apesar do desvio de centenas de milhões de dólares do BESA e do tesouro angolano) nem do ex-vice-presidente Manuel Vicente (que foi criado pela irmã mais velha de José Eduardo dos Santos, Isabel). A estrutura do poder em Angola, muito baseado nas alianças pessoais e familiares, está em constante evolução e fica rapidamente desatualizada.

N’Gunu Tiny é santomense e filho de um ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do arquipélago. Servia o então presidente angolano José Eduardo dos Santos, por via do seu antigo colega estudante de Direito na Universidade Nova de Lisboa, o todo-poderoso chefe da Casa Civil do presidente Carlos Maria da Silva Feijó, de quem era considerado “testa de ferro“. O ex-presidente de Angola foi sempre acusado pela Unita de ser originário de São Tomé. Foi escolhido por Eduardo dos Santos em 2016 para presidente do conselho de administração do Banco Postal, que este dera ao filho Danilo como presente de aniversário. Era nesses anos designado por “o novo Pierre Falcone“, título nada abonatório do traficante de armas que representava em França os interesses do presidente angolano que o livrou de pena de cadeia. Em 2018, o Banco Postal foi declarado falido, por insuficiência de capital, quando o poder mudou de turno.

O seu protetor Carlos Feijó está, alegadamente, envolvido no caso de doutoramentos a troco de diamantes na Universidade Nova de Lisboa, na operação Tutti-Fruti da Polícia Judiciária, em dezembro de 2020, na qual foi referido o conhecido professor Jorge Bacelar Gouveia. O doutoramento de Carlos Feijó, então ministro de Estado e chefe da Casa Civil do presidente angolano, obteve nota máxima, em 16-9-2011, segundo a RTP, na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, atribuída por um júri constituído por Rui Manuel Pinto Duarte (que presidiu), Jorge Bacelar Gouveia (o vogal orientador?), José Gomes Canotilho, Marcelo Rebelo de Sousa, José Van Dunem, Diogo Freitas do Amaral, Armando Marques Guedes e João Pedro Caupers (atual presidente do Tribunal Constitucional, indicado pelo Partido Socialista). Quando visitou Angola, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa filtrou, para o DN, em 25-9-2017, que iria encontrar-se, em agenda paralela com Carlos Feijó – em cujas provas para professor catedrático havia participado, em 2014 – numa demonstração de apoio para a reciclagem deste político, também velho amigo de Miguel Relvas, ao novo poder. Posteriormente, Carlos Feijó afastou-se da família Eduardo dos Santos e parece ter sido acolhido pela camarilha do novo poder.

N’Gunu Tiny conseguiu saltar do comboio do poder anterior, através de alegada delação de interesses de Isabel dos Santos (ver TSF, de 29-3-2021) e, como o amigo Feijó, procurou aderir ao vagão do novo presidente João Lourenço.

Tiny apresenta-se como o grande líder da sociedade de investimentos Emerald Group, que fundou em 2013, no Dubai, depois de ter criado em Londres a Eaglestone, outra sociedade de investimentos, que afirma ter gerido projetos com um “valor acumulado de 75 mil milhões de euros”, e ser consultor da Goldman Sachs e Carlyle – ver A Pública, de 7-1-2021. Afirma, no sítio do Polígrafo, hoje consultado, ser “investigador na London School of Economics e Visiting Scholar da Harvard Law School”. O jornal digital angolano Club K, de 26-1-2011, traça-lhe o perfil. Refere que, alegadamente, o advogado santomense Adelino Isidro disse, em março de 2010, que “N’Gunu Tiny e sua família se aproveitaram de fundos da Sonangol, destinados a vários projetos no país” e que ele e seu pai, Carlos, obtiveram “um milhão e 600 mil dólares” como resultado da venda de ações da Empresa Nacional de Combustíveis e Óleo (ENCO) à Sonangol. Passou depois, por via do amigo Carlos Feijó, a consultor da presidência e do governo angolano na área das obras públicas e dos petróleos. E, ainda de acordo com a mesma fonte, começou a apresentar em Lisboa um estilo de vida de “novo rico”, tendo oferecido à esposa um Bentley como prenda pelo nascimento de um filho.

A nebulosidade destes interesses justifica uma competente investigação para averiguar as movimentações de capitais, as participações cruzadas, os contratos, a troca de serviços, o abuso do Estado, os interesses estrangeiros.


António Balbino Caldeira
Diretor

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