O clima como pretexto

Baixar os impostos “verdes”, para reduzir a escalada no preço dos combustíveis e da energia?

Costa prometeu, Costa promete muitas coisas, com papas e bolos se enganam os tolos, mas Costa, da velha escola socretina, especialista em bolos para tolos, sabe que a memória do eleitorado é curta e que o Conto do Vigário continua a dar frutos.

E quando o encostam à parede, como aconteceu no Parlamento, chuta para canto, atira com insultos, sarcasmos, bravatas, mentiras, anúncios de bolos e slogans.

Neste caso, o slogan da “mudança climática”, como se o dinheiro que tira do bolso dos portugueses, fosse entregue ao “clima” ou ao “planeta”, certamente muito respeitáveis e excelentes criaturas, em vez de ir directamente para a compra de votos dos tolos, para a companhia aérea “estratégica ” do fabuloso ministro do Porsche, que nas horas poéticas recita Karl Marx e, vá lá, de bólides a gasóleo, para os ministros, boys, assessores e respectivas récuas se deslocarem a 200 à hora pelas estradas deste país reverente e agradecido.

Mas voltemos ao clima.

O que devia estar em causa na controvérsia sobre o clima era, essencialmente, o que fazer para compreender o clima no sentido de minorar ou antecipar mudanças que nos possam prejudicar, uma vez que qualquer pessoa com bom senso quererá que a sua/nossa casa comum se mantenha habitável e confortável por muitos e bons anos.

O problema é que o tema foi tomado pela irracionalidade, por um lado, e pelo maquiavelismo ideológico e político, por outro, com movimentos sociais e activistas vários a abordar o assunto de forma fanática e religiosa, acusando os “infiéis” de pecadores, negacionistas, mafarricos e inimigos da Natureza e da humanidade.

Quem são os “negacionistas”?

Apenas os tolinhos terraplanistas e teóricos de conspirações várias?

Não, o rótulo engloba também todos os blasfemos, todos os que se atrevem a questionar, mesmo dentro do paradigma do método científico, os dogmas sagrados, as “Verdades Consensuais”, e denunciam o fanatismo milenarista do apocalipse. Todos aqueles que não embarcam na cantilena simples e simplória de que nós, o capitalismo, a sociedade de consumo e a civilização industrial, o Ocidente, etc, estamos a “destruir o planeta”.

É que o planeta mesmo, esse está cá há mais de 4500 mil milhões de anos, tem vida e ciclos próprios que dependem tanto de nós, acabadinhos de chegar à sua superfície, como um lagarto depende do câmbio da libra.

Neste intolerante messianismo climático convergem visões enviesadas da ciência dos modelos que tendem a criar o pânico pelo sublinhar dos piores cenários, o ecomarxismo, que usa esta causa para renovar o seu sempiterno objectivo de “liquidar o sistema capitalista” e uma alargada bovinidade das massas, que gostam de ser apascentadas e protegidas dos grandes e imaginários males.

Os netos de Marx, os fiéis da Greta, os intelectuais orgânicos do comunista Gramsci, e um crescente rebanho de palermas e preguiçosos mentais, unidos contra o “Grande Capital” que preda o planeta, propondo-se acabar com o capitalismo, refazer a ordem global e mudar os sistemas políticos no sentido do autoritarismo, para o “bem geral”, obviamente, com certeza….

Estou a simplificar? A exagerar? A tecer teorias da conspiração?

Não!

Apenas a sintetizar a tese do cromo da New Left, a senhora Naomi Klein, grande admiradora de Hugo Chavez, antissemita encartada, “activista pela “justiça climática”, etc., etc., enfim o prato todo, exposta com notória candura no livro “This Changes everything”, um dos evangelhos da Nova Igreja Ecomarxista do Fim dos Tempos.

O milenarismo climático da sra Klein e dos alucinados que navegam no mesmo barco, invoca como mandato moral, nada menos do que a salvação do planeta, o derradeiro oprimido às mãos do opressor cósmico, o homem ocidental e a civilização que criou.

A esquerda está sempre, como se sabe, em missão urgente para salvar qualquer coisa que esteja a dar mas, como fenómeno religioso que é, sofre desde logo o irritante paradoxo de apelar à vontade abstracta do cidadão em estar do lado do “bem” e da “justiça” (é bom ser um salvador do planeta, dá likes no Facebook e tudo), ao mesmo tempo que choca com a sua pouca vontade de pagar com língua de palmo as despesas concretas que os “salvadores” lhe pedem (impostos verdes, taxas de carbono, os olhos da cara pela gasolina, etc., etc.)

Apesar de tudo o tema vinga e assusta, porque as pessoas, principalmente os jovens e os rebanhos ignaros, tendem a processar muito economicamente a informação, assim pela rama e assente em slogans carregados de palavras bonitas  como “justiça” e outros eufemismos lubrificantes.

É tudo muito simples, muito intuitivo e agrada às pessoas estar do lado certo, pelo menos de boca.

Tudo se resume, na cabeça da maioria das pessoas, a explicações baseadas numa só causa (o CO2 de origem industrial), na busca de soluções rápidas (para salvar o planeta, anda-se de transportes públicos, paga-se impostos verdes e sacos de plástico no supermercado, ou exige-se que se “faça alguma coisa”) e na adesão a um fatalismo tremendista que reforça a angústia e acentua o radicalismo dos crentes, perante o “inevitável” Armagedão (só temos alguns meses, alguns anos, vem aí o ponto de não retorno, vamos morrer afogados, etc.), repetidos a intervalos, a propósito e a despropósito, a pretexto de um dia quente, um dia frio, um estudo não sei de quem, etc.).

A verdade é que se sabe pouquíssimo sobre a complexidade do sistema climático, mas o preço da irracionalidade e do desconhecimento parece baixo porque as pessoas tendem a considerar correcta a sua visão moral do mundo.

Ou seja, ser politicamente correcto é barato e dá autoestima e likes, o que ajuda também a explicar a facilidade com que o culto climático arrasta milhões de pessoas atrás dos flautistas de Hamelin.

Elas acreditam estar do lado do “bem” e é disto que a coisa vai: de uma luta entre o “Bem” e o “Mal”, embora o seu dia-a-dia tenda a desmentir as grandes abstracções da retórica, assim como o célebre Frei Tomás, ouve o que ele diz, não faças o que ele faz.

Não admira pois que o ecomarxismo apocalíptico seja notavelmente impermeável à racionalidade económica (o custo beneficio das medidas).

E as elites políticas?

As massas fervorosas que aderem às manifestações climáticas tenderão a votar e a castigar quem não respeite, pelo menos verbalmente, os seus dogmas. Há pois, por parte dos políticos cínicos (dos alucinados climáticos é melhor nem falar, apesar de começarem perigosamente a assumir cargos de decisão), uma navegação à vista das eleições, enchendo a boca com a “mudança climática” a “transição energética”, a “justiça ambiental”, etc., e os mais lúcidos parecem resignados e impotentes para trazer para o campo da razão uma questão tão claramente sequestrada pela fé.

O clamor do culto climático está-se nas tintas para os enormes custos sociais e económicos da inevitável destruição dos fundamentos da economia de mercado, do bem-estar e da prosperidade de milhões de pessoas em função de um objectivo inalcançável. (Lembram-se da Refinaria de Matosinhos? Dos preços desenfreados dos combustíveis e da energia? Da destruição paulatina do sistema de mercado no sector de energia, com a inevitável falência de fornecedores e, a médio prazo, de entrada massiva de grandes números de consumidores, na vala comum das “tarifas reguladas”, isto é, pagas com o dinheiro dos impostos e do endividamento das gerações seguintes?)

Basta atentar no “New Green Deal” proposto pela extrema-esquerda americana e as intenções dos alucinados climáticos de  declarar “emergências climáticas”, com o fim de impor draconianas e autoritárias restrições que irão sempre no sentido de destruir a liberdade individual e a democracia.

É exactamente, mutatis mutandis, o que aconteceu nas distopias comunistas, da URSS à China maoísta, passando pela Europa de Leste, Cambodja, Venezuela, Coreia do Norte, etc, em que milhões de pessoas foram sacrificadas em função de objectivos tão evidentemente “bons”, na cabeça dos alucinados, como inalcançáveis, no mundo real.

O culto climático cria também poderosos incentivos para conseguir fundos estatais (dinheiro dos impostos) a quem, por convicção ou medo, não quer ficar de fora de uma Igreja que “defende o futuro” e que, não tendo viabilidade económica de per si, exige a elevada subvenção estatal, via impostos e taxas  “verdes”.

Convém também perceber que os devotos da Greta são a versão pós-moderna dos jovens do Maio de 68.

Estes, filhos mimados da burguesia urbana, protestavam contra a “sociedade de consumo” e a “alienação capitalista”, na qual viviam como peixe na água, e aqueles protestam também contra o capitalismo e desta vez porque “destrói o planeta”, ao mesmo tempo que não dispensam e exigem aos pais os seus atractivos produtos, liberdade e serviços.

Os do Maio de 68 tinham o apoio de um marxismo em plena euforia propagandística e os novos “rebeldes”, crianças e jovens a quem nunca faltou nada, têm como compagnons de route, toda a horda da chamada Nova Esquerda, composta, maioritariamente, de uma burguesia urbana que se acredita “esclarecida” mas que é, na maioria dos casos, constituída por ignorantes letrados, inacreditavelmente permeável às narrativas simplistas desde que tenham um cunho moral maniqueísta.

Ontem como hoje o protesto é nihilista, não oferece nenhuma alternativa real, apenas berra que “é preciso fazer algo”.

O problema é que esse “algo” implica destruir o modelo social, económico e político em que vivemos. Sim, eu sei que este sistema é o pior, à excepção de todos os outros, mas é simplesmente o melhor que alguma vez o homo sapiens decantou, desde que vagueia pelo planeta.

Mas instrumentalizar o clima e as crianças é sempre uma faca de dois gumes: por um lado chama a atenção para uma “causa” mas, por outro, se uma parte da população se aperceber que o clima é apenas um pretexto para atacar a ordem liberal, não tarda a suspeitar dos dados que lhe são apresentados como razão para lhe ir ao bolso e intervir na sua liberdade de escolha (como por exemplo, fez o Reitor da Universidade de Coimbra, proibindo o consumo de carne de vaca). E usar figuras hipsters como a pobre e perturbada Greta, tem os seus custos, porque incomoda muitas pessoas normais, que facilmente percebem ou intuem que a miúda está a ser manipulada e usada.

Para já, neste confronto milenarista, as forças da razão mal se ouvem, face a uma maré ruidosa de irracionalidade cujo eventual triunfo nos devolveria séculos atrás, à Natureza como ela é de facto, cruel, impiedosa, fria e cheia de terrores.


José do Carmo

* O autor escreve segundo a anterior norma ortográfica.

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Latest comment

  • Bem escrito, continua, as verdades são para se dizer.
    Os povos e nomeadamente o povo deste País ainda não conseguiram enxergar a realidade, porque se a enxergasse, muita coisa mudaria, nomeadamente um bem estar comum para todos.
    Enfim, enquanto o povo usar uma rede mosquiteira escura à frente dos olhos, não consegue ver nem distinguir o uso que estes políticos fazem deles, continuarão a votar de bandeira no ar, como se o sistema mudasse de repente, mas não muda enquanto prevalecer este interesse político.
    Antes do homo sapiens, já havia mundo, e a natureza deste mundo em que vivemos tem milhões de anos em desenvolvimento, pela força da natureza.
    O ser humano apenas é um instrumento da mãe natureza.

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