Nariz comprido e perna curta

Disse a fada: “As mentiras, meu rapaz, são imediatamente reconhecíveis, porque há duas espécies: há as mentiras que têm as pernas curtas, e mentiras que têm o nariz comprido: a sua é precisamente uma das que têm o nariz comprido.”

Collodi, Carlo (1881-1883). Le avventure di Pinocchio: storia di un burattino. Cap. XVII.

Tradução minha.

José Sócrates apareceu na CNN Portugal (ex-TVI24), em 21-1-2021, com o nariz ainda maior. O nariz de Pinóquio, como os comparsas do negócio do zonamento do Freeport o designavam, cresceu duas vezes: uma pela idade e outra pela mentira. É normal que o nariz aumente com a idade, pois a ponta cai e as narinas alargam. Mas no caso do ex-primeiro-ministro alongou-se ainda mais com a mentira, múltipla e refinada.

O alvo principal foi novamente o juiz Carlos Alexandre, sobre quem nesse mesmo dia terá sido apresentada, pela defesa de Sócrates, queixa por alegados crimes de “abuso de poder, falsificação por funcionário e denegação de justiça“, a que foi dado acesso a Filipa Ambrósio de Sousa da Advocatus by Eco (de 21-1-2022) um meio Grupo Bel próximo do ex-primeiro-ministro. De acordo com esta notícia, José Sócrates imputa ao juiz Carlos Alexandre, responsável pelo inquérito do processo Marquês, que este “e a escrivã ‘combinaram entre si, planearam e vieram a conseguir’ que o processo que levou à prisão preventiva do antigo chefe de governo socialista fosse entregue ao próprio juiz Carlos Alexandre“. Prova? Nenhuma.

A absoluta falsidade desta imputação de José Sócrates foi demonstrada no IИCONVENIENTE, em “A parlapatice acaciana do CSM”, de 4-1-2022. Aí se explica que a insinuação de a que a funcionária judicial em causa, a escrivã Teresa Santos, seria uma colaboradora de confiança do juiz Carlos Alexandre é falsa. E se conta que o Ministério Público já arquivara, em 6-12-2021, um processo-crime contra a funcionária em causa. A Lusa, em 3-1-2022, cita a procuradora do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa que arquivou esse processo, a escrivã

“nega que tal distribuição tenha sido propositada, justificando o facto de ter procedido à atribuição manual da maioria dos processos no período entre 1 de setembro de 2014 e 14 de abril de 2015 com constrangimentos ao nível do funcionamento do sistema CITIUS.(…), enquanto os contadores da distribuição do Citius não fossem colocados a zero, para conseguir proceder a uma distribuição automática entre os dois magistrados à data colocados no TCIC, Carlos Alexandre e João Bártolo”.

De acordo com a essa notícia, o Ministério Público realça no despacho de arquivamento que

“foi esta, aliás, a conclusão a que por duas vezes chegou o CSM, que se debruçou por duas vezes sobre esta mesma questão”, num processo de averiguações e num procedimento de inquérito, os quais foram igualmente objeto de arquivamento «sem que fossem extraídas certidões para eventual inquérito criminal ou disciplinar»”.

Mais ainda, o juiz Carlos Alexandre não fora tido nem achado na distribuição do processo feito pela escrivã, conforme prática habitual. Porém, como sabemos, ainda que o nariz de Sócrates, de tão comprido que se tornara, mal conseguisse sair do estúdio da CNN Portugal, como Pinóquio, na história, a quem a fada deixara preso meia-hora de castigo no quarto por causa do vício de dizer patranhas, a mentira dá à volta ao mundo antes que a verdade pura a apanhe. E assim se tenta enlamear a reputação de um herói da justiça com o fito de desviar a atenção para os crimes elencados no processo Marquês.

Porém, esta ofensa ao juiz Carlos Alexandre, tal não seria possível se o assunto não fosse levantado pelo seu colega Ivo Rosa, na decisão instrutória do processo Marquês, de 9-4-2021, que ilibou José Sócrates de 25 dos 31 crimes de que vinha acusado – e que possivelmente o Tribunal da Relação retomará, atento o recurso do Ministério Público. O juiz Ivo Rosa mandou extrair uma certidão sobre a distribuição do inquérito do processo Marquês, ultrajando a honra do seu colega.

Por isso, deve ser recordado o que, segundo a revista Sábado, de 8-12-2021, escreveu o inspetor Vítor Ribeiro, do Conselho Superior de Magistratura (CSM), sobre a conduta do juiz Ivo Rosa relativamente às queixas que este fez de Carlos Alexandre e outros dois colegas:

“Impunha-se, na minha perspetiva do exercício da judicatura, por parte do Exmo. Sr. Juiz de Direito [Ivo Rosa], uma postura que, partindo do reconhecimento do facto de outros terem assegurado o serviço a seu cargo durante o longo período de exclusividade, se mostrasse mais compreensiva, menos autocentrada e, sobretudo, menos potenciadora de desnecessários atritos relacionais.”

As mentiras atiradas sobre a reputação imaculada do juiz Carlos Alexandre resvalam nos sapatos impermeáveis da sua conduta heróica irrepreeensível. Tantas as mentiras de nariz comprido, com as petas de perna curta.


António Balbino Caldeira
Diretor


Pós-texto: Entretanto, parece que o sorteio eletrónico também não serve, como se vê com o processo EDP que voltou a ser distribuído ao juiz Carlos Alexandre (entre os sete juízes possíveis do TCIC), apesar da decisão do CSM, de 11-1-2022

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