Não há rosas e… cravos sem espinhos

Mais uma vez, este ano, ocorreu um 25 de Abril para comemorar ou exorcizar, segundo a sentença de cada cabeça. O “25 de Abril” tornou-se sinónimo de “Revolução dos Cravos” mas é, também, nome duma ponte e, note-se, não dum muro de Lisboa. Ao contrário do muro que é, obstáculo, divisão e muitas vezes símbolo de discórdia, a ponte representa abertura, união, avizinhamento, perspectiva de fuga, extensão de pensamentos e desejos com promessa de encontros.

Não se pode negar que a data em questão representou um ponto de viragem histórica.

Em 1974 abriram-se as portas da esperança dum Portugal diferente, tremeu o muro de fatalismo piegas em que o País vivia. Entre receios do futuro e sobressaltos ideológicos, percebeu-se que era preciso pensar para a frente, sair da comodidade de espírito, pôr em causa o cepticismo crónico generalizado. Rapidamente amputado das colónias africanas, historicamente entalado entre a África conhecida e a Europa por descobrir, perdido e desorientado por uma linguagem nova e quase desconhecida, atordoado por uma vitalidade inesperada, o País teve dificuldade em se ver ao espelho e fazer as contas com a própria vida. Acordando da indiferença e sonolência lúgubre em que tinha caído e vivido até então, foi chamado a arregaçar as mangas para trabalhar na construção duma nova identidade.

Nunca antes se falou tanto de liberdade e de direitos como naquele período.

Embora as pessoas saibam intuitivamente o que é a liberdade, explicá-la é laborioso e difícil porque é um conceito abstracto que, muitas vezes, cada um interpreta e exerce a seu jeito. Talvez seja mais compreensível e concreto falar de liberdades: liberdade de pensamento, liberdade de expressão, liberdade religiosa, liberdade de associação e reunião… e assim por diante.

Obviamente, não há rosas (neste caso cravos) sem espinhos, e o amor não é só mel.

E se é um facto que hoje, graças à Revolução dos Cravos os seus partidários e detratores têm a possibilidade de vergastar livremente ideias e factos, sem serem presos ou exilados, também é verdade que ter-se falado quase nada de limites e deveres no exercício da liberdade, se revelou grave nos anos que se seguiram. Até hoje.

Porque liberdade não significa fazer o que nos dá na real gana, pressupõe respeito pela liberdade dos outros e solidariedade social. A liberdade implica responsabilidade e punibilidade. Esconder-se atrás do “Eles é que disseram, eles é que fizeram, eles é que decidiram…” quando as coisas não funcionam, denota insegurança, fraqueza de carácter e pobreza de ideias.

Escrevia Eça de Queirós há cento e cinquenta anos: «…quando um País abdica nas mãos dum governo toda a sua iniciativa e cruza os braços, esperando que a civilização lhe caia feita das secretarias, como a luz lhe vem do Sol, esse País está mal; as almas perdem o vigor, os braços perdem o hábito do trabalho, a consciência perde a regra, o cérebro perde a acção. E como o governo lá está para fazer tudo – o País estira-se ao sol e acomoda-se para dormir.»

O “25 de Abril” com os seus defeitos e virtudes veio para ficar. Cabe aos Portugueses e só a eles, separar o trigo do joio. Com ele, rompeu-se abruptamente com uma tradição nacional de silêncio e conformismo e todos aprenderam num ápice a bater o pé com revolta e impaciência. Tudo bem, poder reivindicar direitos é sacrossanto mas, infelizmente, caiu-se noutro exagero. Grita-se, esperneia-se e parece que ninguém ouve ninguém.

Nestes quarenta e nove anos, passou-se da lei da rolha à verborreia, à incontinência verbal. Um exemplo adequado são os programas da televisão: a conversa, o debate compulsivo, têm um espaço de antena desmesurado, futebol e política dominam a cena, a arte é a grande ausente e a sátira morreu! Paz à sua alma!

Para não falar da língua portuguesa maltratada. O português é uma das dez línguas mais faladas e aprendidas no mundo, seria fantástico se a estudassem também em Portugal!

Há que continuar a defender as liberdades e direitos fundamentais escritos na Constituição, para que não se percam. Mas é também urgente e fundamental que novos “Vencidos da vida” se contraponham aos numerosos e nefastos “Convencidos” da vida, exigindo que se explique à População que a Cultura faz bem à saúde, não causa alergia, não tem glúten nem lactose. É também preciso desmentir que estudar faz mal aos olhos e queima as pestanas e, por fim, tranquilizar as pessoas esclarecendo que ler um livro não causa impotência nos homens nem esterilidade nas mulheres!


Maria J. Mendes

*A autora escreve segundo a anterior norma ortográfica.

Partilhar

Latest comments

  • Como “Vencida da Vida”, não pretendo dar tréguas aos “Convencidos da Vida” e agradeço o sábio conselho. Artes e Letras são, de facto, as grandes esquecidas e, quando lembradas, geralmente de fraca qualidade, o que se reflecte nos tratos de polé sofridos pela nobre língua de Camões. Parabéns pela reflexão acutilante!

  • Pois é! A ARTE, é como sempre foi uma “coisa” de e para elites. Aliás a CULTURA não faz parte da vida, nem é preocupação da generalidade das pessoas.
    Mesmo a arte e cultura, ditas populares, estão cada vez mais fechadas em museus e dificilmente se acautela que as pessoas conheçam e tenham
    interesse em manter vivas determinadas práticas e tradições..A começar nas escolas, claro!
    PAZ, PÃO, HABITAÇÂO, SAÚDE, EDUCAÇÂO: foram as palavras da canção que marcaram estes quase 50 anos de LIberdade.
    Em todos esses domínios houve evolução extremamente positiva, muito embora não se reconheça tudo o que se fez…
    Foi, contudo, uma pena que não se tenham lançado as bases para uma prática de consumo cultural. è que havendo consumo, haveria produção….

deixe um comentário