Não há livros imorais!

“There is no such thing as a moral or an immoral book. Books are well written or badly written. That’s all!”.

Oscar Wilde (1890). The picture of Dorian Gray. The preface.


No banco dos réus do politicamente correcto, senta-se agora o que se julgaria impensável: o nosso Eça, nem menos.

Ai, se chegam a ler “O Soba de Bicá”, do Pessoa, ainda nos reduzem aos neo-realistas e aplicam “notas pedagógicas” às restantes obras.

Por um lado, até os compreendo…. Após ter dado o meu melhor para que os meus jovens alunos aprendessem a amar Camões e Pessoa, deparava-se-me a fatalidade de ter de ensinar Saramago e Sttau Monteiro, ou melhor dizendo, “Memorial do Convento” e ” Felizmente há luar!”. Era então que também introduzia uma “nota pedagógica” oral, explicando que, a partir desse momento, se aplicava como chave de leitura o materialismo dialético (que sintetizava em meia dúzia de frases). Afinal, há sempre que contextualizar e também lhes havia passado a nota auto-biográfica de Fernando Pessoa, escrita pouco tempo antes da morte, e na qual se afirmava anti-socialista e anti-comunista.

Se bem me lembro, Pessoa começava um poema dedicado à infância, deste modo:

“O Soba de Bicá
Esplêndido gajo
Vestia um trajo
Que era feito de pele
E coisa nenhuma…”

Desmaie a doutoranda e passe de critica queirosiana a pessoana. Vai gostar, garanto!

Contextualizar é imprescindível para o entendimento de uma obra literária, sim, mas sobretudo para evitar o ridículo da exposição da ignorância.

Então, a personagem João da Ega, por muitos considerada alter-ego do próprio autor, era racista e esclavagista? Pois era. E também pedófilo (aos olhos de hoje), machista, satânico e tudo o que fosse preciso para escandalizar os ígnaros. E, claro, como sucede com a generalidade das personagens d’”Os Maias” (exceptua-se Afonso da Maia e pouco mais), é apenas uma caricatura. O género de estereótipos que Eça magistralmente usa para satirizar, como nenhum outro, a sociedade do seu tempo. Ega é o naturalista/realista que tem como missão escandalizar o romântico Alencar, bem como o maior número de pessoas que for possível. Pelos vistos, essa função, sendo ficção, ainda atinge certa atualidade..

Pelo visto, nem a doutoranda, nem os senhores da associação que lhe conferiram imerecida importância, distinguem ironia satírica de realidade. De facto, só nos faltava mesmo ver personagens conduzidas ao patíbulo!…

Se o racismo passa quase despercebido numa obra tão extensa, o mesmo não direi do machismo/marialvismo. Assim, as personagens femininas relevantes poderiam caber em dois subtipos, a beata e a leviana. E, contudo, era Eça a bater-se pela instrução das mulheres, bem como a perdoar-lhes o adultério por causa do ócio e da monotonia das suas vidas burguesas ou aristocráticas.

Assim sendo, que tal deixar os seus formidáveis estereótipos em paz? Seria avisado, já que quase nenhum tipo social, feminino ou masculino, escapa à sua genial ironia. Nem os de então, nem os de hoje, demasiadas vezes idênticos.

Doutorandos, por exemplo, seriam excelente matéria nas mãos do grande sátiro. Doutorandos que ignoram que a branquitude da mulher idealizada remonta, no mínimo, à poesia trovadoresca, reaparecendo no Renascimento, nas Lauras e Beatrizes. Pele de neve, cabelo de ouro, lábios de rubi, são metáforas recorrentes na literatura ocidental. Camões é quase heterodoxo ao cantar a “pretidão de amor” da cativa ou a paixão pela oriental Dinamene.

Na sua obra “Genius”, Harold Bloom escolhe, e destaca, entre cem escritores mundiais, três portugueses: Luís de Camões, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz. Nenhum deles escaparia à nova Inquisição, a “cancel culture”.


Isabel Pecegueiro

*A autora usa a norma ortográfica anterior.

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Latest comments

  • Em tudo e por tudo quanto e como disse concordo consigo

    • Muito obrigada pelo seu comentário.

  • Gostei do que escreveu a autora. Todavia, para perceber bem e completamente o artigo, precisava de conhecer o que disse a “doutoranda”.

    De acordissimo também sobre o facto de se dever sempre contextualizar. Muitas vezes dizem-se e escrevem-se afirmações ou explicam-se razões que soam a sentença, sem una argumentaçāo séria.

  • Li o que escreveu a “doutoranda”, intelectual da modernice mereceu tudo o que Isabel Pessegueiro escreveu. Eu iria mais longe – apetecia-me insultála.

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