Medicina em Portugal: a morte da competência e o falso amanhecer

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Quando nos apercebemos que a experiência e o saber são substituídos por burocratas que tomam conta das nossas vidas e da nossa actividade como médicos e pessoas, descobrimos que estamos num beco sem saída.

Alguns de nós, médicos, muitos em fim de vida profissional, questionaram-se sobre as alterações nas carreiras e na nomenclatura dos graus, que eram por concurso público. Por exemplo, do termo de Chefe de Serviço mudou para Assistente Graduado Sénior, que parecia uma pequena alteração semântica mas que apenas serviu a muito poucos, no termo e no proveito, dos decerto “ungidos”. Não houve desde 2006 progressão nas ditas carreiras, o que foi causa já longínqua da fuga de muitos para o sector privado e da entrada condicionada de poucos. Isto pode ferir os ouvidos de alguns, mas mais, decerto, concordam com o que afirmo e justifico.

A Ordem dos Médicos, e os seus bastonários, (não todos, relembro o meu querido bastonário Senhor Doutor Gentil Martins) também consentiram. Uma Ordem, amedrontada e tolhida com as críticas lançadas pelo politicamente correcto e com medo das acusações de corporativismo de classe, com origem no vulgo, no desconhecimento e nos mal intencionados. Mas, essencialmente preocupada com a manutenção do “status quo” e a porta giratória do Estado partidarizado.

Assim, para que servem as palavras vazias e os actos no papel, se nada melhore e tudo se degrada, no funcionamento e na qualidade? O gosto pelo que se faz degenera em desalento, decerto não causador de mau desempenho, mas provocando a fuga dos melhores que solidariamente apoiavam os mais novos e os formavam graciosamente. A qualidade diminui de forma drástica até ao ponto em que o limiar inferior da aptidão pode ser causador das desgraças dos diagnósticos tardios e erros sucessivos.

Os grandes gestores e mestres dos cursos a metro, criados “à la carte”, os dos numerosos cargos dos órgãos intermédios, criados em catadupa pelas várias “Leis de Bases”, recearam aquilo que nunca conheceram, por pouco ou nada exercerem na nobre arte da Medicina e da vida profissional de todos os dias: o espírito de corpo, de equipa e de solidariedade, a amizade criada no trabalho e na satisfação do bem fazer, o desalento também da tristeza da morte daqueles por quem nada podemos mais fazer, sobrando apenas reconfortar o que está ao nosso lado e os entes queridos dos que não resistiram.

Muitos de nós, uns, já aposentados, outros que mais cedo, por infelicidade, adoecem, ou temem adoecer, quantas vezes nos questionaram a nós próprios ou em conversa informal, se um dia estivermos na eminência de uma dessas situações atrás descritas, dos medos e receios, porque sabemos o que o simples cidadão não sabe, de ser alvo de erros repetidos de muitos que pensam ser a praxis médica uma ciência de algoritmo e que basta não estar na equação, o Y ou o Z, para que tudo corra mal. Ou não bastando apenas, ter-nos calhado em sorte, no atendimento, a nós, a um familiar nosso, tomando o caso particular. Ou, no sentido geral, a um doente por nós enviado, para cuidados hospitalares específicos, um ser sensato e sabedor que nos irá valer. O que será de facto, azar ou sorte, porque tudo aquilo a que esse colega, tem de recorrer, desde os factores humanos, aos físicos, não está lá e se esses factores estão, não funcionam como deveriam, na grande maioria das vezes, levando então o caso para a pura ajuda de Deus, de nos valer a natureza, ou o resvalar para erro seguido do erro (fruto já da formação pós-graduada em declínio), acabando na consequência mais tenebrosa.

Será este pensamento simples medo sem razão ou medo justificado por casos, demasiadas vezes verificados, no assim chamado SNS?

Hoje, a excepção da falha nos serviços hospitalares ou dos cuidados menos diferenciados, chamados Cuidados de Saúde Primários – mas não menos importantes, porque primeira barreira -, não estará a caminhar para a regra?

Porque ficam os concursos desertos?

Porque só funcionam as USF modelo B e porque não são escrutinadas sem influência dos ligados ao poder, desde sempre e que são os avaliadores e criadores dos chamados indicadores? Será injusta esta afirmação?

Então porque é que há Unidades de Saúde Familiar (USF) modelo A que não chegam a B, nunca, razão da saída de muitos e não entrada de outros tantos? O mesmo – pior ainda! -, se passa com as Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP).

Porque há tanta discrepância nos incentivos de tantas USF modelo A, ou sejam, nenhuns em relação às B?… Como exemplo, os domicílios remunerados.

Tudo isto e muito mais, que não digo por pudor, leva a diferenças entre pares, mas também em relação aos utentes porque as USFs modelo A e as UCSPs se extinguirem, por os médicos as abandonarem e poucos entrarem, criou um problema de injustiça e inconstitucionalidade: os utentes deixaram de ser todos iguais porque estes ficaram sem médico de família por não pertencerem a uma USF B!

Quantos de nós se interrogam hoje, por múltiplas experiências, ou por conhecimento de outras, que o sistema faliu e falha há muito, sistema nacional, serviço nacional ou o que quiserem chamar?…

Antes, a formação era dada porque havia hierarquia baseada no valor, havia respeito e reconhecimento pelo saber, até ao fim da vida clínica porque havia, e há sempre, qualquer coisa nova para aprender, entre nós todos – os mais novos e os mais velhos – porque a equipa era um meio de enriquecimento do conhecimento, uma forma de criar elos de amizade e gratidão que nos acompanhariam para sempre.

Hoje, com tantas “reformas” realizadas por burocratas, coadjuvados por  indivíduos, que seguem a liturgia das várias tendências políticas coladas ao poder, usam a semântica e a retórica da cegueira, insultam os que os interpelam, para atingir fins pessoais, ou de grupos parasitas, ultrapassando tudo e todos, chegando sem pudor ao topo das carreiras, provocando o degenerar dos “Serviços”,  que deixaram de existir, para ser substituídos por um grupo de gente, em que uns se  sentem  perdidos, outros, com vergonha ou receio de má resposta, por pedir ajuda numa simples opinião,  outros ainda, desanimados e já sem vitalidade ou paciência para receber ordens de um qualquer nepote político que subiu na hierarquia, porque tem um mestrado, sem interesse para o caso e para a função, e com adenda  de condição, dada por padrinho político das seitas em vigor, devidamente publicada no Diário desta República.

Assim, concluído o vazio instalado, na hora da decisão, esta, é negada ou procrastinada pelo burocrata ou por tabela de valor, definido em uma qualquer norma ou directiva sem sentido, verificando-se então, que morreu o exercício da clínica em tudo o que ela deveria ser, a pedra basilar do exercício da Medicina, por mais modernos que sejam os tempos, ou pelos  vários significados de se ser moderno nos tempos que correm.

O novo desenho dos engenheiros sociais desconstrói a sociedade em todos os seus ramos. No caso a Medicina, neste nosso pobre País, permitida pelo silêncio de uns, encolher de ombros de cada mais gente e aplaudida  pelos que o aproveitam, levando a que as carreiras médicas e também as de enfermagem, fossem esvaziadas dos conteúdos necessários, através de escalões que paralisaram, num caso, e redução a quase zero no outro, levando ao abandono, por ultrapassagens sem mérito, com as consequências que só os que nada querem ou devem aos poderes instalados, percebem e desprezam, abandonando  por aposentação ou demissão para trabalhar noutros locais em que são mais bem tratados, fora do Estado.

Criaram os vários engenheiros das mil reformas e repristinações, que pertencem sempre aos mesmos grupos, estruturas que se atropelam e sobrepõem em funções, aumentando o número de burocratas e despesa a eles colada, porque foi preciso matar a competência, coisa que odeiam e a que são alheios, levando à morte dos serviços e, já agora, ao erro da decisão e estas à fuga em massa dos mais capazes. 

Hoje como muitos de nós observam, se aparece situação complicada ou que tal pareça de início, as portas dos gabinetes fecham-se a quem pede ajuda e cada vez mais, há surdos e mudos e corredores vazios, para ajudar numa decisão, como sucedeu na crise Covid, espoleta que rebenta todos os dias.

Sei que a clínica nunca deixou de ser um acto solitário para muitos de nós. Mas tempos houve, em que o pedido de uma opinião era bem recebida, com um simples telefonema, com um olhar ou uma palavra, baseada no antigo Juramento de Hipócrates – porque o novo, deixei de o ler no primeiro parágrafo por ser coisa de regime político demasiado secularizada. 

Podem fazer as leis de bases da saúde que quiserem e fizeram, usando uma geringonça de interesses, sem olhar para o bem comum, apenas para as ideologias amalgamadas, com mais ou menos pressas, agenda de conveniência ou marca de dono, mas o que é certo, é que o objecto delas, é já cadáver, não servindo o doente ou conforme o caso da retórica em uso, utente (do latim, aquele que usa, usuário), palavra despropositada, porque destes, muitos se querem, não usam, porque não têm acesso, os que têm esperam e desesperam, outros, tiveram sorte de cair em serviço ainda vivo e com qualidade, o que é excepção, restando, à grande maioria, o que a natureza lhes determinou.

Muitos outros ainda têm a sorte de usufruir de um seguro de saúde de grupo pago por empresa empregadora, por sacrifício pessoal, ou subsistema que as hienas ainda não destruíram.


J. Lopes

*O autor escreve segundo a anterior norma ortográfica.

Nota: este texto foi atualizado em 20-6-2022, pela 1:04.

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