Mecanismo ibérico, o novo milagre das rosas

Face ao previsível aumento do preço do gás natural liquefeito, por efeito das sanções e contra-sanções à energia proveniente da Rússia, Portugal e Espanha conseguiram fazer aprovar na Comissão Europeia um “mecanismo ibérico” que, alegadamente, faz com que o preço da eletricidade produzida a partir do gás natural não sofra com as subidas de preço do gás.

Sendo uma grande parte da nossa eletricidade produzida a partir do gás, principalmente após o fecho prematuro das centrais a carvão, o citado mecanismo prevê que o gás natural usado na produção de eletricidade tenha um preço fixado em 40 €/MWh, sendo a diferença para o preço de mercado (superior a 100 €/MWh) compensada com subsídios.

Mas acontece que os subsídios vêm do Estado, ou seja, dos impostos. Portanto, em média, a eletricidade não subiria tanto como seria de esperar se as centrais pagassem o preço de mercado do gás, mas o contribuinte vai ter de pagar mais impostos para que o Estado possa subsidiar.

Para que a ilusão do milagre seja ainda mais perfeita, o mecanismo prevê que sejam os “beneficiados” a pagar (pelo que passam de beneficiados a “prejudicados”) através de um ajuste que discrimina antigos e novos consumidores, consumidores domésticos e industriais, pequenos e grandes consumidores, etc.

Uma trama bem urdida para disfarçar algo muito simples, em suma: se o preço do gás aumenta, vamos ter de pagar mais pela eletricidade por via direta (como anunciou o presidente da Endesa) ou indireta, através de mais impostos.

Tudo o mais é o socialismo no seu melhor, em que o Estado arrecada metade do que as empresas podiam pagar aos trabalhadores, para depois se armar em Estado-providência que protege os trabalhadores: o milagre das rosas!


Henrique Sousa

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Sub-diretor do Inconveniente

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  • Isto resume tudo na nossa vida em sociedade: “vamos ter de pagar mais pela eletricidade por via direta …. ou indireta, através de mais impostos.”, sendo que a “via indirecta” tem duas desvantagens, incentiva o consumo de uma coisa que já está em preços altos, logo potenciamos ainda mais o seu aumento, e a cobrança de impostos prejudica o crescimento da economia. Falamos neste caso da electrecidade, mas podiamos estar a falar do preço os combustiveis, das portagens na auto-estrada, das propinas no ensino superior, das taxas no acesso á saúde pública e por aí adiante.
    Não estou a opinar se essas taxas devem existir ou não, só estou a dizer que acho pouco honesto e insultuoso para a nossa inteligência que se deixe passar este discurso muito esquerdista (mas não só) de que determinado serviço deveria ou poderia ser grátis, quando na realidade a questão que tem que ser colocada é se achamos que determinado serviço deverá ser pago, parcial ou totalmente, apenas por quem utiliza (taxas) ou ser pago por todos (impostos).
    É A ou B, não há opção C. Claro que gostariamos todos que tudo fosse grátis, por exemplo a saúde, mas infelizmente os construtores civis não vão fazer o hospital de graça, nem os donos dos terrenos os entregam de borla para a sua construção, nem os médicos/enfermeniros/empregados de limpeza/porteiros vão trabalhar sem receberem, nem ninguém oferece água/electrecidade/medicamentos e equipamentos médicos…. agora, faço uma afirmação comunista e digo: “A saúde tem que ser grátis!” Devia de facto, mas isso é fantasia, não é nem poderá ser, honestamente, só podemos responder á questão: Quem é que paga o sistema de saúde?

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