Marcelinos vs. Mamadous: Portugal vs. Senegal

Se Mamadou Baila Ba se considera português como qualquer umentrevista TVI24, de 24-02-2021 -, então deveria ter tanto desprezo como respeito pela memória coletiva nacional.

Com efeito, não há motivo de orgulho para muitos factos que ocorreram antes do 25 de abril de 1974, como depois da revolução (e mesmo atualmente). Tal como há muitos acontecimentos, nos quase nove séculos de história de Portugal que nos enchem de sentimentos patrióticos. A história de cada país é feita pelos seus homens e mulheres, heróis e cobardes, santos e pecadores, Marcelinos e Mamadous.

Nesta ordem de ideias, cabe-nos denunciar o preconceito ideológico de encarar a realidade sob o ponto de vista exclusivo do movimento político (New Left) em que se milita. Este preconceito é patente em Mamadou quando este ensaia, na mesma entrevista, uma perspetiva mais abrangente:

Disputa sobre a memória é diferente da disputa para a memória: uma disputa sobre a memória é aqueles que não querem que o passado passe, a disputa para a memória é aqueles que querem ser incorporados na narrativa coletiva para que sejam representados no imaginário coletivo nacional. Para essa disputa estamos prontos e queremos fazê-la.”

Sabemos, pois, que a “memória” de Ba é seletiva: vale para naturalizados vindos do Senegal, mas para heróis da Guerra do Ultramar já não convém. Para o líder do SOS Racismo, esta última é a memória dos que “não querem que o passado passe”, e não a dos portugueses que foram completamente esquecidos e abandonados pelo mesmo país que os chamou ao seu serviço.

Inclusivamente, heróis como Marcelino da Mata, que nem o facto de ser negro num país alegadamente “racista” o impediu de ser o militar mais condecorado da história, com um desempenho sobrehumano na Guerra do Ultramar, cujos feitos em combate, diga-se de passagem, já deveriam ter merecido um filme que o representasse e incorporasse no nosso imaginário coletivo.

Mas, ao contrário, podemos nós orgulharmo-nos de portugueses que cospem no prato onde comem, ou seja, nos símbolos e história do país que os acolhe e que, no caso de Ba, ainda lhe dá palco?

Mamadou diz ainda que em Portugal se resolveria o alegado “racismo estrutural” dos negros não ascenderem socialmente só por serem negros, com “quotas” que lhes permitissem subir na escala social só por serem (wait for it!…) negros. Acrescentando que em Portugal “não há negros em lugares de decisão”.

Ora, isto faz tanto sentido como Mamadou voltar para o Senegal só porque é negro. E aí se sentirá mais feliz num país que, na prática, não permite a brancos ascenderem social ou politicamente só por causa da sua cor da pele. Pelo menos assim parece quando se olha para a Assembleia Nacional do Senegal…


Maciel Rodrigues,
Diretor-Adjunto do Inconveniente


*Imagem: Assembleia Nacional do Senegal

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Latest comments

  • Vai-me desculpar, mas parece-me que consigo contar dois brancos nessa sala : um é fotógrafo, o outro está de pé mais à direita !
    Vai acontecer à Europa o mesmo que aconteceu a Roma : indigestão de cultura !

  • A história de um país é feita pelos que para ela contribuíram e nada deve ser apagado. O bom e o mau são apreciações subjetivas e sectoriais que devem cingir-se a isso mesmo. O hábito nacional de cada Poder novo querer apagar a história que não lhe convém, é estúpido e anti cultural, e faz com que o país se iniba de discutir e aprofundar a sua história e identidade.

  • A própria História dos Africanos deve ser mais cultural e menos racista
    do que as da europa, eles próprios entre tribos portaram-se muito bem, o que ainda hoje é visivel com as noticias de massacres que vêm de lá, mulheres e crianças assassinadas ás mãos de africanos e os brancos que em África são chacinados e torturados só porque são Brancos. enfim sinais dos tempos, dá-se palco a Hipócritas, só tenho pena que além de palco ainda leva um bom ordenado, que a maioria dos nossos trabalhadores nunca vão conseguir

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