Marcelino da Mata

Morreu ontem, era Tenente-Coronel, português da Guiné e um dos maiores guerreiros do Império.

Marcelino da Mata, da etnia papel, viu a luz do dia em 1940, numa ignota aldeia guineense, quando a Europa gemia sob o fragor da Segunda Guerra mundial.

Era preto e por isso não podia frequentar o liceu.

A discriminação racial só acabaria duas décadas depois.

Incorporado por engano em 1960 (tinha ido em vez do irmão), o jovem Marcelino decidiu que combater por Portugal era melhor, porque não gostava de cabo-verdianos e eram estes que mandavam no PAIGC.

Dois anos depois, voltou a ser incorporado, desta vez em nome próprio. Era cabo condutor, mas como falava vários dialetos locais, acabava requisitado para acompanhar operações, como intérprete.

Ganhou tarimba e traquejo debaixo de fogo. Descobriu que tinha nascido para aquilo.

Em 1964 não hesitou e ofereceu-se como voluntário para os Comandos. Fez o duríssimo curso em Angola e, de regresso à Guiné, desaguou diretamente na gigantesca operação de limpeza da ilha de Como, onde, durante mais de dois meses, se desenrolou uma batalha feroz. Marcelino Mata ganhou aí as alvíssaras de combatente de escola, e foi condecorado com duas Cruzes de Guerra.

Participou em várias operações na região de Cumbamory, Senegal, uma das quais, à frente de duas dezenas de homens, conseguiu libertar dezenas de prisioneiros. Numa povoação senegalesa onde, além das tropas do PAIGC, estava um batalhão senegalês, Marcelino da Mata não hesitou e atacou o quartel.

Na confusão criada logrou extrair os prisioneiros, descalços e em roupa interior e regressou com eles, nessas condições, aguentando a perseguição ao longo de muitos quilómetros. Recebeu por isso a Torre e Espada, a mais alta condecoração portuguesa.

Voltaria a Cumbamory em 1973, na famosa na Operação Ametista Real, sob o comando de Almeida Bruno, para  aliviar o cerco de Guidage.

Em 1970, participou também na Operação Mar Verde, que entrou em Conacri, capital da Guiné com o mesmo nome, sob o comando de Alpoim Galvão.

Marcelino da Mata admirava Spínola, o homem que acabou com as diferenças raciais nas forças que combatiam na Guiné.

Após o 25 de Abril, o seu mundo desabou e a terra pela qual combatia há quase 15 anos, passou, num golpe de secretaria, para as mãos dos seus inimigos figadais.

Acompanhando o regresso das tropas, Marcelino da Mata disse adeus às matas e bolanhas da sua terra e acabou em Lisboa, no calor do PREC e do domínio daqueles que sempre considerou derrotistas e comunistas.

Milhares de combatentes como ele, não tiveram a mesma sorte e, abandonados à sua sorte, acabaram mortos pelos novos senhores da Guiné.

Em Maio de 1975, o então alferes Marcelino foi preso em Lisboa, por elementos da extrema-esquerda. Levado para o RALIS, foi acusado de pertencer ao ELP.

Nas agressões e torturas que se seguiram, ficou com a bacia e quatro costelas partidas e danos irreversíveis na coluna vertebral.

Atirado para Caxias, aí se manteve vários meses até que logrou sair.

Apercebendo-se de um complot para o entregar ao PAIGC, fugiu a salto para Espanha e França, onde passou as passas do Algarve, dormiu no chão e trabalhou a distribuir refrigerantes.

Regressou a Lisboa após o 25 de novembro, foi graduado em capitão e passou à reforma por incapacidade física, em virtude dos ferimentos e das lesões.

Morreu em Lisboa, aos 80 anos, longe de casa, um guerreiro inigualável que quis ser português, que combateu por Portugal e que acabou ostracizado e quase ignorado.

“Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, fizestes o que devíeis, ela o que costuma” (Padre António Vieira, 1669).

José do Carmo

Partilhar

Sem comentários

deixe um comentário