Lockdown energético

Em 1-2-2006, o New York Times referiu que George W. Bush terá dito que a América estava viciada em petróleo. A situação é mais pesada: o mundo continua viciado nos combustíveis fósseis.

Petróleo, carvão e gás são as principais fontes de energia mundial e o seu consumo cresce linearmente desde 1965, pelo menos. Seguem-se, por ordem de importância, a energia hídrica, nuclear, eólica, solar, demais renováveis e por último os biocombustíveis. Em termos percentuais o consumo do petróleo está a baixar, o do carvão mantém-se e o do gás sobe. Em 2019 o petróleo supria 33% das necessidades, o carvão 27% e o gás 24%.

Ou seja, os combustíveis fósseis cobrem cerca de 85% das necessidades energéticas mundiais atuais. Os restantes 15% dividem-se por: hídrica 6,5%, nuclear 4,5% e renováveis 4%.

O gás tem vindo a substituir o petróleo e o carvão não perdeu relevo. Em termos absolutos o consumo de combustíveis fósseis sobe linearmente de ano para ano, sem sinal de abrandamento, duplicando a cada 30 anos sensivelmente.

O preço do petróleo está em queda desde o início desta crise sanitária. Todavia, deve voltar a subir quando passar a crise e a circulação rodoviária e aérea normalizar já que o petróleo é a matéria-prima dos combustíveis utilizados maioritariamente nesses setores.

Além disso, a concorrência perfeita não se aplica ao petróleo porque os países exportadores de petróleo se encontram cartelizados na OPEC (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), que manipulam as quotas de produção para determinar os preços.

Aliás, segundo a Reuters, no dia 24-3-2021, o preço do petróleo subiu agora porque um dos maiores navios porta-contentores do mundo, do armador Evergreen, encalhou no canal do Suez e está a impedir a passagem de petroleiros através da rota mais próxima para a Europa e América, dificultando a distribuição e provocando a subida do preço.

Apesar disso, os preços do petróleo, do carvão e do gás, mostram, desde há uma década, uma tendência nítida de descida. A queda dos preços dos combustíveis fósseis tornaria inviáveis os investimentos em energias renováveis, não fossem as medidas protecionistas impostas por outro cartel, o do politicamente correto e da fábula do aquecimento global de origem antropogénica.

Ao contrário do que acontece com outros bens, os combustíveis raramente concorrem entre si, porque cada um tem uma tecnologia associada que lhe dá uma aplicação particular mais vantajosa em relação às outras.

As energias renováveis não conseguirão facilmente (sem investimentos massivos em sistemas de armazenamento) substituir os combustíveis fósseis nos anos vindouros. E as metas de descarbonização são quase impossíveis de alcançar com a atual tendência de aumento do consumo mundial de combustíveis fósseis.

Os bio-combustíveis podem e devem ser utilizados, mas entram em conflito com as necessidades da indústria alimentar e em concorrência com os combustíveis fósseis. Enquanto o bio-etanol for mais caro que a gasolina e o bio-diesel mais caro que o gasóleo, ninguém altera o seu carro para o adaptar a um novo combustível. Sem alteração, os bio-combustíveis podem ser misturados em pequenas percentagens à gasolina e ao diesel. Porém, não ao ponto de reduzir o crescente consumo dos combustíveis fósseis.

A bio-massa (lenha, pellets, resíduos florestais) poderá ter alguma expressão no aquecimento e mesmo na geração de eletricidade, mas não irá destronar as vantagens do gás canalizado, do óleo de aquecimento ou da própria eletricidade no que respeita à comodidade de utilização.

É compreensível que os países utilizem recursos energéticos endógenos que permitam poupar na importação de combustíveis fósseis. É compreensível que os países dependentes dos combustíveis fósseis queiram reduzir essa dependência. É compreensível que a existência de alternativas possa contribuir para fazer baixar os preços dos combustíveis fósseis.

Contudo, não é compreensível que se queira fazer crer que temos, custe o que custar, de abandonar os combustíveis fósseis com o argumento de que a sua queima dá origem a um gás de efeito de estufa que fará aquecer o planeta, tornando-o inabitável.

Porque, se fosse verdade, seria imperioso fazer um lockdown energético para inverter a curva ascendente do consumo de combustíveis fósseis, o qual está ainda longe, muito longe do seu pico, quanto mais da inversão.

Se fazemos lockdowns sanitários para evitar a propagação de um vírus, com maioria de razão – e a ser verdade a teoria do aquecimento global antropogénico – deveríamos também decretar o lockdown energético que impedisse, nomeadamente, a circulação de todo e qualquer veículo a gasolina, a gasóleo ou a GPL. E toda a utilização do petróleo, do carvão ou do gás natural, doesse a quem doer. A causa da salvação universal merecia esse sacrifício.

Não obstante, estas medidas não são sequer equacionadas, quanto mais executadas. Imaginem-se os interesses atingidos e o rolar de cabeças que se seguiria, além da revolta das populações afetadas pelo bloqueio, pela fome e pelo frio.

E é por isso que, com a informação hoje disponível, se torna difícil aceitar as políticas energéticas e ambientais de descarbonização, sabendo que elas de nada vão adiantar e que o consumo energético de origem fóssil vai continuar a duplicar a cada 30 anos. Como se pode verificar no gráfico abaixo.


Henrique Sousa
Editor de Energia e Ambiente do Inconveniente

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