Lítio: um metal estratégico endemoninhado

O lítio de que tanto se fala recentemente em Portugal é um elemento metálico leve, com símbolo químico “Li” e que existe em pequeníssimas concentrações na crosta terrestre. O lítio não aparece na natureza no seu estado nativo, mas sim disseminado em minerais nas rochas como a espodumena, petalite, lepidolite ou ambligonite. Existem muitos tipos diferentes de rochas na crosta continental, mas, em média, esta crosta contém entre 10 e 20 ppm (partes por milhão) de lítio. Ou seja, ao extrair-se 1 tonelada de rocha obtém-se entre 10 e 20 gramas de lítio. Estes cálculos não são, no entanto, assim tão lineares e estes teores não são economicamente viáveis.

Todos os minerais, metálicos ou não metálicos, passam por processos que determinam quando, como, e onde se formam, e outros processos que determinam quando, como e onde se depositam. Os processos geológicos que conduzem à concentração de lítio são assim absolutamente essenciais para que se possa encontrar materiais rochosos com concentrações que sejam economicamente interessantes e passíveis de serem minerados.

O lítio em Portugal está longe de ser o lítio conhecido da América do Sul. O Chile tem as maiores reservas de lítio do mundo, que ascendem a cerca de 8 milhões de toneladas. A grande vantagem dos depósitos aqui reconhecidos é que a sua extração é relativamente simples, com baixo custo, pois o lítio chileno está associado a precipitados de sal em salmouras e numa zona com uma tradição mineira pré-existente. Nestas salmouras, as concentrações de lítio chegam aos 6%. Este é um cenário bem diferente daquilo que se pode encontrar no caso do potencial litinífero português.

O lítio em Portugal está associado a pegmatitos, uma rocha magmática intrusiva ácida, geralmente de carácter tardio, fruto de um importante conteúdo aquoso no magma. Este tipo de rocha frequentemente alberga minerais de grandes dimensões (de alguns milímetros a centímetros), como seja o quartzo, outros minerais muito interessantes em termos de beleza e composição, como sendo a turmalina (grupo em que uma das variedades também pode incorporar lítio), berilo, apatite ou mesmo a fluorite. Estas rochas são também ricas em feldspato e micas, mais comummente a moscovite, mas também a lepidolite, uma mica de lítio, e ainda a espodumena, outro silicato de lítio. Tanto a lepidolite como a espodumena podem incluir até 8% do óxido de lítio.

Existem vários exemplos de extração de lítio a partir de pegmatitos em outros países, nomeadamente a Austrália, a China ou o Brasil. No entanto, e sem rodeios, é significativamente mais caro e mais difícil fazer a extração e processamento do minério de lítio a partir do pegmatito, do que a partir de salmouras. Uma importante característica deste tipo de rocha é que ela geralmente forma filões que intruem outras formações rochosas, ou seja, em vez de maciços de grande dimensão, os pegmatitos são geralmente corpos tabulares que podem alcançar centenas de metros de comprimento e alguns metros de largura.

Este facto dificulta o projeto mineiro, quer a nível do desmonte como da obtenção de concentrado. Um fator crítico na tomada de decisão sobre a existência ou não de potencial em lítio prende-se obviamente com a modalidade (ocorrência) do minério de lítio presente no pegmatito. Como já referi, a espodumena pode concentrar até 8 % do óxido de lítio. No entanto, em Portugal, o óxido de lítio deste mineral situa-se nos 4 %, isto é, de 100 gramas de espodumena, consegue-se (em teoria) recuperar 4 gramas de óxido de lítio.

Assim, a concentração de espodumena no pegmatito é fundamental para perceber quanto lítio se conseguirá recuperar a partir da extração dos pegmatitos, sendo que, para cada filão e sector este valor pode variar. Esta análise faz parte da fase de averiguação da tonelagem e do teor mineral, necessariamente obtida através da realização de sondagens. Estes valores são aferidos através de testes de separação do recurso de interesse do restante, a chamada ganga. De pouco adianta saber o teor à superfície quando se falam em investimentos chorudos de vários milhões de euros. É necessário compreender de antemão qual a dimensão e potencial do depósito em causa em profundidade para se perceber a sua viabilidade económica.

Em Portugal existem cerca de 25 sectores estudados ou em estudo, a grande maioria tendo abrangido antigas áreas mineiras. Destes, apenas 9 são considerados com potencial – Serra d’Arga, Barroso-Alvão, Seixoso-Vieiros, Almendra, Barca d’Alva, Massueime, Guarda, Argemela e Segura, sendo o projeto mais avançado e com maior potencial o do Barroso. As atividades de prospeção do recurso (para conhecimento) com a realização de sondagens para recuperação de rocha em profundidade têm provocado tensões com grupos de ativistas ambientais e outros cidadãos preocupados.

A verdade é que, para se chegar com maquinaria a determinados locais (e os locais são escolhidos pelas observações de campo e pelos estudos feitos em antemão), é obviamente necessário criar acessos, vão fazer-se furos e, consequentemente, durante alguns meses (senão anos) haverá marca dessa atividade na paisagem.

Mas penso que estaremos todos de acordo que este passo é fundamental para que todas as partes interessadas, sejam elas os investidores privados, o governo ou as populações, consigam formular opiniões bem fundamentadas sobre a matéria. Só após esta fase é que será possível pensar-se na durabilidade do recurso e se valerá a pena alterar a paisagem e fazer a sua adaptação a uma nova e importante indústria tendo em conta o recurso estimado.

Neste momento, os dados existentes apontam para um recurso de 1,1 a 1,5 milhões de toneladas de carbonato de lítio equivalente. “Valerá então a pena?” – perguntarão uns. Para se responder a esta questão não bastam exercícios especulativos ou opiniões pessoais (todos teremos uma, não querendo isso dizer que seja a única correta). Como este tema é de interesse nacional e internacional, estas decisões, caso a caso, têm que ser tomadas de forma muito séria. Para isso é necessário cruzar dados de diferentes tipologias, é necessário trabalho de investigação e avaliações rigorosas. Também é necessário haver estabilidade no sector, e não me refiro apenas ao preço do lítio, que obviamente condiciona a evolução destes projetos, mas nomeadamente haver uma estratégia nacional para o conhecimento e exploração dos recursos minerais e as leis correspondentes. Qual o real empenho e quais as diretivas do(s) governo(s) relativamente à indústria extrativa e transformadora de minérios para Portugal?

Portugal é dos poucos países europeus que ainda não tem um levantamento, na forma de cartas geológicas de algum detalhe, do conhecimento sobre as rochas aflorantes no seu território. Isto é bastante grave e resulta diretamente de uma alienação nas últimas duas ou três décadas dos sucessivos governos em relação à pasta da Geologia e dos Recursos Geológicos. Assim, muito da pesquisa de recursos geológicos acaba por ficar dependente do financiamento privado. Mas se olharmos para o PIB português por sectores, iremos perceber que apesar de um volume de empresas muito reduzido, a indústria extrativa corresponde ainda assim a um valor acrescentado bruto anual de quase 600 milhões de euros.

Este valor está bem longe dos quase 1600 milhões de euros equivalentes na Noruega (dados de 2011 e sem incluir o petróleo) e que contribui para o elevado PIB per capita norueguês. A grande diferença entre Portugal e Noruega, no que toca à temática deste artigo, é efetivamente a estratégia e a política. Em 2013, o relatório da estratégia para este sector na Noruega dizia “The government wants Norway to be an attractive country for mining activities”. Sem rodeios! O sucesso crescente desta indústria com o impacto importante na qualidade de vida dos noruegueses traduziu-se em 2010 numa nova Lei dos Minerais que pretendia simplificar muito os procedimentos e regulamentações, ao mesmo tempo que tornava tudo mais transparente. Esta lei nasceu de um esforço de décadas e de um intenso diálogo com todos os atores sociais, empresas e a indústria extrativa, organizações ambientais e inclusivamente representantes de outras indústrias importantes no país.

Ou seja, os governos noruegueses encontram-se absolutamente empenhados em criar consensos e encontrar soluções que compatibilizem desenvolvimento sustentável, atividades extrativas e qualidade de vida para as suas populações. E ninguém aqui vai questionar o investimento e interesse por parte dos Noruegueses na preservação das suas paisagens absolutamente únicas e de grande valor ecológico.

Termino com uma última reflexão. Existem alguns desafios que temos que considerar antes de nos decidirmos ser a favor ou contra a exploração dos recursos naturais. Um dos desafios prende-se com o estilo de vida ocidental, com as economias mundiais emergentes que almejam o mesmo estilo de vida e com o contínuo crescimento da população mundial. Isto tem reflexo na quantidade de matérias-primas que são necessárias para manter ou ir ao encontro das necessidades atuais e futuras.

Não basta reciclar ou reutilizar, lembremo-nos que nem tudo é passível de ser reciclado ou reutilizado. Outro desafio são os impactos das atividades humanas e as estratégias mitigadoras que o mundo, mas mais concretamente a União Europeia, decidiu implementar para tentar minorá-los. Nesse sentido, Portugal está inserido numa estratégia internacional para a descarbonização e transição energética, ou seja, reduzir as emissões de CO2 e transformar a indústria e transportes para que dependam menos dos combustíveis fósseis, dando lugar à energia elétrica produzida a partir do sol, das marés ou do vento.

A curto prazo este tipo de transição depende do lítio. E isto não é uma opinião pessoal, são os especialistas em tecnologia que o dizem. Ainda que haja muita investigação no domínio do desenvolvimento de baterias, ao nível de capacidade, segurança e aplicação, as baterias com lítio são as mais interessantes e viáveis, são estas as escolhidas pelos investidores e são elas que vão dominar esta primeira fase da transição energética.

Isto não implica que daqui a 20 anos a tecnologia não mude. Nada contra, se for para melhor. Mas, no imediato, são as baterias a lítio que vão à frente e é preciso saber se Portugal se mantém à margem, continuando a apostar apenas em serviços e turismo, ou se assume finalmente que tem condições para extrair e transformar o lítio.

A transparência, a comunicação e o envolvimento com as comunidades, a transmissão de conhecimento técnico de forma clara, a credibilidade dos diferentes atores, a existência de estratégias nacionais, regionais e locais que estejam bem estabelecidas e sejam conhecidas são essenciais para o futuro. No caso do lítio em Portugal, a falta destes ingredientes está por detrás da contestação existente. A gestão desastrosa por parte de todos os governos nos últimos 20 anos, que culminam agora com a estratégia para a valorização do lítio (de 2018, quase 10 anos depois dos noruegueses começarem a delinear a sua estratégia sobre esta matéria), e que no fundo é um correr atrás do prejuízo, é tardio, e não vem apaziguar as populações locais e nem os portugueses como um todo.

Infelizmente continuamos a assistir ao perpetuar da forma trágica como a Geologia e os recursos geológicos são tratados em Portugal e ao endemoninhar do lítio.


Fontes: Os dados mencionados foram obtidos a partir de relatórios que podem ser encontrados nas páginas institucionais do LNEG, PORDATA e NGO e na base de dados GERM.


Inês Pereira
Investigadora na Universidade de Clermont Auvergne, França, doutorada em Geologia.

Partilhar

Latest comment

  • Obrigada, nós aqui no Norte de Portugal não queremos minas! Porque vão dar cabo das águas do Norte e das agricultura, que são o nosso sustento, obrigada

deixe um comentário